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"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 3

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O QUE FICOU NA FOTOGRAFIA

Ana entrou carregando uma pasta de plástico e um capacete. Parou ao ver o pai sentado de mãos enfaixadas.

"Eu pedi para você visitar uma pessoa. Não para organizar um evento."

Antônio apontou para a cadeira ao lado.

"Ainda dá tempo de voltar para casa e fingir que não me conhece."

Ela beijou sua testa. Era um hábito recente, que o constrangia e agradava na mesma medida.

Geraldo abriu espaço junto à mesa do escritório.

Ana retirou a fotografia da pasta com cuidado. Antônio tinha encontrado aquela imagem centenas de vezes no fundo de uma gaveta, entre documentos da oficina. Nunca a jogara fora. Nunca procurara uma moldura.

Na foto, ele sorria com o lábio cortado, uma medalha pendurada no pescoço e o braço sobre os ombros do treinador. Geraldo segurava um saco de gelo e parecia tão feliz quanto ele.

"Eu estava ajudando a organizar a casa", Ana explicou. "Achei isso. Ele disse que você devia querer uma cópia."

"Eu disse que talvez ele quisesse."

"Você passou quinze minutos me contando onde cada pessoa estava naquela noite. Achei que o talvez era dispensável."

Geraldo aproximou a foto dos óculos.

"A sua mãe tinha feito sanduíche para todo mundo."

"Reclamou que ninguém comia direito em dia de luta."

"E estava certa."

O treinador virou o papel. Antônio conhecia a frase escrita atrás: Para o Toni, que trabalhou por cada segundo. Geraldo.

Não era uma profecia. Não dizia que ele se tornaria profissional, rico ou invencível. Talvez por isso Antônio tivesse levado tantos anos para conseguir olhar direito para aquelas palavras.

Ana colocou a pasta sobre a mesa.

"Vou buscar água. Vocês conversem."

Quando a porta se fechou, Geraldo deixou a fotografia entre os dois.

"Por que você não voltou?"

Antônio friccionou a marca que a bandagem deixara em seu punho.

"Meu pai piorou duas semanas depois da final. Minha mãe não conseguia tocar a oficina e cuidar dele."

"Isso você me contou. Eu fui à sua casa."

"Eu sei."

Lembrava da visita, do barulho da televisão no quarto, do pai pedindo desculpas porque não podia levantar. Geraldo levara frutas. Falara pouco de boxe.

"Você disse que a gente podia reorganizar o treino", Antônio continuou. "Eu disse que ligava."

"E não ligou."

"No começo, não dava. Depois, eu não sabia mais o que dizer."

Seu pai vivera mais quatro anos. Antônio se casara, Ana nascera, a oficina quase fechara duas vezes. Cada etapa parecera provisória até que, de repente, já havia outra vida inteira montada.

"Eu achava que você tinha ficado decepcionado."

Geraldo recostou-se.

"Fiquei magoado. É diferente. Não porque você ficou com seu pai. Porque você achou que só podia entrar aqui se fosse disputar um cinturão."

Antônio ergueu os olhos.

"Eu não sabia voltar para ser menos do que tinha sido."

Dizer aquilo em voz alta lhe deu vergonha. Tinha orgulho do trabalho, da filha, da vida que construíra com Lúcia. Não considerava nada disso menor. Mas guardava para si uma cobrança que jamais teria feito a outro homem.

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Geraldo empurrou a fotografia na direção dele.

"Eu teria te dado uma chave para abrir a academia de manhã. Ou um café ruim. Você não precisava chegar com um título debaixo do braço."

Antônio riu pelo nariz, sem conseguir falar.

Do lado de fora, alguém deixou uma anilha cair. Os dois olharam para a porta, reconhecendo ao mesmo tempo o susto antigo de treinadores e alunos.

"Desculpa", Antônio disse.

Geraldo assentiu uma vez.

"Da próxima vez, aparece antes de passar mais trinta anos."

Quando saíram, Diego esperava perto do bebedouro. Estava sem as luvas e parecia desconfortável com as mãos vazias.

"Posso falar com o senhor?"

Antônio parou.

"Pode."

"Eu fui um idiota. Não devia ter falado daquele jeito. Nem mexido na sua bolsa."

"Não devia."

Diego aceitou a resposta com um movimento curto de cabeça.

"O pessoal apagou o vídeo. Eu pedi."

"Obrigado por pedir. Mas aprende a perguntar antes de gravar."

O rapaz olhou para o ringue.

"Se eu treinasse esse deslocamento, conseguia melhorar rápido?"

Antônio reconheceu a urgência. Também já quisera consertar em uma tarde o que o incomodava havia anos.

"Melhorar o quê?"

"O que aconteceu lá em cima. Eu sei lutar. Só não consegui mostrar."

A desculpa voltou a endurecer sua voz.

Antônio observou Mateus junto ao saco, repetindo um movimento sem saber onde apoiar os pés.

"Você quer aprender ou quer uma revanche?"

Diego demorou.

"Quero aprender."

Geraldo permaneceu calado. Antônio percebeu que a decisão estava em suas mãos e, pela primeira vez naquela noite, teve vontade de fugir por um motivo que não era vergonha.

Aceitar significava voltar outra vez.

"Amanhã, às sete", disse. "Uma aula. Depois a gente conversa."

Diego assentiu depressa.

"Pode deixar. Vou chegar antes."

"E vai treinar com o Mateus."

O rapaz olhou para o garoto, depois para as próprias mãos.

"Eu achei que fosse treinar com o senhor."

Antônio pegou a jaqueta.

"Vai. Mas sua primeira tarefa é ajudar ele a aprender sem sair daqui querendo nunca mais voltar."

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