"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 10
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DO OUTRO LADO DO BALCÃO
Deixei o envelope sobre a mesa da cozinha enquanto minha mãe terminava de lavar a louça.
Ela reconheceu a letra de longe. Enxugou as mãos no pano e sentou ao meu lado sem perguntar se eu queria companhia.
Abri devagar, evitando rasgar a parte em que estava meu nome.
A carta tinha três páginas. Meu pai começara contando uma coisa pequena: naquele dia eu havia voltado da escola com o joelho esfolado e insistido que a bicicleta estava pior. Ele descrevia o arranhão no guidão, minha raiva da calçada e o curativo torto que minha mãe precisara refazer.
Eu lembrava da queda. Não lembrava de ter sido amado naquele detalhe.
Precisei parar antes do segundo parágrafo.
Minha mãe colocou a mão nas minhas costas.
Depois vinham as palavras que ele escrevera quando já sabia que talvez não pudesse conversar comigo adulto.
"Lucas,
Não sei com quantos anos você vai ler isto. Hoje você acha que todo homem de trinta anos já está velho, então imagino que qualquer coisa que eu diga vá precisar de algum desconto.
A Helena deve ter contado do auxílio da farmácia. Se contou, espero que também tenha dito que eu brigava demais quando ficava nervoso e que nem sempre escutava até o fim. Sua mãe pode confirmar, se ainda não tiver confirmado antes de você chegar a esta parte."
Minha mãe soltou um som entre o riso e o choro.
"Eu confirmei faz tempo", murmurou.
Sorri para o papel.
"Tenho orgulho daquele trabalho. Tenho arrependimentos também. Saí de lá magoado, e por muito tempo achei que sair bastava para mostrar que eu não concordava. Depois me perguntei se devia ter procurado outro jeito de continuar ajudando. Não encontrei resposta para tudo.
Não quero entregar essas perguntas a você como se fossem uma dívida.
Você não precisa trabalhar onde eu trabalhei. Não precisa escolher a minha profissão, gostar das minhas lembranças ou corrigir o que deixei pela metade. Se quiser conhecer o projeto, conheça. Se quiser outra vida, vou ter sido seu pai nela do mesmo jeito."
Eu tinha passado semanas tentando entender o que ele esperaria de mim. A resposta estava ali, escrita por um homem que conhecia o menino do joelho ralado e nunca conheceria o rapaz que eu me tornara.
Continuei, enxugando o rosto com a manga.
"Quando não puder ajudar alguém, diga com respeito. Não invente uma promessa só para se sentir melhor na hora. E não se esqueça de voltar para casa, comer e cuidar das pessoas que estão perto. Eu tenho dificuldade com essa parte. Sua mãe também pode confirmar.
Espero que você tenha amigos bons. Espero que encontre alguma coisa que dê vontade de aprender, mesmo nos dias em que aprender parecer impossível. Espero que faça sua mãe rir de vez em quando. Ela ri bonito e, ultimamente, tem rido pouco.
Eu gostaria de estar aí para perguntar como foi seu dia. Como não sei se vou poder, deixo esta vergonha por escrito: vou amar você em todos os dias que eu não puder perguntar.
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Seu pai."
A carta terminou ali. Não havia instrução final, nome de responsável ou assinatura para reconhecer. Só a pequena mancha de tinta embaixo do último r, onde a caneta tinha parado.
Minha mãe chorava em silêncio.
Abracei-a com o papel ainda na mão. Ficamos assim até que ela reclamou que eu ia amassar a carta, e nós dois rimos de um jeito horrível, com o nariz entupido e o rosto molhado.
Na manhã seguinte, mandei a Helena uma mensagem dizendo que tinha lido.
Ela perguntou apenas como eu estava.
Pensei antes de responder.
"Com saudade. Mas estou bem."
Nos meses seguintes, a farmácia mudou de sistema, ganhou pintura nova e perdeu aquela prateleira que rangia perto dos curativos. A integração deu mais trabalho do que os representantes haviam previsto. Sérgio reclamava do computador novo com uma indignação que divertia Célia.
Meu turno foi ajustado para que eu frequentasse um curso preparatório à noite em alguns dias. Ainda não tinha certeza do que estudaria depois. Gostava de pensar no assunto sem sentir que havia uma escolha certa esperando por mim desde antes de nascer.
O projeto continuou com tropeços que a gente precisava corrigir. Joana descobriu horários melhores para ligar. Renata treinou a equipe para explicar o atendimento. Valter aprendeu que uma tabela boa precisava caber na conversa com quem não sabia lê-la.
Dona Marlene voltou a comprar o sabonete de erva-doce. A irmã conseguiu consertar a parte mais urgente do telhado. Marlene me contou isso enquanto procurava a carteira e depois perguntou se eu já estava estudando.
"Estou."
"Então da próxima vez quero saber como foi a prova."
Helena vinha numa sexta-feira sim, noutra não. Às vezes comprava alguma coisa; em outras, esperava meu intervalo para tomar café na padaria. Eu já sabia que ela tirava a cebola do sanduíche e comia o recheio que dizia ter tirado para reduzir a gordura.
Numa dessas tardes, levei a fotografia do meu pai numa proteção de plástico.
"Minha mãe mandou perguntar o nome da mulher que aparece aqui."
Helena apontou para a antiga proprietária e contou uma história sobre uma porta emperrada que Júlio tinha tentado consertar. Falou até se distrair com o café. Eu a interrompi quando ela confundiu uma data, e ela implicou com meu hábito de conferir tudo.
Podíamos fazer isso agora. Ela não precisava estar certa para que eu continuasse sentado.
Quando saímos, parou diante da padaria.
"Eu queria ter conhecido você sem aquela cena na farmácia."
Pus a foto na mochila.
"Eu também."
Ela assentiu, olhando para a calçada.
"Mas gosto de conhecer você agora", acrescentei.
Helena segurou meu braço por um instante. Depois me soltou antes que o ônibus chegasse.
Na semana seguinte, um funcionário novo começou na Santa Clara. Chamava-se Tiago, tinha dezoito anos e anotava tudo num caderno pequeno. Sérgio pediu que eu mostrasse o caixa, como se não lembrasse de todas as vezes em que dissera que eu demorava demais explicando as coisas.
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Perto do fim da tarde, uma mulher chegou com uma criança de uniforme escolar. O menino apoiou o queixo no balcão enquanto ela conferia o valor da compra.
A mão dela ficou imóvel dentro da bolsa.
Eu conhecia aquele instante.
Tiago olhou para mim, sem saber se devia repetir o preço. Inclinei o corpo e perguntei à mulher, num tom que só ela pudesse ouvir, se queria conversar com a responsável pelo auxílio.
Ela hesitou.
"Preciso contar na frente de todo mundo?"
"Não. A gente pode conversar ali."
Chamei Renata. Tiago continuou no caixa, e fui orientar a fila. Alguns minutos depois, a mulher voltou com o atendimento encaminhado. Pagou a parte que lhe cabia e conferiu a sacola.
O menino puxou a manga dela, perguntando se ainda dava tempo de pegar o ônibus.
Antes de ir, ela tocou de leve no balcão.
"Obrigada por perguntar."
Assenti, sem saber o que responder que não atrapalhasse a simplicidade daquilo.
Tiago esperou que a porta fechasse.
"Ainda bem que você estava aqui. Eu não sabia o que fazer."
Mostrei o contato de Renata e a orientação que ficava perto do computador.
"Da próxima vez, chama por aqui. Se tiver dúvida, pergunta."
Ele anotou no caderno.
Meu celular vibrou com uma mensagem da minha mãe: havia feito a carne moída de que eu gostava. Respondi que chegaria no horário.
Fechei o último atendimento, entreguei o caixa e pendurei o avental. Na saída, Sérgio me perguntou como estavam as aulas. Contei que tinha ido mal numa redação e que a professora me fizera reescrever tudo.
Ele pareceu achar aquilo particularmente justo.
Do lado de fora, a chuva tinha parado. Atravessei a rua antes que o sinal mudasse e corri os últimos passos até o ponto. Consegui entrar no ônibus por pouco, molhando a barra da calça numa poça.
Sentei junto da janela, abri a mochila e conferi se a pasta com a carta estava protegida. Minha mãe queria fazer uma cópia no dia seguinte para que o original ficasse guardado em casa.
Havia tempo para isso.
Pela janela, vi as luzes da Santa Clara ficando para trás. Pensei na pergunta que meu pai gostaria de fazer e procurei uma resposta que contasse o dia inteiro, inclusive a redação ruim e a corrida até o ônibus.
Peguei o telefone e liguei para minha mãe.
"Estou indo", falei quando ela atendeu. "Tenho uma coisa para te contar."
FIM
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