"Meu Filho Encontrou Seu Gêmeo no Aeroporto — e Eu Descobri Que Tinham Roubado Meu Bebê" Capítulo 3
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POR QUE VOCÊS FICARAM COM ELE?
Noah estava sentado perto da lanchonete quando Camila voltou ao terminal. Tinha um copo de água entre os joelhos e observava a saída. A funcionária, de crachá escrito Lúcia, fez um sinal discreto.
Camila deixou Renata e Theo alguns passos atrás.
"Você recebeu meu recado?"
Ele assentiu.
"A moça disse que você voltou ontem também."
"Fiquei até a noite. Queria saber se você estava bem."
Noah esfregou a unha numa rachadura do copo.
"Eu achei que você tinha ido embora no avião."
Camila se sentou no banco ao lado, deixando espaço entre os dois.
"Não fui."
Theo surgiu com um pacote de bolachas que trouxera de casa. Estendeu ao menino, que hesitou antes de pegar uma.
"Minha tia colocou um monte", explicou Theo. "Ela acha que a gente vai morar no aeroporto."
Noah soltou ar pelo nariz. Quase um riso.
Camila sentiu vontade de abraçá-los ali mesmo. Ficou com as mãos sobre os joelhos.
"Você disse que não tinha ninguém com você. Há quanto tempo?"
"Três semanas."
Ela contou os dias em silêncio, sem conseguir lhes dar tamanho.
"Onde está a pessoa com quem você morava?"
"Saiu para trabalhar. Não voltou."
"Marcos?"
A bolacha se partiu entre os dedos dele.
"Como você sabe?"
Camila mostrou uma cópia da folha, sem soltá-la sobre o menino como uma acusação.
"O nome dele estava em um documento antigo meu. Eu tive dois filhos, Noah. Ontem eu ainda não sabia com certeza. Hoje eu sei."
Ele olhou para Theo.
"Então eu sou igual a ele por isso."
Theo assentiu imediatamente, como se a decisão já estivesse tomada.
Noah tirou de dentro do casaco uma fotografia rasgada e um envelope dobrado. Na fotografia aparecia a parte de baixo de uma mulher de vestido diante de um portão. Camila reconheceu o vestido verde que usara grávida.
Reconheceu também a própria letra no verso: Camila Duarte, agosto.
"Tinha isso numa pasta do Marcos. Ele não gostava que eu mexesse. Quando não voltou, eu procurei um telefone."
"Você sabia meu nome?"
"Sabia o Duarte. A outra parte estava apagada. Quando ouvi ele te chamar de mãe, fiquei olhando."
Apertou os lábios e corrigiu:
"Eu fiquei olhando antes. Por causa da cara dele."
Camila respirou devagar. Aquele menino não chegara ao aeroporto seguindo um plano extraordinário. Estava ali porque, depois que o dinheiro acabara e a casa onde morava fechara, encontrara comida e movimento suficiente para não se sentir sozinho.
Uma equipe avisada por Lúcia os acompanhou até uma sala tranquila. Camila repetiu o que sabia, forneceu seus dados e o contato da advogada. Noah enrijeceu quando percebeu que adultos trocavam informações a seu respeito.
"Não vão me trancar, vão?"
"Não é isso que estamos fazendo", disse Camila. "Vou ficar aqui enquanto explicam tudo para nós."
Renata levou Theo para almoçar. Camila permaneceu, ouvindo o endereço da última moradia, o nome da vizinha que às vezes dera comida ao menino, a história de uma porta encontrada com outro cadeado.
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Cada detalhe chegava sem ênfase. Era ela quem precisava disfarçar o choque.
Ao fim da tarde, com o atendimento encaminhado e os próximos passos combinados, Noah aceitou acompanhá-la. Não foi uma volta para casa de comercial de televisão. Ele perguntou duas vezes onde dormiria e se poderia levar a mochila.
"A mochila vai com você", respondeu Camila nas duas vezes.
No envelope havia o endereço de uma casa antiga perto de Campinas. Noah disse que Marcos guardava coisas lá, num armário com a porta emperrada. A advogada recomendou preservar o material e comunicar a localização. Álvaro reconheceu o endereço quando recebeu a fotografia do papel.
Conhecia uma antiga administradora da maternidade que poderia esclarecer quem usara a casa. Seu nome era Vera Antunes.
Na manhã seguinte, Camila conversou com ela por telefone, com a advogada ouvindo. Vera confirmou que a propriedade pertencia à família de Marcos, ofereceu a chave que guardava e disse que poderia encontrá-los lá. Havia registros que ela mesma queria entregar.
Camila quase recusou. Estava cansada de pessoas que de repente queriam falar.
Mas Noah se aproximou ao ouvir o endereço.
"Minha certidão pode estar lá? O Marcos dizia que guardava meus papéis."
Foram com Renata e a advogada, Beatriz. Theo ficou na casa de uma amiga da tia, contrariado, mas seguro. Camila não queria que os dois meninos precisassem ouvir cada detalhe juntos.
A casa cheirava a madeira fechada. Vera os recebeu no portão e se apresentou sem tentar tocar em Noah. Antes de qualquer explicação, entregou uma pasta a Beatriz.
O menino encontrou o armário e indicou uma caixa de ferramentas. Dentro havia um envelope com dinheiro antigo, uma carta e um pequeno gravador envolto numa camiseta.
Ele abriu a carta antes que Camila percebesse.
Leu devagar. Depois ficou muito quieto.
"O nome do pai dele era André?"
Camila sentiu o estômago afundar.
"Era."
Noah estendeu a folha.
Marcos, fique com o segundo menino por enquanto. Não diga a Camila onde vocês estão. O dinheiro é para as despesas dele. Vou buscar vocês assim que puder.
A assinatura era a mesma do documento.
"Ele pagou para o Marcos ficar comigo."
"Noah, eu preciso entender quando isso foi escrito."
"Está escrito aqui. Não precisa entender mais nada."
Ele apontou para a primeira frase, esmagando o papel com o dedo.
"Por que vocês ficaram com ele?"
Camila sentiu o próprio rosto se contrair.
"Eu não escolhi entre vocês."
"Mas ele ficou. Ele tinha roupa, escola, aniversário. Eu vi a foto na carteira dele. Vocês três na praia."
Camila não sabia que Theo mostrara a fotografia. Quis dizer que também teria levado Noah à praia, que teria procurado a febre dele no escuro, comprado o material da escola. Todas aquelas frases descreviam uma vida que ele não recebera.
"Você tem razão de estar com raiva", conseguiu dizer. "Mas eu não sabia onde você estava. Eu nem sabia que estava vivo."
"Seu marido sabia."
Vera ergueu o gravador.
"Há uma gravação dele aqui. Marcos me contou que guardou."
Camila pegou o aparelho. As pilhas tinham vazado; Beatriz encontrou, junto dele, um cartão de memória protegido num estojo. Trouxera um leitor para os arquivos antigos.
Poucos minutos depois, um nome apareceu na tela do computador.
Para Camila.
Noah ficou de pé junto à porta.
"Se ele disser que não me queria, eu quero ouvir também."
Camila puxou uma cadeira para perto da dele e apertou reproduzir.
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