"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 3

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ANTES DE EU CHEGAR

O cavalo ficou sobre a cômoda, apoiado num vaso vazio.

Nos dias seguintes, eu o endireitei tantas vezes que passei a reconhecer cada risco do desenho. Às vezes Lorenzo abria os olhos; às vezes obedecia a um pedido simples. Houve uma manhã em que não fez nenhuma das duas coisas, e Isabela deixou o almoço intocado.

Aprendi a não perguntar na porta se estava melhor. Esperava Helena falar.

Mia tinha menos cautela.

"Hoje ele já pode comer bolo?"

"Ainda não, filha."

"Então não vou levar. Ele pode ficar triste."

Ela subia com a minha mão numa das suas e o coelho na outra. Quando ficava impaciente, descíamos. Em algumas tardes preferia brincar no quintal. Ninguém transformou a escolha numa decepção para ela, embora eu às vezes visse Isabela olhar para a escada.

Foi numa dessas tardes que descobri que Isabela era irmã de Lorenzo.

Eu a ajudava a guardar um jogo de toalhas quando uma adolescente entrou no armário de roupa branca e a abraçou pelas costas.

"Você não ia avisar que vinha?", perguntou Isabela.

"Se avisasse, você mandava eu terminar a semana na escola."

A menina tinha olheiras e uma mochila enorme. Isabela segurou seu rosto entre as mãos, examinou-a e puxou-a de novo para perto.

"Esta é minha filha, Sofia", explicou. "Sofia, Clara trabalha conosco."

A garota me cumprimentou e olhou para o andar de cima.

"O tio está acordado?"

"Estava há pouco."

Sofia respirou fundo. Isabela pousou a mão em suas costas, mas ela não se moveu.

Mais tarde, encontrei a menina sentada no último degrau. Mia levou dois blocos até ela, colocou um no seu joelho e ficou esperando.

Sofia aceitou o convite sem fazer perguntas.

No fim do expediente, havia uma torre torta entre as duas.

Na segunda semana, Lorenzo ficou acordado durante uma parte maior da visita. Helena ajustava o travesseiro. Eu recolhia os lápis que Mia tinha deixado cair.

"Coelho."

Pensei que Helena tivesse falado. Quando ergui a cabeça, ela estava olhando para o paciente.

Mia deixou o lápis azul cair outra vez.

Lorenzo observava o brinquedo no colo dela. Seus lábios estavam secos, e a palavra saíra áspera, mas eu a ouvira perfeitamente.

"Você falou!", minha filha anunciou.

Helena sorriu com os olhos cheios de lágrimas.

"Sem pressa, Lorenzo."

Mia se ajeitou na cadeira.

"Ele chama Nino. Eu já contei."

A boca dele se moveu um pouco.

"Desculpe."

Aquilo me atingiu de um jeito inesperado. Tantas pessoas esperando notícias, tantos telefonemas atendidos com o rosto contraído, e a primeira conversa que eu testemunhava era um pedido de desculpas por esquecer o nome de um coelho.

Minha filha aceitou com generosidade.

"Você estava dormindo."

Ele fechou os olhos por alguns segundos. Quando abriu de novo, procurou-a.

"Muito?"

"Você perdeu panqueca."

Helena riu. Eu pressionei os dedos contra a boca, tentando não fazer o mesmo, tentando não chorar.

Lorenzo pareceu considerar a gravidade da informação.

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"Isso é ruim."

Mia assentiu com tanta convicção que seu laço escorregou.

A conversa durou pouco. Ele se cansou, e Helena pediu que saíssemos. Minha filha desceu abraçada ao brinquedo, contando a cada pessoa encontrada que o homem finalmente tinha falado.

À noite, quando fui recolher o cesto de roupa do corredor, Isabela me encontrou junto à escada.

"Ele perguntou pela menina."

"Ela já dormiu."

"Eu sei. Só achei que você gostaria de saber."

Gostei. Mais do que deveria gostar de uma informação sobre o patrão que eu mal conhecia.

Nos dias seguintes, ouvi sua voz de novo. Frases curtas, pedidos baixos, uma irritação contida quando precisava de ajuda para algo que antes fazia sem pensar.

Numa tarde, ele tentou alcançar o copo sozinho. A mão tremia. Eu dei um passo à frente e parei quando ele me lançou um olhar duro.

Mia não percebeu o aviso.

"Pega com as duas", aconselhou.

Ele olhou para ela.

"Estou tentando."

"Eu derrubo quando pego com uma."

Lorenzo respirou fundo, apoiou a outra mão e conseguiu erguer o copo até a boca. Mia bateu palmas. Ele lançou um olhar para mim, como se eu tivesse organizado aquela comemoração.

Baixei a cabeça para esconder o sorriso.

"Não ria", murmurou.

"Eu não disse nada."

"Percebi."

Duas tardes depois, Sofia levou Mia para ver um passarinho no jardim. Fiquei recolhendo papéis da mesinha, e Lorenzo me acompanhou com os olhos.

"Você é a Clara."

"Sou."

"Sua filha fala bastante de você."

Guardei um lápis no estojo.

"Espero que tenha feito uma seleção cuidadosa."

"Falou que você faz panquecas."

"Até aí, tudo bem."

"E que chora no banheiro quando acha que ela dormiu."

Minha mão parou.

Pela janela aberta, ouvi o entusiasmo de Mia com alguma coisa minúscula no gramado. Quis estar lá embaixo.

"Ela não entende direito algumas coisas", respondi.

Lorenzo permaneceu quieto. Quando voltei a olhar, sua expressão tinha perdido a ironia.

"Não precisava ter repetido isso."

"Criança de três anos não sabe guardar segredo. Eu deveria ter aprendido."

Ele não me perguntou por que eu chorava. Fiquei grata por isso.

Terminei de guardar os desenhos e perguntei se precisava de mais alguma coisa.

"As visitas não precisam continuar por minha causa", disse ele.

"Ela pergunta por você antes do café."

O olhar dele foi até a cômoda, onde o cavalo permanecia.

"Eu também espero por ela."

A sinceridade da resposta me fez largar o estojo devagar.

Ele pareceu perceber o que tinha admitido e endireitou os ombros, pagando pelo movimento com uma careta.

"Não conte isso à minha irmã. Ela já está insuportável."

"Acho que ela sabe."

Dessa vez ele sorriu para mim. Um sorriso pequeno, cansado, que tornou difícil lembrar das histórias que eu ouvira na cozinha.

Na manhã seguinte, Isabela me chamou ao escritório.

Havia uma fotografia impressa sobre a mesa. Nela, Lorenzo estava ao lado de um carro escuro. Um homem atravessava a rua em sua direção.

Reconheci o casaco antes do rosto.

Daniel.

Meu primeiro impulso foi procurar Mia com os olhos, embora soubesse exatamente onde ela estava.

"Por que vocês têm uma foto dele?"

Isabela indicou a cadeira. Continuei em pé.

"Meu irmão se encontrou com Daniel antes do acidente. A imagem veio de uma câmera do restaurante."

"Vocês sabiam quem ele era?"

Ela demorou a responder o suficiente para me deixar fria.

"Eu sabia que era o pai da Mia. Preciso entender o que ele contou a Lorenzo."

"Então pergunte ao seu irmão."

"A memória dele ainda está falhando. Mas encontramos uma anotação na agenda do escritório."

Ela colocou uma folha diante de mim. A caligrafia era firme, inclinada para a direita.

Localizar Clara Duarte e a filha. Falar pessoalmente com Clara.

A data era anterior à batida.

Senti a borda da mesa contra a palma da mão.

Eu acreditara que tínhamos entrado naquela casa por acaso.

Lorenzo Moretti já estava procurando por nós antes de eu saber seu nome.

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