"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 4

PUBLICIDADE

O QUE ELE SABIA SOBRE MIM

"Eu pedi que Isabela encontrasse vocês", Lorenzo confirmou quando entrei no quarto. "Daniel me contou que você trabalhava à noite e levava Mia porque não tinha com quem deixá-la. Eu pretendia oferecer um emprego."

Fechei a porta atrás de mim.

"Você conhecia o Daniel?"

"Ele me procurou para negociar documentos da empresa. Acabamos falando sobre a filha dele."

"E vocês decidiram o que fazer com a nossa vida sem me conhecer."

Lorenzo se ajeitou na cadeira junto à janela. Usava uma camiseta cinza e uma manta sobre as pernas. Parecia cansado antes mesmo de começarmos.

"Eu pretendia conversar com você, Clara. Depois aconteceu o acidente. Não lembro de tudo o que combinei com Isabela."

"Ela podia ter me contado."

"Podia."

Aquela concordância não diminuiu minha raiva.

Eu tinha passado pela entrevista, respondido perguntas sobre experiência, horários e referências. Tinha escolhido a melhor roupa que possuía e pedido a uma vizinha que ficasse com Mia por duas horas. Agora lembrava de cada resposta com vergonha.

"A vaga existia?"

Ele ergueu o rosto.

"O quê?"

"Vocês precisavam de uma empregada ou inventaram um trabalho para me ajudar?"

"Precisávamos. A funcionária anterior saiu para morar com a filha. Isabela estava tentando substituí-la."

Soltei o ar devagar.

"O salário também foi combinado por sua causa?"

"Eu não sei quanto Isabela ofereceu. Posso perguntar."

"Eu pergunto."

Houve um silêncio desagradável. O ruído baixo do equipamento no canto pareceu aumentar.

Lorenzo apoiou a mão sobre a manta.

"Você tem razão de estar surpresa. Eu estaria."

"Surpresa é uma palavra educada."

Ele quase sorriu, mas desistiu quando percebeu que eu não estava brincando.

"O que Daniel queria vender?", perguntei.

"Registros antigos de obras. Ele disse que o pai tinha guardado documentos sobre cobranças irregulares."

"Ele queria dinheiro."

"Queria."

Olhei para a janela. Uma folha seca estava presa na parte externa do vidro. Era uma coisa tão comum que me deu vontade de chorar.

Daniel sempre precisava de dinheiro. Para uma oportunidade, uma passagem, uma dívida urgente. Eu conhecia o rosto que fazia ao prometer que aquela seria a última vez.

"Você pagou?"

"Não. Pedi que deixasse o material para verificarmos. Lembro de discutir com ele. Não lembro do final da conversa."

"E depois você foi atrás de mim."

"Ele disse que vocês estavam bem. Depois mencionou a lavanderia, o horário, sua filha dormindo num carrinho. As duas versões não combinavam."

Minha garganta apertou.

Eu odiava que Daniel tivesse contado. Odiava mais ainda não poder dizer que era mentira.

"O carrinho tinha um cobertor", falei.

Lorenzo não respondeu.

Foi pior. Se tivesse demonstrado pena, eu teria conseguido me irritar. Seu silêncio só me deixou ouvir a defesa miserável que eu acabara de fazer.

Virei o rosto.

Ele estendeu a mão, depois a recolheu antes de me tocar.

"Clara, sente um pouco."

"Eu estou bem."

"Está branca."

Sentei porque minhas pernas estavam começando a concordar com ele.

PUBLICIDADE

Contei o mínimo. Daniel fora embora quando Mia tinha um ano e dois meses. Deixara um bilhete na cozinha e algumas contas que eu nem sabia que existiam. No início mandava mensagens. Depois parara.

"Ele disse alguma coisa sobre voltar?", perguntei.

"Não lembro."

A resposta saiu acompanhada de uma tensão no maxilar. Pela primeira vez percebi quanto lhe custava dizê-la.

Ainda assim, não consegui ser gentil.

"Preciso saber se ele pretende aparecer. Minha filha não lembra dele direito. Não pode chegar aqui, prometer coisas e desaparecer outra vez."

Lorenzo concordou.

"Tudo o que encontrarmos sobre Daniel será mostrado a você."

"Mesmo que sua irmã ache melhor esconder?"

"Vou falar com ela."

"Eu também vou."

Deixei o quarto antes de perder a coragem.

Isabela me esperava no corredor, mas não tentou entrar. Pedi que conversássemos no escritório.

Dessa vez sentei sem convite.

"Por que não me contou na entrevista?"

Ela permaneceu do outro lado da mesa.

"Lorenzo tinha pedido que eu localizasse vocês. Depois do acidente, muita coisa ficou incompleta. Quando finalmente encontrei seu contato, achei melhor oferecer a vaga e resolver o restante quando ele pudesse falar."

"Para quem era melhor?"

Isabela baixou os olhos por um instante.

"Para mim também", admitiu. "Eu tinha medo de conduzir aquela conversa sem saber tudo."

A franqueza me desarmou por um segundo. Não o suficiente para esquecer.

"Você me deixou entrar aqui sem saber que o pai da minha filha tinha ligação com a família."

"Deixei."

"Não faça isso de novo."

Ela assentiu.

Perguntei sobre o salário. Isabela abriu a pasta da contratação e me mostrou a faixa que vinha oferecendo às candidatas. O valor incluía uma responsabilidade adicional com a organização da rouparia. Não havia um pagamento secreto por visitas nem por cantar ao lado de uma cama.

Eu precisava ter visto aquilo.

"Quer ir para casa hoje?", perguntou.

Pensei no ônibus, no aluguel e na expressão de Mia ao saber que não veria o jardim.

"Quero terminar meu expediente. Amanhã, se eu precisar de tempo para pensar, aviso."

Isabela não insistiu.

Encontrei minha filha no quintal, ajoelhada perto de Sofia. As duas tentavam convencer uma joaninha a subir numa folha.

Mia correu quando me viu.

"Mamãe, ela tem bolinhas."

Abracei-a com força demais. Ela reclamou que eu estava apertando Nino.

Afrouxei os braços e beijei seu cabelo.

"Desculpa, meu amor."

"Você está triste?"

"Estou cansada."

Ela tocou a ruga entre minhas sobrancelhas.

"Aqui também está cansado."

Ri sem vontade. Sofia me ofereceu um lugar no banco e continuou falando com Mia, dando-me alguns minutos em que não precisei responder a ninguém.

Antes de irmos embora, Helena veio me buscar. Lorenzo queria dizer uma coisa.

Fui sozinha. Ele estava na cama outra vez, exausto.

"Não precisa decidir se confia em mim hoje", disse.

Segurei a maçaneta.

"Eu sei."

"Mas, se descobrir alguma coisa por outra pessoa, venha me perguntar. Não quero que fique tentando adivinhar o que estou fazendo."

Pensei no desenho do cavalo ainda exposto na cômoda.

"Eu vou perguntar. E talvez você não goste do jeito."

Ele me olhou por um momento.

"Isso eu já percebi."

A vontade de sorrir me pegou desprevenida. Contive-a, mas ele viu.

Desci ainda zangada. Só que já não tinha tanta certeza de que queria ir embora.

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: