"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 9

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A VOZ DO OUTRO LADO

Mia descobriu que estávamos namorando porque me viu beijar Lorenzo na varanda.

Ela tinha passado três minutos tentando calçar a sandália e escolheu justamente aquele instante para pedir ajuda.

"Mamãe."

Afastei o rosto depressa. Lorenzo permaneceu com o braço em volta da minha cintura.

Minha filha nos observou. Depois olhou para o próprio pé.

"Está errado."

Meu coração tropeçou.

"O quê, meu amor?"

Ela levantou a sandália esquerda, presa no pé direito.

Lorenzo virou o rosto para esconder a risada. Ajoelhei diante dela e troquei os sapatos. Durante o processo, Mia apoiou as mãos nos meus ombros.

"Você gosta do Renzo?"

Respirei fundo.

"Gosto."

"Eu também."

Olhou para ele, pensando em mais alguma coisa.

"Mas não pode comer meu último biscoito."

Lorenzo fez uma promessa solene a respeito dos biscoitos. Naquela noite, quando estávamos sozinhos, me contou que ficara mais nervoso com a pergunta dela do que com o convite para jantar.

"Ela costuma negociar depois de aceitar", avisei.

"Percebi pelos sapatos do coelho."

Nino tinha ganhado um par minúsculo, presente de Isabela que nenhum de nós conseguira explicar.

Nosso namoro foi encontrando lugar na rotina. Algumas noites eu saía tarde do escritório e ia direto buscar Mia. Outras, Lorenzo aparecia com comida e ficava no meu apartamento até a hora de colocá-la na cama.

A primeira vez que o vi sentado no meu sofá, com os joelhos perto demais da mesinha, tive vontade de pedir desculpas pelo espaço.

Ele perguntou onde ficavam os pratos.

Eu mostrei.

Depois disso, não pedi desculpas por mais nada.

Continuávamos discutindo. Ele tinha o hábito de transformar sugestões em decisões. Eu demorava a dizer que estava sobrecarregada e depois explodia por coisas pequenas. Certa noite brigamos por uma carona que eu não pedira e terminamos sentados no chão da cozinha, com a comida esfriando, tentando entender por que algo tão simples tinha saído tão errado.

Lorenzo ficou. Eu também.

Na semana seguinte, ele perguntou antes de mandar o carro. Eu disse que sim sem acrescentar três justificativas.

Em julho, recebi uma carta de Daniel por intermédio de um profissional que cuidava das questões dele. O dinheiro destinado a Mia já tinha sido confirmado e encaminhado. Eu o mantinha separado das despesas do mês.

Dessa vez ele pedia autorização para mandar um cartão de aniversário.

Li a carta na sala da casa de Lorenzo. Ele terminava de montar um quebra-cabeça que Mia abandonara para perseguir bolhas de sabão com Sofia.

"O que você acha?", perguntei.

Ele olhou o papel que eu lhe estendia, leu e devolveu.

"Acho que você está esperando que eu diga alguma coisa que facilite decidir."

"Estou."

"Eu não gosto dele. Minha opinião vem com esse problema."

Sentei ao seu lado.

"Eu também não gosto muito. Mas a Mia vai ter perguntas."

Ele encaixou uma peça e esperou que eu continuasse.

Disse o que me assustava: a chegada, a expectativa, a nova ausência. Não queria que minha filha aprendesse a esperar junto à janela.

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"Então não comece pela janela", respondeu. "Pode começar por uma carta, se você achar melhor."

Pensei nisso durante alguns dias.

Autorizei o cartão. Escrevi que não haveria visitas sem acordo, presentes enormes ou promessas sobre o futuro. Daniel respondeu que entendia. Nenhuma cobrança, nenhuma tentativa de me fazer sentir culpada.

Guardei a resposta sem decidir o que ela significava.

No aniversário do acidente, Lorenzo desapareceu do almoço.

Não tinha saído da propriedade. O carro permanecia na garagem, e o telefone estava sobre a mesa da biblioteca. Encontrei-o no segundo andar, diante do quarto que antes abrigara a cama hospitalar.

A maior parte dos equipamentos tinha sido retirada. Restavam marcas no piso e um armário encostado na parede. A janela estava aberta.

"Quer companhia?", perguntei.

Ele olhou para trás e assentiu.

Entrei. Durante um instante, vi Mia de vestido azul na cadeira, os sapatinhos perto da borda, o coelho sobre o travesseiro.

"Parece menor sem a cama", falei.

"Eu estava pensando nisso."

Fiquei ao lado dele. O vento movimentou a cortina, trazendo o cheiro do jardim molhado.

"Sua irmã está preocupada."

"Eu aviso que estou aqui."

Mas não pegou o telefone. Eu também não fui buscá-lo.

Lorenzo passou a mão pela borda da janela.

"Às vezes lembro de sons. Não sei o que era sonho, o que era alguma coisa acontecendo aqui."

Olhei para seu rosto.

"Você nunca me contou."

"Não sabia como. Algumas lembranças não têm começo. Nem imagem."

Fiquei quieta.

Ele olhou para o espaço onde estivera a cama.

"A voz da Isabela aparecia longe. Como se eu estivesse debaixo d'água e alguém falasse na superfície. Às vezes eu queria responder e não encontrava o caminho."

Segurei sua mão.

"E a Mia?"

Sua boca mudou num sorriso pequeno.

"Uma pergunta. Eu lembro de uma pergunta."

Senti os olhos arderem antes de ele dizer.

"Se eu tinha medo de dormir sozinho."

Apertei seus dedos.

"Ela perguntou no primeiro dia."

"Eu sei. A Helena me contou depois. Por isso não consigo ter certeza de como lembro. Mas a sensação ficou. Alguém falando comigo como se eu ainda pudesse escolher alguma coisa."

Apoiei a cabeça em seu ombro.

Lorenzo respirou fundo. Seu corpo estava firme contra o meu, e pensei em como aquela mesma mão pesara imóvel sobre o lençol.

"Eu tinha medo", admitiu. "Não sei explicar de quê. Só lembro que não queria que a voz fosse embora."

Beijei seu ombro. Não encontrei nada para dizer que não diminuísse o que acabara de me contar.

Do corredor veio o barulho de passos.

Mia apareceu com Nino debaixo do braço. Tinha quatro anos agora e carregava os poucos centímetros conquistados com muito orgulho.

"Vocês estão aqui. A tia Bela mandou procurar."

Lorenzo limpou o canto dos olhos antes de se virar.

Minha filha examinou o quarto.

"Cadê a cama?"

"Eu já durmo no meu quarto. Vamos usar este para outra coisa."

"Pode ser de livro?"

"Pode."

Ela entrou, observou a janela e apontou para o canto.

"Precisa de uma cadeira azul."

"Por quê?", perguntou ele.

Mia pareceu surpresa por precisar explicar.

"Para sentar."

Eu ri contra o ombro dele.

Uma semana depois, a cadeira chegou. Lorenzo me ligou durante o almoço para perguntar se eu poderia ajudar a escolher livros com Mia no sábado.

Quando desliguei, havia uma mensagem dele.

Quero vocês aqui porque querem estar. Mas quero muito que estejam.

Li duas vezes, depois respondi que no sábado levaríamos os livros e o bolo de cenoura que Mia estava prometendo fazer havia dias.

Não levei uma mala naquela tarde. Levei no mês seguinte, depois de conversarmos, de visitarmos o quarto que seria de Mia e de ouvi-la perguntar se poderia levar a luminária do apartamento.

Lorenzo foi buscá-la pessoalmente.

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