"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 1

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A PORTA PROIBIDA

Minha filha estava cantando no único quarto daquela casa em que não podia entrar.

Eu a encontrei de pé numa cadeira, com os sapatinhos prateados perigosamente perto da borda. O coelho cinza descansava no travesseiro de Lorenzo Moretti. Uma das mãos dela segurava um dedo do homem que, segundo a cozinheira, fazia empresários experientes esquecerem o que tinham ido dizer.

Ele não se mexia.

Mia desafinou, procurou a próxima palavra e continuou com uma palavra inventada. Tinha três anos. Ainda acreditava que cantar mais alto resolvia qualquer problema com uma música.

Fiquei parada por um segundo, horrorizada demais para chamá-la.

Era meu primeiro dia de trabalho.

Duas horas antes, Isabela Moretti me mostrara a escada e estabelecera uma regra muito simples.

"A ala de cuidados no segundo andar é restrita. Você não precisa subir, e sua filha não pode circular por lá."

Eu concordara. Depois deixara Mia com um livro de figuras na salinha ao lado da cozinha, enquanto a governanta me mostrava o depósito de roupas de cama. A cozinheira estava por perto. Eu dissera que voltava num instante.

Um instante tinha sido suficiente.

"Mia", chamei, num sussurro que saiu mais duro do que eu queria. "Venha aqui, meu amor. Agora."

Ela virou o rosto. O laço azul estava quase caindo de seus cachos.

"Mamãe, ele está dormindo."

"Eu sei. Você precisa descer dessa cadeira."

"Ainda não terminei a música."

Atravessei o quarto, desviando dos equipamentos. Só de perto percebi como Lorenzo era grande. Mesmo deitado, com o rosto mais magro e a barba aparada, parecia ocupar a cama inteira. Havia desenhos escuros nos antebraços e um pequeno corte já fechado perto da sobrancelha.

Eu nunca o vira acordado. Mesmo assim, tive medo de que abrisse os olhos e me encontrasse ali.

"A gente conversa lá embaixo", falei, estendendo os braços.

Mia puxou o coelho pelo pé.

"Eu emprestei o Nino, mas ele não pegou."

"Ele está doente, filha."

Ela olhou para o rosto imóvel.

"Eu sei. Por isso eu cantei."

Uma mulher de uniforme claro apareceu na porta. Levava uma bandeja pequena e tinha uma expressão que me fez querer pedir desculpas antes mesmo de saber seu nome.

"Eu sinto muito", comecei. "Ela saiu da cozinha e eu não percebi. Não encostou nos aparelhos. Eu vou levá-la agora."

A mulher colocou a bandeja sobre uma bancada.

"Espere."

Minha barriga gelou.

Eu precisava daquele emprego. Precisava tanto que passara a noite anterior fazendo contas num envelope de supermercado, com Mia dormindo atravessada no meu colo. Pela primeira vez em dezoito meses, o resultado não terminava em alguma conta atrasada.

"Foi minha responsabilidade", acrescentei. "Não vai acontecer de novo."

A enfermeira não olhava para mim. Olhava para a tela ao lado da cama.

Mia tentou me explicar, paciente com a minha falta de entendimento.

"Perguntei se ele tinha medo de dormir sozinho. Ele não respondeu. Aí eu cantei aquela que você canta quando chove."

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Pousei a mão nas costas dela.

"Você teve uma boa intenção, mas não pode entrar nos quartos sem pedir."

"O Nino também teve."

A enfermeira se aproximou devagar.

"Meu nome é Helena. O que você estava cantando, querida?"

Mia olhou para mim, pedindo autorização. Assenti, sem entender o que estava acontecendo.

Ela cantou mais um pedacinho. Baixinho dessa vez, porque eu estava séria.

Helena acompanhou a tela, depois se inclinou sobre o paciente e chamou seu nome. Esperou. Tocou a mão dele. Não houve resposta que eu conseguisse perceber.

"Ele costuma fazer isso?", perguntei.

"Estamos observando algumas mudanças. Não quero tirar conclusões antes da avaliação."

Mia não prestou atenção. Tentava acomodar o coelho para que uma orelha não cobrisse o rosto de Lorenzo.

"Pronto. Agora ele consegue respirar."

Peguei o brinquedo e o devolvi a ela.

"O Nino vai com a gente."

Seu queixo começou a tremer.

Eu conhecia aquele sinal. Estava cansada, num lugar desconhecido, cercada por adultos que falavam baixo. A vontade de chorar veio antes da compreensão do que tinha feito de errado.

"Não estou brava porque você quis fazer companhia", expliquei, ajeitando o laço. "Fiquei assustada porque não sabia onde você estava."

"Eu estava aqui."

"Mas eu não sabia. Preciso que você me avise antes de sair."

Ela concordou com a cabeça e acariciou o dedo imóvel que ainda segurava.

"Amanhã eu canto melhor, tá?"

Depois se inclinou e beijou a mão dele.

Helena prendeu a respiração.

Ouvi a bandeja vibrar quando ela se apoiou na bancada. Virei o rosto, certa de que eu tinha permitido outra coisa errada.

"A mão", ela disse.

Olhei.

Nada aconteceu.

Por um segundo, achei que todos estávamos tão tensos que qualquer sombra parecia movimento.

"Lorenzo?", chamou Helena, agora bem perto. "Você está me ouvindo?"

Mia franziu a testa, concentrada.

"Mamãe, espera."

"O que foi?"

Ela ergueu um pouco o braço. Não conseguia soltar o dedo sem puxar.

Vi então a mudança. Pequena, quase nenhuma. Os dedos dele tinham se curvado.

Não era um aperto forte. Era justamente a fraqueza daquele movimento que o tornava impossível de ignorar.

Helena apertou um botão e falou com alguém pelo telefone interno. Eu não entendi todas as palavras. Entendi que queria o médico ali.

Passos firmes se aproximaram pelo corredor.

Isabela apareceu com o celular na mão e parou na entrada. Seus olhos foram da filha da empregada à cadeira, da cadeira ao irmão.

"Clara, o que está acontecendo?"

Senti o rosto queimar.

"Eu vim buscar a Mia. Ela subiu enquanto eu estava no depósito. Estou tentando entender o que aconteceu."

Não consegui terminar.

Isabela tinha avançado até o pé da cama. Sua mão fechou em torno da estrutura de metal com tanta força que os nós dos dedos perderam a cor.

Mia olhou para ela. Depois para mim.

Havia orgulho em seu rosto, o mesmo que aparecia quando conseguia fechar sozinha a sandália.

"Mamãe, ele segurou meu dedo."

Eu voltei a olhar para aquela mão.

Isabela cobriu a boca. Nenhuma de nós falou.

Minha filha sacudiu de leve o coelho, como se ele também devesse prestar atenção.

"Acho que ele não quer ficar sozinho."

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