"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 8
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SEM A SUA IRMÃ
O primeiro beijo quase aconteceu por causa de uma azeitona.
Era março, e Lorenzo já caminhava sem a bengala dentro de casa. Ainda se cansava mais cedo do que admitia. Eu o via esfregar a têmpora depois de reuniões longas e fingia não reparar quando se sentava antes de todos.
Estávamos na cozinha, depois de um almoço que eu não tinha preparado. Isabela me convidara para a mesa num domingo, e eu aceitara porque Mia perguntara durante três dias se Sofia estaria lá.
Lorenzo tirou uma azeitona da própria salada e colocou no meu prato.
Devolvi imediatamente.
"Não gosto."
"Você nem experimentou."
"Tenho vinte e oito anos. Já tive tempo de conhecer uma azeitona."
Ele olhou para o prato, resignado, e comeu a que tinha tentado me dar.
Mia entrou para buscar água. Parou ao ver a troca de olhares.
"Vocês estão brigando?"
"Ainda não", disse Lorenzo.
Minha filha pareceu satisfeita e saiu com o copo seguro nas duas mãos.
Eu estava rindo quando ele se aproximou para pegar uma xícara atrás de mim. Sua mão tocou minha cintura de leve, só para avisar que passaria. Mesmo depois que a xícara chegou à bancada, ele não se afastou.
Virei o rosto.
O sorriso tinha desaparecido da boca dele. Olhava para mim de um jeito que me fez esquecer o barulho da louça e a porta aberta para o quintal.
"Clara."
"O quê?"
Ele passou o polegar pela costura lateral da minha blusa. Eu não me mexi.
Então Isabela gritou da sala, perguntando quem tinha visto seus óculos.
Fechei os olhos.
Lorenzo recuou um passo e apoiou a testa no armário.
"Na cabeça dela", murmurou.
Fui conferir. Estavam mesmo.
Naquela época, minha rotina já havia mudado. Isabela soubera que eu tinha feito quatro semestres de Ciências Contábeis antes de interromper os estudos para cuidar da minha mãe. Quando abriu uma vaga de apoio administrativo, perguntou se eu gostaria de me candidatar.
Pedi tempo para pensar. Depois fiz a entrevista, uma tarefa prática e uma segunda conversa com a supervisora que não trabalhava na casa.
Quando recebi a oferta, liguei para a antiga gerente da lavanderia antes mesmo de contar a Lorenzo. Ela gritou no telefone e disse que eu lhe devia um café.
Passei a trabalhar no escritório do grupo, com horários estáveis. A casa deixou de ser o lugar onde eu entrava de uniforme e saía com as mãos cheirando a produto de limpeza.
Mesmo assim, continuei indo.
Às vezes com Mia. Às vezes porque Isabela me chamava para jantar. E, cada vez mais, porque Lorenzo perguntava se eu teria meia hora no fim do dia.
Numa sexta-feira, ele nos acompanhou até o carro que nos levaria para casa. Mia se acomodou na cadeirinha e estendeu o coelho.
"O Nino precisa de cinto."
"O Nino pode ir no seu colo", respondi.
Ela me olhou como se eu tivesse sugerido deixá-lo na estrada.
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Lorenzo abriu a outra porta e prendeu o brinquedo com o cinto do banco ao lado.
"Resolvido."
Fechou a porta antes que minha filha encontrasse outra emergência.
"Você vai ter problemas quando ela aprender a pedir coisas caras", avisei.
"Tenho alguns anos para me preparar."
Ele enfiou as mãos nos bolsos e ficou diante de mim. O motorista aguardava do outro lado do carro.
"Quero levar você para jantar amanhã."
"A gente acabou de jantar."
"Sem Isabela."
"Isso elimina a discussão sobre os óculos."
"Sem Marco. Sem Sofia."
Parei de sorrir devagar.
Ele olhou de relance para o vidro, onde Mia fazia o coelho acenar.
"Sem Mia também. Se conseguir alguém de confiança para ficar com ela."
"Você está me convidando para sair?"
"Estou tentando há alguns minutos."
O nervosismo na voz dele era discreto, mas eu já o conhecia o suficiente para ouvir.
"Sábado às oito?", perguntei.
Seus ombros relaxaram.
"Sábado às oito."
Usei um vestido que estava guardado desde o nascimento de Mia. Precisei de um ajuste na lateral. Uma vizinha me ajudou com a costura e disse, enquanto prendia o tecido, que eu deveria parar de puxar a barriga para dentro para conseguir respirar no jantar.
Mia ficou na casa de Isabela, feliz com a promessa de dormir no quarto de Sofia. Eu liguei duas vezes antes de o primeiro prato chegar.
Na segunda, minha filha perguntou por que eu ainda não tinha ido comer.
Lorenzo esperou que eu guardasse o telefone.
"Está tudo bem?"
"Ela quer que eu pare de ligar."
"Minha irmã está ensinando maus hábitos."
O restaurante era pequeno. O dono o reconheceu, mas apenas nos levou à mesa reservada. Lorenzo não levou seguranças para se sentarem ao lado. Ainda assim, notei que escolheu a cadeira de onde via a entrada.
"Você faz isso sempre?", perguntei.
Ele acompanhou meu olhar.
"Há muito tempo."
"A cozinha da sua casa também tem uma entrada perigosa?"
"Minha irmã entra por ela sem avisar."
Ri, lembrando do armário e do beijo que não acontecera.
Ele também lembrou. Vi na maneira como sua atenção desceu até minha boca e voltou.
Falamos de coisas que ainda não sabíamos um do outro. Da minha mãe, de uma viagem que ele nunca fizera porque sempre surgia algum compromisso, do curso que eu queria terminar. Ele contou como o avô transformara respeito e medo numa herança difícil de separar. Não tentou negar a origem do dinheiro da família nem me oferecer uma versão bonita de tudo.
"É por isso que as pessoas ainda falam de você daquele jeito?"
"Em parte. Eu também não fui particularmente gentil tentando mudar a maneira como os negócios funcionavam."
"Consigo imaginar."
Ele inclinou a cabeça, aceitando a provocação.
Na saída, me ofereceu o braço. Eu o segurei, e caminhamos devagar até o carro.
"Está cansado?", perguntei.
"Um pouco."
A resposta franca me fez apertar seu braço.
Ele parou antes de abrir a porta.
"Eu queria ter feito isso na cozinha."
Não precisei perguntar o quê.
Toquei a lapela de seu paletó e me aproximei. Lorenzo segurou meu rosto, esperou o breve instante em que eu ainda poderia recuar e me beijou.
Senti o frio da noite nas costas e a mão dele quente junto ao meu pescoço. Agarrei o tecido do paletó. Quando nos afastamos, eu estava sorrindo sem conseguir evitar.
"Vai ter que me convidar de novo", falei.
Ele encostou a testa na minha.
"Eu estava contando com isso."
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