"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 6

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O ENVELOPE DO CARRO

O envelope apareceu numa caixa de objetos retirados do carro de Lorenzo.

Foi Isabela quem me contou. Havia passado semanas separando documentos, telefonando para o hospital e procurando materiais entre as coisas que os funcionários tinham guardado depois do acidente.

Dessa vez me chamou antes de abrir a carta que trazia meu nome.

Fui à biblioteca enquanto Mia ajudava dona Cida a cortar biscoitos com uma forma de estrela. Lorenzo estava sentado junto à mesa, com a bengala encostada na cadeira. Marco, seu primo, ocupava o outro lado.

Eu o conhecia das visitas. Sempre chegava com uma pasta e perguntava por alguma assinatura antes de perguntar pelo almoço.

Naquele dia, a pasta permanecia fechada.

Isabela me entregou o envelope menor.

"Esta parte é sua."

Reconheci a letra de Daniel. A mesma inclinação apressada do bilhete que ele deixara na cozinha quase dois anos antes.

Não abri imediatamente.

"O resto é sobre a empresa?"

Lorenzo assentiu.

"Há registros suficientes para começar uma revisão. Vítor, um antigo prestador de serviços, cobrava por coisas que não entregava. Algumas autorizações receberam uma cópia da minha assinatura."

Marco passou a mão pelo rosto.

"Eu aprovei os primeiros pagamentos sem conferir direito."

Olhei para ele.

"Você sabia das cobranças?"

"No começo, não. Quando Daniel me procurou, percebi que havia coisa errada. Achei que conseguiria esclarecer antes de falar com Lorenzo."

Lorenzo se manteve imóvel. Não ergueu a voz, mas a maneira como olhava para o primo fez Marco baixar os olhos.

"Você teve semanas", disse.

"Eu sei."

"E entrou no meu quarto com documentos para assinar durante a recuperação."

Marco abriu a pasta. Tirou algumas folhas e as deixou sobre a mesa.

"Não eram esses pagamentos. Pode mandar revisar tudo o que trouxe."

"Eu vou mandar."

Senti que estava no meio de uma conversa que não me pertencia. Levantei a carta.

"Posso ler em outro lugar?"

Isabela apontou para a varanda fechada ao lado da biblioteca.

Sentei sozinha. Demorei a abrir o papel porque já sabia que aquela letra me faria lembrar do homem que eu tinha amado, e eu estava cansada de sentir falta de alguém que nunca existira por inteiro.

Clara,

Eu deixei você com tudo o que prometi dividir. Sei que não há explicação que faça isso parecer menos covarde.

Procurei Lorenzo Moretti para vender os registros que meu pai guardou. Achei que conseguiria pagar dívidas e aparecer na sua porta com dinheiro suficiente para não precisar falar sobre o resto.

Ele não aceitou comprar meu silêncio. Pediu os documentos para verificar o que tinha acontecido e perguntou por você e pela Mia.

Contei mais do que pretendia. Quando ouvi em voz alta como vocês estavam vivendo, não consegui continuar dizendo que estava resolvendo as coisas.

Há dinheiro da venda de bens que restaram do meu pai. Separei uma parte para nossa filha. As informações estão com os documentos. Lorenzo concordou em fazer chegar até você.

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Não estou pedindo que me espere. Também não vou dizer que estou indo embora para o bem de vocês. Já usei desculpas demais.

Se algum dia eu puder procurar a Mia, quero ter algo a mostrar além de promessas.

Daniel.

Li até o fim e voltei ao primeiro parágrafo.

A porta se abriu alguns minutos depois. Lorenzo ficou no limiar.

"Quer ficar sozinha?"

Sacudi a cabeça.

Ele entrou devagar e se sentou à minha frente. Eu segurava a carta pelas pontas, como se ainda pudesse sujar alguma coisa.

"Ele deixou isso com você antes do acidente?"

"Pelo que encontramos, sim. A carta estava no envelope junto com os registros. Não me lembrava dela."

"Você lembra mais da conversa agora?"

"De algumas partes. Ele se irritou quando perguntei por vocês. Depois mostrou uma foto da Mia no telefone."

Olhei para o papel.

Daniel tinha uma foto da filha. Não sei por que aquela informação me doeu. Talvez porque, durante meses, eu imaginara que ele simplesmente tivesse parado de pensar nela.

"O dinheiro existe?"

"Os dados foram encaminhados para conferência. Você vai falar diretamente com quem está cuidando disso. Não precisa passar por mim."

Concordei. Ainda não sabia se conseguiria aceitar aquele valor sem sentir raiva.

Uma lágrima caiu sobre meu pulso. Limpei-a antes que alcançasse o papel.

"Ele podia ter mandado uma mensagem", falei. "Eu tinha o mesmo número."

Lorenzo estendeu a caixa de lenços.

Peguei um e pressionei contra os olhos. Chorei em silêncio durante algum tempo, com vergonha dos soluços pequenos que escapavam quando eu tentava respirar.

"Achei que a gente não tinha sido suficiente", confessei.

Ele se inclinou, apoiando o antebraço no joelho.

"Eu vi você passar uma tarde inteira com febre para não faltar ao trabalho. E vi sua filha separar metade de um biscoito para alguém que ainda não podia comer. Daniel foi embora deixando vocês duas. Não sei o que ele procurava, mas sei o que deixou."

Aquilo me fez chorar mais.

Lorenzo esperou. Quando finalmente toquei sua mão, virou a palma para cima e segurou a minha.

Ficamos assim até eu conseguir respirar sem soluçar. Ele me ofereceu água, e eu aceitei. O copo deixou um círculo úmido sobre a mesa. Passei o dedo naquela marca, organizando as próximas perguntas, enquanto ele aguardava sem tentar responder ao que eu ainda não tinha dito.

Depois de um tempo, lembrei da entrevista. Da pasta, do salário, da forma cuidadosa como Isabela me observara.

"Eu preciso saber tudo sobre a contratação", disse. "Não quero descobrir mais um pedaço daqui a uma semana."

Ele assentiu.

"Vou chamar minha irmã."

Antes que se levantasse, o telefone sobre a mesa vibrou. Era uma mensagem de Isabela, enviada da sala ao lado. Ela perguntava se podia entrar com mais um material.

Lorenzo respondeu que sim.

Ela apareceu segurando uma fotografia antiga. Um homem parecido com Daniel estava ao lado de Vítor. Mais à esquerda, muito mais jovem, Isabela sorria junto de outro homem.

"Meu marido", explicou, apontando para ele. "André. Foi ele quem apresentou Vítor à empresa."

Lorenzo tirou a mão da minha.

"Você disse que mal se lembrava dele."

Isabela pousou a foto entre nós.

"Eu não contei tudo."

Vi o rosto de Lorenzo se fechar. A carta de Daniel ainda estava aberta no meu colo, mas, pela primeira vez desde que começara a lê-la, ele parecia estar muito longe de mim.

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