"Eu Quis Expulsar um Menino do Restaurante. Ele Tinha Salvado Meu Filho." Capítulo 10
PUBLICIDADE
SAMUEL
Voltamos ao Aurora numa noite sem chuva.
A ideia surgiu de Samuel, embora eu a tivesse mencionado antes, com cuidado. Ele recusara duas vezes. Na terceira, apareceu na cozinha e perguntou se o restaurante ainda fazia o mesmo espaguete.
"Imagino que sim."
"Você pode perguntar?"
Telefonei naquela tarde.
Ricardo reconheceu meu nome e começou a falar depressa. Queria reservar a melhor mesa, oferecer um jantar especial, preparar alguma coisa para o menino.
"Uma mesa para três é suficiente", respondi. "E precisamos que seja uma noite tranquila."
Antes de sairmos, Lucas trocou de camiseta três vezes. Samuel usou uma camisa azul que escolhera com minha mãe e o tênis que já estava ficando gasto de tanto usar.
"Esse está bom?", perguntou, erguendo o pé.
"Está."
Ele me encarou por um instante. Depois sorriu de lado.
"Se não estiver, a gente pede para levar."
Aceitei a provocação.
"Eu mereci essa."
Lucas riu tão alto que Samuel mandou que parasse de exagerar.
No carro, o menino ficou mais quieto. Não perguntei se tinha certeza a cada esquina. Já combináramos que poderíamos ir embora quando quisesse, antes ou depois de entrar.
Na porta do restaurante, ele parou para olhar o tapete.
Lembrei dos tênis molhados, do jeito como tentara secar o chão com a sola.
Esperei ao lado dele.
Foi Samuel quem abriu a porta.
Ricardo veio nos receber. Estava visivelmente nervoso.
"Boa noite, Samuel. Obrigado por voltar."
O menino assentiu.
"Antes de vocês se sentarem, queria pedir desculpas pelo que fiz naquele dia."
Eu não falei por ele.
Samuel olhou para a sala, depois para o gerente.
"Você ia me tirar da cadeira."
Ricardo abaixou a cabeça.
"Ia. Eu agi muito mal."
"Eu nem tinha comido."
"Eu sei."
Um casal entrou atrás de nós. Ricardo deu espaço e continuou ali, sem tentar apressar a conversa.
Samuel passou os dedos no punho da camisa.
"Se acontecer com outro menino, não espera ele ter feito uma coisa boa primeiro."
O gerente assentiu.
"Você tem razão."
Samuel não disse que estava tudo bem. Apenas perguntou onde era nossa mesa.
Sentamos perto da janela. Lucas pegou o cardápio e anunciou que dessa vez pediria sobremesa antes que eu pudesse dizer que estava cheio.
"Você ainda nem jantou."
"Estou me organizando."
Samuel abriu o próprio cardápio, olhou os preços e fechou.
"Vou querer a massa."
"Eu também", falei.
Lucas fingiu espanto.
"Vocês ensaiaram isso?"
"Podia ter ensaiado sua prova de história", Samuel respondeu.
"Não era para contar."
"Você deixou a prova na mesa."
Meu filho me olhou, resignado.
"Eu ia mostrar amanhã."
Conversamos sobre a prova enquanto o garçom trazia água. Uma conversa comum, com reclamações e uma negociação sobre o horário de estudo do sábado.
Samuel pegou pão sem esperar que alguém oferecesse.
Foi isso que me fez precisar olhar pela janela por um momento.
Quando o jantar chegou, ele provou o molho e ficou sério.
PUBLICIDADE
"Mudou."
Lucas ergueu o garfo.
"Mudou nada."
"Mudou, sim."
"Você comeu uma vez."
Samuel olhou para o prato.
"Da outra vez eu estava com muita fome."
Meu filho parou de discutir.
O menino percebeu e suspirou.
"Não precisa fazer essa cara. Continua bom."
Lucas experimentou mais uma garfada, determinado a dar uma resposta útil.
"Está com mais manjericão."
Samuel riu.
"Você nem sabe o que é manjericão."
"Sei, sim. É esse negócio verde."
A conversa seguiu. Ninguém aplaudiu, ninguém veio fotografar nossa mesa. Comemos, dividimos uma sobremesa e discutimos sobre quem pegara a maior parte.
Na saída, Ricardo desejou boa-noite. Samuel respondeu olhando para ele.
Não ficou tudo apagado. Mas conseguimos atravessar a mesma porta de outra maneira.
Algumas semanas depois, recebemos a confirmação que aguardávamos sobre a continuidade de Samuel conosco. As avaliações, as conversas e os encaminhamentos tinham levado tempo. Ainda haveria acompanhamento e decisões futuras, mas nossa vida já não precisava ser apresentada ao menino como uma visita prestes a acabar.
Li a informação primeiro com a profissional que nos acompanhava. Depois levei para casa e sentei com os dois na sala.
Lucas se inclinou por cima do meu ombro.
"Então ele fica mesmo."
Samuel não olhou para o papel.
Olhou para mim.
"Posso continuar nessa escola?"
"Pode."
"E aqui no quarto?"
"Sim."
Ele assentiu, guardando as respostas devagar.
Lucas abriu um sorriso.
"Agora você não tem desculpa para não terminar nosso jogo."
Samuel cutucou a perna dele com o pé.
"Eu estou ganhando."
"Você está trapaceando."
Os dois começaram a discutir, e eu deixei. Precisava daquele barulho mais do que de uma comemoração organizada.
À noite, encontrei Samuel parado diante da porta do quarto.
"O que foi?"
Ele tocou a madeira com a ponta dos dedos.
"Eu queria pôr meu nome aqui."
"Podemos fazer uma placa."
"Pode furar?"
"Pode."
"Não é melhor colar? Se precisar tirar depois..."
A frase ficou suspensa, não porque ele não soubesse terminá-la, mas porque viu meu rosto.
Aproximei-me e encostei a mão na porta.
"Vamos prender direito. Você escolhe como quer."
Compramos uma pequena placa de madeira no sábado. Lucas insistiu em desenhar as letras. Samuel observou a primeira tentativa e tomou o lápis da mão dele.
"Seu S parece uma cobra atropelada."
"Eu estava fazendo um estilo."
"Faz outro estilo."
Minha mãe, que viera passar o fim de semana, colocou jornal sobre a mesa e trouxe café. Os meninos pintaram as letras de azul. Eu fiquei encarregada da borda branca, sob supervisão rigorosa de Samuel.
"Está grosso desse lado."
"Você pode corrigir depois."
"Eu vou."
Esperamos secar. Dona Lúcia tirou uma foto dos dois com tinta nos dedos e precisou prometer que não publicaria sem perguntar.
Na hora de pendurar, Samuel segurou a placa contra a porta enquanto eu marcava os pontos.
SAMUEL.
O nome cabia inteiro.
Prendi a madeira. Lucas conferiu com um aplicativo no celular e declarou que estava torta. Ajustamos. Minha mãe disse que agora estava perfeita, e ninguém acreditou porque ela também dissera isso antes.
PUBLICIDADE
Ficamos os quatro no corredor.
Samuel passou o dedo pela letra inicial, com cuidado para não deixar marca.
"Ficou bom", disse.
A voz saiu apertada.
Dei espaço. Ele continuou ali até Lucas se cansar de esperar e ir buscar o controle do videogame.
Então Samuel se virou para mim.
"Minha mãe ia gostar?"
"Acho que sim. Você quer mostrar para ela?"
Ele entendeu. Foi buscar a fotografia e a apoiou na escrivaninha, de onde se via a porta aberta.
Fiquei perto do batente enquanto ajeitava a moldura.
"Ela falava que eu escrevia meu nome grande demais", contou.
"Agora tem espaço."
Samuel olhou a placa mais uma vez.
Depois veio me abraçar.
Eu apoiei o rosto no cabelo dele e esperei até que quisesse soltar.
Naquela noite, os dois discutiram sobre de quem era a vez de apagar a luz da sala. Mais tarde, Samuel esqueceu uma toalha na cama, e eu reclamei da porta. Ele respondeu que já ia guardar.
Guardou só depois que pedi de novo.
Antes de dormir, apareceu no meu quarto com o carregador de Lucas na mão.
"Ele está dizendo que eu peguei. Mas estava no sofá."
"Então devolve e explica."
Samuel revirou os olhos.
"Eu já expliquei. Ele que não escuta."
Saiu resmungando. Ouvi os dois discutirem por mais um minuto e depois rirem de alguma coisa que não consegui entender.
Fiquei deitada, ouvindo a casa.
Anos depois, Samuel continuaria desenhando casas. Estudaria, erraria projetos, mudaria de ideia e acabaria trabalhando com espaços destinados a crianças e adolescentes que precisavam de acolhimento. Seu primeiro projeto teria o nome de Nádia.
Eu o acompanharia à apresentação, sentada ao lado de Lucas. Veria meu filho aplaudir o irmão e reconheceria, num desenho sobre a mesa, aquela antiga preocupação com portas e janelas.
Mas isso ainda estava longe.
Naquela noite, Samuel tinha treze anos. Precisava terminar a tarefa, devolver um carregador e aprender a não deixar roupa molhada em cima da cama.
Quando fui apagar a luz do corredor, vi que sua porta continuava aberta.
Parei perto dela.
"Deixo acesa?"
Samuel ergueu os olhos do livro.
Pensou por um instante.
"Hoje pode apagar."
Esperei que se acomodasse, apaguei e fui para o meu quarto.
Pouco depois, ouvi seus passos. Ele apareceu na porta com o rosto amassado de sono.
"Clara?"
"O que foi?"
"Amanhã compra daquele pão? O que vem com queijo por cima."
"Compro."
Ele assentiu, satisfeito.
"Boa-noite."
"Boa-noite, meu bem."
Samuel voltou para o quarto sem mochila, sem sapatos e sem olhar para a porta de saída.
Dessa vez, foi dormir sem conferir a caixa de comida no armário.
FIM
PUBLICIDADE
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 10
Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai.
Aos dezenove anos, Lucas Moura trabalha no caixa de uma farmácia e conta o dinheiro até para jantar. Mesmo assim, quando faltam dezoito reais para uma idosa comprar seus medicamentos, ele completa a diferença — apesar da repreensão do gerente. Antes de ir embora, a mulher tira um celular do bolso e faz uma ligação: “Beatriz? Eu o encontrei. Pode vir.” Pouco depois, uma advogada entra na farmácia carregando uma pasta com o nome do pai de Lucas, morto havia oito anos. Aquela mulher conhece uma parte da vida dele que Lucas nunca ouviu contar. Seu gerente também. Entre cartas antigas, silêncios e uma promessa adiada, Lucas terá de descobrir por que todos parecem conhecer seu pai melhor do que ele.Drama|Moderno10.2 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam
No meu primeiro dia de trabalho na mansão Moretti, minha filha de três anos entrou no único quarto proibido da casa. Encontrei Mia sentada ao lado de Lorenzo Moretti, segurando sua mão e cantando baixinho. O homem que todos temiam estava havia quarenta e nove dias sem despertar. Minha filha só queria saber se ele tinha medo de dormir sozinho. Eu estava prestes a tirá-la dali quando seus dedos se fecharam em torno dos dela. A partir daquele momento, Mia passou a esperar pelas visitas. E Lorenzo começou a esperar por nós. Eu também queria voltar àquele quarto, embora demorasse a admitir o motivo. Então descobri uma anotação escrita antes do acidente. Lorenzo já estava procurando por mim e pela minha filha. E o homem que nos abandonou sabia por quê.Bilionário|Moderno9.7 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família
Ao voltar de uma viagem, Mateus Valenti encontra Sofia, de cinco anos, descalça pela casa, procurando a mãe que não vê há três dias. A administradora da fazenda garante que Helena saiu para cuidar da tia Rosa. Mas a menina revela um detalhe impossível de ignorar: Rosa morreu há oito meses. Então Sofia conta o que ninguém quis ouvir. Ela escutou a mãe batendo atrás de uma porta azul, no subterrâneo da propriedade. Mateus decide acompanhá-la. No corredor abandonado, encontra pegadas recentes, um botão da blusa de Helena e um cadeado novo numa porta antiga. Quando alguém finalmente responde do outro lado, ele percebe que não conhece tão bem as pessoas em quem sempre confiou. E encontrar Helena será apenas o começo.Drama|Moderno10.0 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia
Ninguém entrava no escritório de Dante Moretti sem permissão. Até a filha da empregada aparecer de pijama, abraçada a uma almofada de estrela. “Seu Dante, posso pegar seu cachorro emprestado pra dormir comigo?” Sofia tinha quatro anos e uma explicação: alguém estava batendo perto da porta do seu quarto à noite. Ela estava com medo. E achava que Bruno, o enorme cão de guarda que todos evitavam, também não gostava de dormir sozinho. Dante pretendia apenas levar a menina de volta para a mãe. Então Sofia tirou uma fotografia do bolso. Na imagem estava o pai dele, morto havia dezoito anos. Ao lado, a empregada da casa, muito mais jovem, segurava um bebê. “A mamãe falou que não sou eu.” Dante conhecia cada rosto naquela fotografia. Menos o da criança. E descobrir quem ela era significava encarar tudo que sua própria família havia escondido dele.Drama|Máfia|Moderno10.7 mil palavras5 0 -
TerminadoCapítulo 10
Quebrei o Caixão da Minha Irmã
Rafael estava prestes a se despedir da irmã quando ouviu um choro vindo de dentro do caixão. Disseram que era o desespero. Tentaram afastá-lo. Mas ele pegou um castiçal e quebrou a madeira diante de todos. Luísa estava viva. Amarrada, amordaçada e apavorada. Salvá-la deveria ter sido o fim daquele pesadelo. Até que ela implorou para não voltar ao hospital onde fora declarada morta. Agora, Rafael precisa descobrir quem tentou enterrar sua irmã viva — e por que as pessoas em quem sempre confiou querem impedir que ela conte o que sabe. Naquela família, nem todos os funerais enterraram os mortos. Alguns enterraram a verdade.Drama|Bilionário|Traição|Vingança|Moderno10.6 mil palavras5 26 -
TerminadoCapítulo 11
Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia.
Clara Martins conhecia todos os funcionários daquele salão. O homem que caminhava em direção ao pequeno Léo não era um deles. Quando viu a arma apontada para o menino, ela não pensou no sobrenome Bellini. Pensou apenas que ele tinha seis anos. Três tiros depois, Clara acordou no hospital e descobriu que salvar o filho de Lorenzo Bellini havia colocado sua própria família em perigo. Enzo era um homem acostumado a ser obedecido. Podia oferecer médicos, seguranças e uma casa cercada por muros. Mas não sabia como consolar o filho — nem como lidar com a mulher que arriscara tudo por ele. Então, diante da própria família, anunciou: “Ela é minha esposa.” Clara nunca havia se casado com aquele homem. Agora, precisava sustentar uma mentira sob o mesmo teto que ele, enquanto um menino começava a confiar nela e um beijo ameaçava tornar tudo dolorosamente real. Ela aceitara sua proteção. Entregar o coração seria muito mais perigoso.Empregada/Babá|Drama|Vingança|Máfia11.3 mil palavras5 31