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"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 2

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O NOME NA PAREDE

Geraldo atravessou o espaço sem pressa, como se qualquer movimento mais rápido pudesse desfazer o que estava vendo.

Antônio estendeu a mão. O treinador ignorou o gesto e o abraçou.

A pressão dos braços dele trouxe uma lembrança tão física que Antônio fechou os olhos: o banco do vestiário, a toalha na cabeça, Geraldo dizendo para respirar antes que o chamassem para a final.

"Você ficou velho", o treinador murmurou.

"Você também não colaborou muito."

Geraldo soltou uma risada curta e se afastou, mantendo as mãos nos ombros dele.

"Onde você se meteu?"

A pergunta tinha trinta anos dentro. Antônio não encontraria uma resposta adequada ali, diante de tanta gente.

"Na oficina, principalmente."

Diego limpou a garganta.

"Vocês já se conheciam?"

Geraldo se virou. Só então pareceu notar o círculo que se formara.

"Foi você que estava fazendo esse escândalo?"

"Eu estava conversando."

"Eu ouvi uma parte."

O treinador apontou para uma moldura acima do armário de equipamentos. Antônio não a tinha visto. Era uma reprodução amarelada de jornal, com uma fotografia pequena.

"Antônio Ferreira. Campeão brasileiro amador. Treinou aqui quando a gente ainda remendava saco com fita."

O silêncio pareceu aumentar o barulho do ventilador.

Diego procurou a imagem, depois examinou Antônio outra vez.

"Faz tempo."

A frase saiu antes que ele parecesse decidir se queria dizê-la.

"Trinta anos", Antônio respondeu.

"Estou falando porque o esporte muda. O ritmo muda."

Geraldo abriu a boca, mas Antônio levantou a mão.

"Ele tem razão nisso."

O rapaz endireitou os ombros.

"Então o senhor entende o que eu quis dizer."

"Entendo que eu não tenho mais vinte e cinco anos. Não entendo por que isso te incomoda tanto."

Alguém soltou um som de aprovação. Antônio olhou para o homem e o som morreu. Não tinha vindo trocar de lugar com Diego no centro de uma roda de humilhação.

Geraldo cruzou os braços.

"Ninguém vai fazer luta."

"Nem quero", Antônio disse. "Mas podemos fazer um exercício, se ele ainda estiver interessado."

O treinador o observou por alguns segundos.

Antônio conhecia aquele olhar. Era o mesmo com que Geraldo avaliava se um aluno estava escondendo uma lesão.

"Só deslocamento. Sem golpe na cabeça. Eu interrompo quando quiser."

Antônio concordou.

Tirou as botas e trocou-as por um tênis de solado baixo que trouxera na bolsa. A esposa costumava rir de sua mania de levar roupa de treino para viagens onde nunca treinava. Dessa vez, Ana o vira guardar o tênis e não dissera nada.

Geraldo lhe emprestou um par de luvas de treino. As antigas ficaram no banco.

No ringue, Antônio sentiu a panturrilha reclamar já no primeiro passo. Fez uma rotação lenta dos ombros. Esperou a respiração se acomodar.

Diego saltitava à sua frente.

"Você tenta tocar minha luva esquerda com o jab", Antônio explicou. "Sem força. Eu só tiro o alvo da frente."

"Só isso?"

"Vamos começar com isso."

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O primeiro jab chegou depressa. Antônio recuou o necessário. O segundo veio acompanhado de um avanço maior; ele saiu de lado.

No terceiro, Diego esticou demais o braço. Antônio tocou de leve a luva no ombro exposto do rapaz.

"Aqui você ficou aberto."

Diego voltou à posição, agora sem sorriso.

Tentou esconder o próximo movimento com os olhos. Antônio viu o peso ir para a perna da frente e mudou o ângulo antes que o braço saísse.

O exercício durou menos de um minuto.

Quando Diego avançou mais rápido do que o combinado, Antônio ergueu as duas luvas.

"Chega."

"Mas eu nem comecei."

"Começou a querer outra coisa."

Geraldo já estava entre os dois.

"Acabou."

Antônio apoiou a luva na corda. O coração batia forte. Havia suor descendo por suas costas, e o joelho esquerdo não apreciara a última mudança de direção.

Diego olhou para a própria mão, depois para ele.

"Como o senhor percebe antes?"

Era a primeira pergunta que fazia sem plateia na voz.

"Você avisa com o corpo. Eu tive muito tempo para aprender a olhar."

Ao descer, Antônio encontrou o garoto da faixa azul esperando junto ao banco.

"O senhor pode ver se fiz certo?"

Ele examinou a mão oferecida. A faixa apertava a base dos dedos e deixava o punho frouxo.

"Qual é seu nome?"

"Mateus."

Antônio retirou as luvas e começou a soltar o nó.

"Vamos refazer. Você trabalha com essas mãos?"

"Reponho mercadoria."

"Então precisa delas amanhã. Não pode sair daqui sem sentir os dedos."

Geraldo ficou por perto, em silêncio. Quando Mateus voltou ao treino, puxou uma cadeira.

"Você vai sentar antes de começar a disfarçar essa perna."

Antônio obedeceu.

"Ainda manda bastante."

"Você ainda disfarça mal."

O celular vibrou em seu bolso. Ana avisava que estava na esquina.

Antônio olhou novamente para o recorte na parede.

"Você guardou aquilo."

"Claro que guardei."

Ele passou a mão pela bandagem.

"Ainda tem a foto inteira? Aquela depois da final?"

Geraldo demorou a responder.

"Achei que tivesse ido embora com você."

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