localização atual: Novela Mágica O Velho de Jaqueta de Couro Capítulo 5

"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 5

PUBLICIDADE

DEPOIS DO PEDIDO DE DESCULPAS

Diego voltou no dia seguinte. E no outro.

Não chegava sempre de bom humor. Na quinta-feira, entrou reclamando do trânsito e deixou a mochila cair no banco. Na sexta, trouxe duas garrafas de água e ofereceu uma a Mateus sem fazer comentário.

Antônio passou a reconhecer esses pequenos movimentos com uma atenção que o surpreendia. Na oficina, avaliava o serviço pelo que podia testar. Na academia, precisava resistir à vontade de anunciar qualquer melhora antes que ela criasse raízes.

Na segunda semana, Geraldo pediu ajuda para organizar um treino em duplas. Antônio acompanharia os iniciantes enquanto Diego terminava sua preparação física.

Mateus chegou atrasado, ainda com a camiseta do mercado sob o casaco.

"Desculpa. O caminhão descarregou quase na hora de eu sair."

"Guarda as coisas e aquece", Antônio disse.

O garoto trouxe as mãos erguidas antes de tirar o casaco, exibindo as bandagens que fizera sozinho.

Não estavam perfeitas. Estavam muito melhores.

Antônio aprovou com a cabeça.

Do outro lado, Vinícius, um dos homens que rira na primeira noite, chamou Diego.

"Seu aluno particular chegou. Hoje ele já pode aprender a virar para a esquerda?"

Diego olhou de relance para Antônio.

Foi rápido. Tempo suficiente para Antônio ver o sorriso que ele escolheu usar.

"Se aprender a não fugir da própria sombra, já está bom."

Vinícius riu.

Mateus deixou cair a ponta da bandagem.

Antônio viu a mudança em seu rosto. O sorriso desapareceu sem dar lugar a outra expressão; parecia que alguém fechara uma janela.

"Vamos aquecer", Diego acrescentou, como se pudesse atravessar a frase anterior sem passar por ela.

"Hoje não vai dar."

Mateus puxou o zíper da bolsa.

"Acabei de chegar. Esqueci uma coisa."

Antônio se aproximou.

"Se você quiser ficar, eu treino com você."

"Obrigado. Eu preciso ir."

Não tentou segurá-lo. Acompanhou o garoto com os olhos até a porta e, por um instante, viu a si mesmo naquele primeiro dia, trinta e tantos anos antes, procurando uma desculpa para desaparecer.

Diego esfregou o rosto.

"Ele levou a sério."

"O que tinha para levar de brincadeira?"

"Foi uma piada idiota."

"Então fala isso para ele."

Vinícius encolheu os ombros.

"Agora não pode falar nada?"

Antônio se voltou para ele.

"Pode. Também pode escutar quando alguém diz que passou do ponto."

Geraldo saiu do escritório e pediu a Vinícius que o acompanhasse. A conversa começou antes de fecharem a porta. Antônio ouviu o treinador dizer que tinha deixado aquela atitude passar vezes demais.

Diego continuava perto do banco.

"Você não vai atrás dele?", Antônio perguntou.

"O senhor acha que ele quer olhar na minha cara?"

"Não sei. Você pode perguntar sem exigir que ele te perdoe."

O rapaz pegou o casaco e saiu.

Antônio ficou. Precisava preparar o treino de quem ainda estava ali. Sentiu uma vontade desconfortável de ir até a calçada, ouvir cada palavra e impedir outro erro.

Enrolou a faixa de Mateus que ficara no banco.

Não podia ensinar Diego a assumir responsabilidade se corresse para assumir por ele.

Os dois voltaram quase vinte minutos depois.

Mateus carregava a bolsa no ombro. Diego mantinha uma distância que não tentava diminuir.

"Ele quer conversar com o senhor", disse.

Antônio aguardou.

"Eu volto quarta", Mateus falou. "Hoje eu não estou com cabeça."

"Tudo bem."

O garoto olhou para Diego.

"E eu prefiro treinar com o mestre Geraldo por enquanto."

Antônio viu o rapaz apertar a mandíbula.

"Está certo", Diego respondeu.

Quando Mateus se despediu, o silêncio durou alguns segundos.

"Pedi desculpas", Diego disse. "Falei que ele confiou em mim e eu usei isso para fazer graça."

Antônio assentiu.

"E ele disse que não queria que eu fosse expulso. Isso foi pior."

"Por quê?"

"Porque eu estava esperando que ele me xingasse. Ia ser mais fácil."

O rapaz sentou no banco. De perto, Antônio percebeu como parecia cansado quando não estava se exibindo.

"Lá em casa, se você não responde na hora, todo mundo fala por cima. Eu aprendi a fazer os outros rirem antes que rissem de mim."

"E funcionou?"

Diego passou a unha numa costura da mochila.

"Até hoje de manhã, eu ia dizer que sim."

Antônio sentou ao lado dele.

"Eu também já falei coisa para não ficar pequeno numa sala. Algumas eu lembro até hoje."

"O senhor se desculpou?"

"Nem sempre a tempo."

Na quarta, Mateus voltou. Geraldo o recebeu, e Diego se limitou a cumprimentá-lo, sem cobrar uma conversa.

Antônio acompanhou os dois de longe.

Só no fim do treino, quando o garoto procurou a própria garrafa, Diego apontou para o lugar onde ela estava.

"Em cima do armário. Você deixou quando foi pegar a corda."

Mateus agradeceu.

Foi pouco. Antônio esperou que Diego percebesse que, naquele dia, pouco era o que lhe cabia.

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: