"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 6
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O HOMEM QUE TINHA IDO EMBORA
Na terceira semana, Antônio perdeu uma aula.
Um motor que deveria estar pronto na sexta ainda ocupava o elevador da oficina na segunda-feira. Seu sócio, Nando, tinha a mão imobilizada depois de prender dois dedos numa porta, e um cliente precisava do carro para trabalhar.
Antônio enviou uma mensagem a Geraldo antes do horário. Mesmo assim, passou o dia com a sensação de estar repetindo um gesto antigo.
Na terça, cancelou outra visita.
À noite, encontrou Ana à mesa da cozinha com Lúcia. A filha levara pão e trouxera uma tomada quebrada para ele examinar, convencida desde criança de que consertar automóveis o habilitava a consertar qualquer coisa.
"Isso aqui vai para um eletricista", Antônio disse.
"Você nem olhou."
"Eu quero continuar tendo uma filha. Leva num eletricista."
Ana afastou a peça e serviu café.
"O Geraldo me mandou uma foto do treino."
Antônio partiu o pão.
"Hoje não consegui ir."
"Eu sei."
"Na oficina, não dá para escolher a hora em que as coisas quebram."
Lúcia passou manteiga devagar, ouvindo. Antônio conhecia aquele silêncio. Era o espaço que ela lhe oferecia para perceber sozinho que estava respondendo a uma acusação que ninguém fizera.
"Talvez seja melhor eu aparecer de vez em quando", ele acrescentou. "Sem ninguém contando comigo."
Ana deixou a xícara no pires.
"É isso que você quer?"
"É o que dá."
"Não foi o que eu perguntei."
Ele empurrou o prato um pouco para a frente.
Na parede da cozinha havia uma fotografia de Ana na formatura. Ele aparecia de terno emprestado, sorrindo com orgulho e com as mãos escondidas porque não conseguira retirar toda a graxa das unhas.
Nunca se arrependera de estar ali.
O problema era a palavra que usara, sozinho, para tudo que não vivera.
Desistência.
"Quando seu avô ficou doente, eu pensei que ia parar uns meses", disse. "Depois você nasceu. A oficina precisava de dinheiro. A vida foi acontecendo."
Ana ouviu sem mexer na xícara.
"Eu não estou dizendo que você atrapalhou."
"Eu sei, pai."
Ele esfregou os olhos.
"Mas às vezes eu me sentia um sujeito inventando desculpa. Mesmo quando não tinha escolha."
Lúcia estendeu a mão sobre a mesa.
"Você fez muita coisa porque precisava. Agora está falando de duas manhãs por semana, não de abandonar a família e sair pelo país."
Antônio soltou uma risada sem alegria.
"Duas manhãs que eu já não consegui cumprir."
"Porque prometeu todo dia antes de conversar com o Nando", ela respondeu. "Você tem uma facilidade incrível de transformar entusiasmo em escala de serviço."
Ana sorriu, mas não aproveitou a abertura para provocar.
"Quando achei a foto, eu queria que você visse o Geraldo. Só isso. Você não ficou me devendo uma carreira de treinador."
A frase o aliviou de um peso que ela nunca lhe colocara.
Na manhã seguinte, conversou com Nando antes de abrir a oficina. Examinaram os serviços, discutiram horários e discordaram sobre a necessidade de contratar ajuda por meio período.
Nando apontou para ele com o queixo.
"Você ficou trinta anos reclamando que eu chegava atrasado. Agora quer sair para brincar de Rocky?"
"Duas manhãs. E não fala esse nome na academia."
"Então cobre o sábado que eu tenho que levar minha mãe ao médico."
Combinaram terças e quintas até as nove. Testariam por um mês. Se prejudicasse o serviço, reorganizariam.
Não pareceu uma decisão grandiosa. Antônio gostou disso.
Na quinta, encontrou Geraldo fechando um saco de lixo.
"Pensei que você vinha dizer que não podia mais."
"Quase vim."
O treinador lhe entregou outro saco.
"Ainda bem que mudou de ideia. O pessoal nunca limpa direito esse canto."
Trabalharam lado a lado até Antônio explicar os horários. Geraldo anotou num quadro, sem discursos e sem lhe pedir uma promessa maior.
Diego chegou pouco depois. Cumprimentou Antônio e ajudou Mateus a ajustar a corda de pular. O garoto aceitou, embora ainda mantivesse certa reserva.
Mais tarde, depois de completar o treino, Mateus ficou diante do cartaz de um encontro de boxe amador.
"Mestre, eu queria entender como funciona para participar."
Antônio não respondeu imediatamente. Olhou para Geraldo, que se aproximou.
"A gente pode conversar sobre isso", o treinador disse. "Primeiro você precisa saber o que envolve."
Mateus assentiu, sério.
Antônio reconheceu aquela expressão. Não era a de alguém querendo sair numa fotografia. Era a de um rapaz tentando descobrir se podia desejar uma coisa que ainda lhe dava medo.
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