"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 8
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QUANDO A CAMPAINHA TOCOU
O ginásio parecia maior visto do lado de fora do ringue.
Antônio sabia que não era. Havia lutado em espaços mais barulhentos, sob luzes mais fortes. Mas, naquela manhã, não podia ajustar a própria distância nem escolher o momento de avançar. Só podia preparar alguém e esperar.
Mateus estava sentado com os cotovelos nos joelhos. A mãe dele, Sônia, viera cumprimentar a equipe antes de procurar um lugar na arquibancada.
"Ele não comeu quase nada", avisara em voz baixa.
Geraldo conversou com o rapaz e conferiu como estava se sentindo. Os preparativos haviam sido feitos, as condições daquela participação verificadas. Mesmo assim, Antônio observava cada movimento como se fosse possível afastar todo risco com atenção suficiente.
Diego apareceu com a garrafa e a toalha.
"Está aqui. E eu perguntei antes de fotografar a equipe. Sua mãe quer uma foto, mas pode ser depois."
Mateus sorriu de leve.
"Depois é melhor. Agora eu estou com cara de quem vai fugir."
"Eu saio feio antes e depois. Não faz diferença", Diego respondeu.
Antônio percebeu o garoto soltar os ombros.
O adversário passou a alguns metros, acompanhado do treinador. Tinha espinhas no queixo e segurava uma banana pela metade.
Mateus acompanhou sua passagem.
"No vídeo ele parecia mais velho."
"Vídeo faz muita coisa", Antônio disse.
Antes da chamada, Geraldo recapitulou o plano. Antônio se limitou ao que já tinham combinado: instruções curtas, espaço para ouvir, nada de transformar ansiedade em uma avalanche de ordens.
Quando Mateus se levantou, puxou o cós do calção duas vezes.
Antônio reconheceu o gesto de quem procura uma última tarefa para adiar o passo seguinte.
"Quer me dizer alguma coisa?"
"Não deixa minha mãe subir aqui se eu perder. Ela vai querer me abraçar na frente de todo mundo."
"Isso você vai precisar negociar com ela."
Mateus riu. Depois ficou sério.
"Vamos."
No primeiro round, esqueceu quase tudo.
Não de uma vez. Começou com o pé de trás preso no lugar. Depois, recuou em linha reta, deixando o adversário conduzir a distância. Seus jabs saíam curtos, lançados antes que chegasse perto o suficiente.
Antônio sentiu os dedos apertarem a borda da toalha.
"Sai pela direita", disse quando houve espaço para ser ouvido.
Mateus tentou. Recebeu um golpe na guarda e se encolheu. O adversário marcou melhor as aproximações, sem precisar fazer nada extraordinário.
Diego deu um passo para a frente.
"Vai, Ma..."
Parou no meio do nome e fechou a boca. Antônio viu, pelo canto do olho, o esforço que aquilo lhe custou.
A campainha do intervalo soou.
Mateus sentou com a respiração curta. Geraldo o examinou e fez as perguntas necessárias. O rapaz respondeu, orientado, mas os olhos estavam úmidos de frustração.
"Eu não estou conseguindo fazer."
Antônio se abaixou à sua frente.
"Eu vi você sair uma vez. Vamos repetir aquilo. Não tenta resolver o round inteiro agora."
"Ele chega antes."
"Porque você está soltando a mão de longe. Ajusta a distância e volta com ela. Uma coisa de cada vez."
Geraldo completou a orientação, e os dois se afastaram quando chegou a hora.
No segundo round, Mateus ainda errou. Antônio precisou aceitar aquilo sem tentar corrigir tudo do lado de fora.
Mas o garoto começou a escutar.
Deu um passo menor. Recolheu o braço. Quando o adversário avançou outra vez, conseguiu sair do caminho e responder com um jab que encontrou o alvo.
Na arquibancada, alguém gritou seu nome.
Antônio só percebeu que prendia o ar quando precisou soltá-lo.
O outro rapaz reagiu bem. Recuperou a iniciativa e obrigou Mateus a trabalhar para não ficar encurralado. A disputa continuava difícil, mas já havia dois jovens lutando, não apenas um tentando suportar o que acontecia.
No intervalo seguinte, Mateus procurou Antônio antes de sentar.
"Eu consegui sair."
"Conseguiu."
O garoto recebeu as instruções de Geraldo com os olhos firmes. Bebeu um pouco de água e devolveu a garrafa a Diego.
"Estou cansado."
"Eu também estaria", Diego respondeu.
Antônio colocou a mão na corda para abrir espaço.
Faltava o último round. Ainda havia coisas que Mateus só poderia descobrir lá dentro.
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