"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 9
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A MÃO QUE NÃO SUBIU
Mateus começou o último round sem a pressa do primeiro.
Encontrou a distância num avanço curto, acertou um jab e saiu antes da resposta. Antônio ouviu Sônia gritar na arquibancada e reconheceu no som a mesma mistura de entusiasmo e medo que sua mãe levava às competições.
O adversário se reorganizou. Também estava cansado, mas continuava atento. Nos segundos seguintes, conseguiu trabalhar melhor no centro e obrigou Mateus a ceder espaço.
Antônio acompanhou a luta sem fazer contas em voz alta.
Ao seu lado, Diego apertava uma toalha já dobrada.
"Ele está terminando bem", murmurou.
"Está."
Nos últimos instantes, Mateus encontrou outra abertura. A sequência não foi limpa como nos treinos, mas ele voltou à guarda em vez de ficar esperando para ver o resultado.
A campainha soou.
Antônio sentiu os joelhos perderem a rigidez. Só então percebeu quanto tempo passara com o corpo inteiro contraído.
Os dois rapazes se cumprimentaram. O adversário falou alguma coisa que Antônio não ouviu, e Mateus assentiu, respirando pela boca.
Quando anunciaram a decisão, a mão erguida foi a do outro.
Mateus olhou rapidamente para a própria luva.
Foi esse movimento que Antônio guardou: um olhar curto, quase de surpresa, como se a mão ainda esperasse uma instrução.
Diego deixou escapar um protesto.
"Mas no último ele..."
Geraldo olhou para ele.
Diego respirou fundo e foi abrir passagem para Mateus descer.
O garoto não chorou no ringue. Agradeceu ao árbitro, cumprimentou a equipe adversária e esperou até chegarem a um canto mais tranquilo do ginásio.
Então sentou.
"Perdi."
Antônio puxou uma cadeira para perto.
"Perdeu."
Mateus baixou a cabeça.
Por alguns segundos, Antônio teve vontade de adoçar a palavra até ela perder todo sentido. Dizer que o resultado não importava, que ele era o verdadeiro vencedor, que todo mundo tinha visto.
Mas Mateus passara meses se preparando para uma competição. Queria ganhar. Merecia que respeitassem isso.
"Eu queria muito vencer", o rapaz disse.
"Eu sei."
"Parece que todo o treino foi para nada."
Antônio esperou que ele retirasse a toalha do rosto.
"Você lembra do primeiro intervalo?"
"Lembro."
"Você achou que não conseguia fazer mais nada. Depois encontrou uma saída e voltou a lutar. Isso aconteceu. O resultado não apaga."
Mateus apertou a toalha entre os dedos.
"Eu devia ter começado daquele jeito."
"A gente vai olhar isso no treino. Hoje você está cansado e triste. Não precisa resolver tudo sentado nessa cadeira."
Diego se agachou do outro lado.
"Eu quase comecei a reclamar da decisão."
Mateus olhou para ele.
"Você achou que foi errado?"
Diego demorou antes de responder.
"Eu queria que você ganhasse. Não é a mesma coisa. Ele foi melhor no começo. Você melhorou muito depois."
Antônio deixou que o silêncio acolhesse a resposta.
Sônia apareceu alguns minutos mais tarde. Parou ao perceber o rosto do filho.
"Posso?", perguntou, abrindo os braços.
Mateus passou a toalha nos olhos.
"Pode."
Ela o abraçou sem dizer que não precisava chorar. Antônio se levantou para lhes dar espaço e encontrou Geraldo perto da saída.
O treinador ofereceu uma garrafa de água.
"Você parece mais acabado que ele."
"É mais fácil quando a perna que está no ringue é a minha."
"Agora você entende umas coisas."
Antônio tomou um gole. Olhou para Geraldo, para as rugas que não estavam ali na fotografia, e sentiu de novo a vergonha pelos anos de silêncio.
"Eu devia ter te procurado depois que meu pai morreu."
Geraldo apoiou a mão em seu ombro.
"Devia. Mas você está aqui agora. Vamos cuidar disso sem perder mais tempo."
Na volta, Diego dirigiu. Geraldo cochilou no banco da frente, e Mateus ficou ao lado de Antônio, com a bolsa no colo. Sônia voltara com uma irmã que a acompanhara ao evento.
Passaram alguns minutos ouvindo apenas o trânsito.
"Terça vai ter treino normal?", Mateus perguntou.
Antônio virou o rosto.
"Vamos combinar sua recuperação com o Geraldo. Mas a academia abre no horário de sempre."
"Eu queria ir. Nem que seja para assistir."
Diego encontrou os olhos de Antônio pelo retrovisor e não disse nada.
Antônio sentiu o peito se abrir de um jeito discreto, sem aplauso e sem anúncio.
"Então vai. A gente te espera."
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