"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 5
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O COPO DE ÁGUA
Voltei na manhã seguinte.
Mia entrou pela cozinha chamando dona Cida, e eu guardei minha bolsa no armário de sempre. Passei alguns minutos esperando que alguém fizesse um comentário sobre a conversa do dia anterior. Ninguém fez.
Aquilo me ajudou a ficar.
Nas semanas seguintes, Lorenzo passou a sentar fora da cama por mais tempo. Recebia o fisioterapeuta quase todos os dias e tratava cada sessão como uma negociação da qual saía contrariado.
Certa tarde, ouvi uma discussão no corredor.
"Mais uma tentativa", disse o profissional.
"Eu ouvi nas outras três vezes."
"Então podemos poupar tempo."
Estava levando toalhas limpas quando a porta se abriu. O fisioterapeuta me cumprimentou, combinou alguma coisa com Helena e saiu. Lá dentro, uma almofada tinha ido parar no chão.
Bati de leve.
"Posso recolher?"
Lorenzo olhou a almofada, depois olhou para mim.
"Ela caiu."
"Bem longe da cadeira."
"Foi uma queda ambiciosa."
Abaixei para pegá-la. Quando a devolvi, percebi a mancha de suor na gola da camiseta dele. Seu braço tremia apoiado no descanso.
"Quer que eu chame a Helena?"
"Quero que as pessoas parem de perguntar isso a cada cinco minutos."
Pousei as toalhas.
"Está bem. Eu preciso trabalhar."
"Clara."
Parei na porta.
Ele esfregou a testa.
"Eu não estava irritado com você."
"Agora já está?"
Lorenzo soltou o ar pelo nariz. Esperei. Tinha aprendido que, quando estava cansado, precisava de alguns segundos para encontrar as palavras.
"Preciso de água."
O copo estava numa mesa a dois passos da cadeira. Peguei-o e pus ao alcance da mão boa.
"Eu podia ter feito isso sem levar uma bronca."
"Podia."
Ele bebeu, devagar, usando as duas mãos.
Não o elogiei. Recolhi a bandeja vazia e continuei meu trabalho.
Mais tarde, quando Mia pediu para visitá-lo, encontrei uma cadeira extra ao lado da janela. Lorenzo tinha solicitado que a deixassem ali.
"Para a mãe da cantora", explicou, sem me encarar.
Sentei.
Minha filha mostrou uma folha que havia arrancado de uma planta no jardim. Explicou que não tinha arrancado de propósito, apenas puxara para ver se estava presa. Lorenzo ouviu a defesa inteira com a seriedade que ela exigia.
"E estava?"
"Estava. Mas agora não está mais."
Ele virou o rosto para a janela. Seus ombros se moveram numa risada silenciosa.
Mia o cutucou.
"Você está rindo de mim?"
"Estou pensando na planta."
"Ela não achou engraçado", eu disse.
Lorenzo me olhou, e dessa vez rimos juntos.
A cadeira se tornou meu lugar. Eu não ficava em todas as visitas, porque às vezes Helena e Sofia podiam acompanhar Mia enquanto eu terminava o expediente. Mas, quando me sentava ali, já não passava os minutos olhando para a porta.
Lorenzo perguntou sobre a lavanderia. Contei do cheiro que grudava na roupa, da mulher que trazia vinte camisas iguais toda segunda-feira, do dia em que Mia achou que as máquinas estavam cantando com ela.
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Ele me contou que detestava o café servido pela equipe de cuidados e que Isabela tinha proibido o cozinheiro de trazer o café forte de que ele gostava.
"Ela deve ter um motivo."
"Todo mundo resolveu concordar com ela."
"Talvez porque ela esteja certa."
Ele apoiou a cabeça no encosto e me examinou.
"Você era mais agradável quando tinha medo de mim."
"Eu falava menos. É diferente."
Ele sorriu. Vi a covinha discreta junto à boca e passei o resto da conversa tentando não olhar para ela.
Numa quinta-feira chuvosa, recebi uma mensagem do proprietário do meu apartamento. Uma infiltração tinha atingido a parede do quarto. Ele queria passar no sábado para ver, se encontrasse alguém que o levasse.
Mandei uma foto do colchão que eu tinha arrastado para longe da água. A resposta demorou. Enquanto esperava, quebrei um prendedor de roupa entre os dedos.
Lorenzo me encontrou no corredor quando voltava de uma caminhada curta com Helena.
"O que aconteceu?"
Guardei o celular depressa demais.
"Um problema no apartamento."
"Que problema?"
Contei. Ele olhou para Helena.
"Peça a alguém da manutenção que..."
"Não", interrompi.
As duas cabeças se voltaram para mim.
Senti vergonha do tom, mas não voltei atrás.
"Eu preciso falar com o proprietário primeiro."
Lorenzo apertou o cabo da bengala que começara a usar.
"Seu colchão está molhado."
"Eu sei. Fui eu que arrastei."
Helena olhou para nós e disse que pegaria uma ficha no quarto. Nenhum dos dois acreditou, mas agradeci a discrição.
"Você me contou um problema", disse Lorenzo. "Eu estava tentando resolver."
"Às vezes eu só preciso reclamar antes de decidir o que fazer."
"Parece pouco eficiente."
"É. Eu também sou pouco eficiente quando estou furiosa."
Ele ficou em silêncio. Vi a impaciência em seu rosto, e por algum motivo isso me deixou mais confortável do que uma compreensão perfeita teria deixado.
"Quer reclamar agora?", perguntou finalmente.
Eu ri. Uma risada curta, exausta.
"Quero."
Ele indicou o banco perto da janela.
Sentei com o celular na mão e falei durante cinco minutos. Do colchão, da demora, da toalha que eu colocara no chão e encontrara encharcada. Lorenzo ouviu. Em certo momento abriu a boca, pensou melhor e a fechou.
Quando terminei, o proprietário tinha respondido que iria naquela noite com um pedreiro.
"Pronto", falei. "Agora posso decidir sem querer atirar o telefone na parede."
Lorenzo olhou para a própria bengala.
"A almofada também ajudou."
Lembrei da tarde da fisioterapia e ri outra vez.
Ele estendeu a mão. Desta vez não a recolheu antes de me tocar. Seus dedos envolveram os meus sobre o banco, quentes e firmes o suficiente para me fazer esquecer a chuva.
Deixei minha mão ali.
Não falamos por alguns segundos. Foi ele quem rompeu o silêncio.
"Você está com frio?"
"Um pouco."
"Quer meu casaco?"
Olhei para ele. Lorenzo arqueou uma sobrancelha.
"Estou perguntando antes de mandar buscar."
Sorri, sentindo o rosto esquentar.
"Quero. Obrigada."
Naquela noite, no ônibus, Mia dormiu encostada em mim. Eu segurava o casaco dobrado sobre os joelhos e me lembrava da mão dele na minha.
Percebi que, pela primeira vez desde a fotografia de Daniel, passara uma tarde inteira sem pensar no meu ex.
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