"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 7

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O QUE FICOU POR DIZER

Isabela puxou uma cadeira, mas Lorenzo não lhe ofereceu lugar.

Ela se sentou mesmo assim.

"Depois que André morreu, encontrei uma pasta nas coisas dele. Havia anotações sobre algumas cobranças do Vítor."

"Há oito anos", disse Lorenzo.

"Sim."

Ele olhou para a fotografia. As bordas do papel estavam gastas. Eu consegui ver a data no canto, quinze anos antes daquela tarde.

"Você sabia antes de Daniel me procurar."

"Sabia que André tinha dúvidas. Não sabia até onde aquilo ia."

Lorenzo soltou uma risada sem humor.

"E decidiu não descobrir."

Isabela recebeu a frase sem se defender. Pela primeira vez desde que eu a conhecia, pareceu não saber onde pôr as mãos.

"Eu estava enterrando meu marido, criando a Sofia e tentando manter esta casa funcionando. Abri aquela pasta, li algumas páginas e guardei. Depois fui deixando para mais tarde. Quando vi que continuavam trabalhando normalmente, me convenci de que André tinha resolvido."

"Você podia ter me mostrado."

"Podia."

"Na noite antes do acidente, eu perguntei sobre Vítor."

Ela ergueu os olhos rapidamente.

"Você lembrou?"

"Lembro de você dizendo que André tivera um problema pequeno com ele."

Isabela apertou os lábios.

"Eu achei que, se contasse naquele momento, você pensaria que meu marido tinha participado."

O rosto de Lorenzo endureceu.

"Então você me deixou sem saber no que eu estava mexendo."

A discussão estava ganhando um peso que eu não queria testemunhar. Dobrei a carta de Daniel e me levantei.

"Vou buscar a Mia. Vocês precisam conversar."

Lorenzo me olhou. Parecia querer pedir que eu ficasse, mas apenas assentiu.

Encontrei minha filha com farinha no nariz e quatro estrelas de massa numa assadeira. Dona Cida havia reservado para ela a parte menos eficiente da produção.

"O Renzo pode comer esse?", perguntou, apontando para um biscoito sem açúcar de confeiteiro.

Era a primeira vez que a ouvia usar o apelido. Tinha encurtado o nome entre uma tentativa e outra, sem pedir autorização a ninguém.

"A gente pergunta à Helena."

"Eu fiz o menor para ele não cansar."

Passei o dedo na ponta do nariz dela e mostrei a farinha.

"E o seu nariz também fez biscoito?"

Mia tentou olhar para ele e acabou vesga. Ri, finalmente, e ela riu comigo sem saber por quê.

Fomos embora mais tarde do que de costume. Isabela não tinha descido. Lorenzo me mandara um recado por Helena: queria falar comigo no dia seguinte, quando eu pudesse.

Em casa, Mia pediu que eu cantasse enquanto a ajudava a dormir. Deitei ao seu lado e comecei a canção baixinho. Ela interrompeu para dizer que eu tinha pulado uma parte.

Voltei ao começo.

Quando ela adormeceu, fiquei ali, olhando a parede ainda marcada pela infiltração já consertada. A carta estava dentro da minha bolsa. Não tive coragem de tirá-la outra vez.

Na manhã seguinte, levei duas perguntas anotadas no verso de uma conta. Escrevê-las me ajudava a não me perder quando ficava nervosa.

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Lorenzo estava na varanda da biblioteca. Isabela deixara uma pasta fechada ao lado dele e saíra antes da minha chegada.

"Ela me mostrou os e-mails da contratação", disse ele. "Separei as mensagens que mencionam você. Pode ler tudo."

Abri a pasta. Havia datas, referências de antigas empregadoras e uma observação sobre eu precisar trazer minha filha nos primeiros dias.

A primeira tentativa de contato era posterior ao acidente. Isabela levara semanas até conseguir meu número correto por meio de uma gerente de lavanderia. Não existia uma longa operação em torno de mim; existia uma instrução deixada pelo irmão, executada aos tropeços em meio à crise.

Continuei lendo até o fim.

"Ela podia ter dito que você tinha recomendado meu nome."

"Podia."

"Eu talvez tivesse recusado."

"Foi o que ela pensou."

Fechei a pasta.

"E você? Também teria escondido?"

Ele demorou a responder.

"Talvez eu tivesse tentado resolver primeiro e explicar depois. É um hábito meu."

A resposta me irritou e me aliviou ao mesmo tempo. Pelo menos não estava tentando me convencer de que sempre agiria perfeitamente.

Lorenzo apoiou a xícara.

"Mas você já me explicou, com bastante clareza, o que acha disso."

Olhei para o papel na minha mão. A segunda pergunta dizia: Por que você ainda quer que eu fique?

Amassei a ponta e guardei no bolso.

"O que vai acontecer com a empresa?"

"Revisão dos contratos, cobrança do que for comprovado e devolução a quem pagou indevidamente. Pessoas que entendem do assunto vão cuidar disso."

"E o Marco?"

"Vai sair das aprovações financeiras. Se quiser continuar, vai trabalhar sob supervisão e ajudar a corrigir o que deixou passar."

"Ele aceitou?"

"Não ofereci uma negociação."

Ali estava o homem das histórias. Mesmo sentado com uma bengala ao lado, conseguia fazer uma frase simples soar definitiva.

"Você está com raiva da sua irmã."

"Estou."

"Mas vai tomar café com ela amanhã?"

Ele me examinou.

"Provavelmente vamos discutir durante o café."

Sorri de leve.

"Parece uma melhora."

Passos pequenos correram pelo corredor. Mia surgiu com Helena e um prato cuidadosamente equilibrado nas mãos.

"Pode comer", anunciou. "Ela deixou."

Helena ergueu um dedo.

"Um pedaço pequeno."

Lorenzo recebeu a estrela torta como se fosse um objeto valioso.

"Você fez?"

"A Cida ajudou um pouco."

Da porta, a enfermeira cobriu a boca para esconder a risada.

Mia encostou na perna dele e esperou que experimentasse. Lorenzo partiu um pedaço, comeu e assentiu.

Minha filha relaxou, satisfeita.

"Agora você pode falar que gostou."

Ele obedeceu. Eu o vi guardar o restante no guardanapo para depois.

Quando Helena levou Mia para lavar as mãos, Lorenzo me chamou antes que eu fosse atrás.

"Você guardou uma pergunta."

Toquei o bolso por reflexo.

"Não era urgente."

"Era sobre mim?"

Senti o calor subir pelo pescoço. Ele percebeu e ficou sério.

Não respondi. Lorenzo também não insistiu, mas seus olhos permaneceram nos meus quando disse:

"Se você decidir procurar outro trabalho, quero continuar vendo vocês. Só se você quiser."

O papel amassado pareceu pesar no meu bolso.

"Eu ainda estou zangada."

"Eu sei."

"Mas não estou procurando outro trabalho."

Ele baixou o rosto. Quando tornou a me olhar, havia um alívio tão visível que não consegui fingir que não o tinha visto.

Fiquei mais alguns minutos.

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