"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 7
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O LUGAR NO CORNER
Mateus levou o cartaz para casa e voltou com perguntas escritas no verso de um recibo.
Queria saber como escolhiam os adversários, quanto tempo faltava para estar preparado e se ainda poderia desistir caso não se sentisse bem.
Antônio gostou mais daquela lista do que teria gostado de qualquer declaração de coragem.
Geraldo explicou que conversaria com a organização, acompanharia a preparação e só confirmaria a participação depois de tudo acertado. O adversário precisava ser compatível em idade, peso e experiência. Haveria avaliação e procedimentos próprios do evento. Não bastava chegar, vestir uma luva e subir.
"E se eu disser que não quero?", o garoto insistiu.
"A gente continua treinando na terça", Antônio respondeu.
Mateus dobrou o papel com cuidado.
A preparação ocupou os meses seguintes. Antônio não esteve em todas as sessões. Geraldo conduziu a maior parte do trabalho, e os três aprenderam a trocar informações sem dar instruções contraditórias.
Diego começou a ajudar em horários definidos. Quando errava, já não procurava imediatamente alguém para culpar. Ainda precisava se conter quando Mateus demorava a entender, mas às vezes o fazia sozinho.
Numa manhã, Antônio chegou e encontrou os dois sentados no chão, discutindo uma sequência que Diego desenhara com o dedo sobre a poeira.
"Dá para usar papel", Antônio comentou.
"O papel não estava entendendo", Diego respondeu.
Mateus riu. A reserva entre eles começava a diminuir.
Duas semanas antes do encontro, receberam a confirmação de um adversário. Um rapaz de outra academia, também de dezenove anos, com pouca experiência competitiva.
Diego encontrou um vídeo de treino dele e mostrou no celular durante o intervalo.
Antônio viu apenas alguns segundos. O jovem tinha boa movimentação, mas o trecho não dizia muito sobre como reagiria numa luta.
Mateus assistiu duas vezes.
Na sessão seguinte, começou a recuar antes de qualquer aproximação.
Diego avançou com os aparadores.
"Se entrar com essa cara, ele vai perceber. Vai para cima."
Mateus soltou uma combinação apressada e perdeu a posição.
"De novo. Você tem que impor respeito."
O garoto apertou os olhos.
Antônio interrompeu.
"Vamos beber água."
Diego retirou os aparadores.
"Ele precisa acostumar com pressão."
"E vai acostumar. Agora eu quero ouvir o que está acontecendo."
Mateus bebeu sem olhar para nenhum dos dois.
"Eu não devia ter pedido para lutar."
Antônio puxou uma cadeira.
"Por causa do vídeo?"
O rapaz assentiu.
"Ele parece que nasceu sabendo. Eu ainda preciso pensar no pé."
Diego abriu a boca, mas Antônio lhe fez um sinal para esperar.
"Você viu ele errar alguma vez?"
"Não."
"Quantos minutos tinha o vídeo?"
"Um, mais ou menos."
Antônio esperou. Mateus olhou novamente para o celular.
"Eu sei que escolheram os melhores pedaços", disse. "Mas na hora eu não lembro disso."
"Você está com medo de se machucar, de perder ou de alguém te ver perdendo?"
O garoto torceu a tampa da garrafa.
"De travar. De todo mundo perceber que eu não devia estar lá."
Antônio sentiu um aperto antigo sob as costelas.
Não lhe ofereceu uma frase sobre vencer o medo. Pediu que contasse o que imaginava acontecer. Ouviu falar da mãe na arquibancada, dos colegas do mercado, de uma queda transformada em vídeo.
Diego olhou para o chão ao ouvir essa última parte.
"Eu não vou gravar nada sem você pedir", disse. "E se alguém da academia fizer graça, eu falo com a pessoa."
Mateus assentiu.
"Mas não precisa me tratar como criança."
"Está certo."
Antônio propôs uma sessão curta, com tarefas específicas e ritmo controlado. Mateus aceitou experimentar antes de tomar qualquer decisão sobre a participação.
Quando voltaram, Diego explicou cada exercício antes de começar. Deu espaço para o garoto responder em vez de preencher todos os segundos com ordens.
No fim, Mateus estava cansado, mas não fugia mais da aproximação.
"Eu ainda quero ir", disse a Geraldo. "Só não quero fingir que não estou com medo."
Antônio guardou a toalha na bolsa.
"Não precisa fingir."
O garoto se virou para ele.
"O senhor fica no meu canto?"
A pergunta o alcançou sem defesa. Antônio olhou para Geraldo, responsável pela equipe, e recebeu um aceno tranquilo.
"Fico. A gente organiza tudo junto."
Diego pegou o balde que usavam nos intervalos.
"Então eu levo isso e paro de berrar vinte coisas ao mesmo tempo."
"Se conseguir a segunda parte, já ajuda bastante", Geraldo disse.
Antônio riu com eles. Ao sair, conferiu a data do evento mais uma vez.
Naquela tarde, pediu a Nando que reservasse o sábado.
Não estava tentando recuperar o lugar de campeão.
Precisava chegar a tempo para ocupar outro.
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