"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 2
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CINCO MINUTOS DE COMPANHIA
Helena me ajudou a soltar a mão de Mia sem fazer força.
Eu a tirei da cadeira e me afastei quando o médico entrou. Minha filha reclamou que ainda não tinha se despedido. Segurei-a junto ao peito, sentindo seu coração apressado e o meu mais apressado ainda.
No corredor, Isabela nos alcançou.
"Fiquem na cozinha. Eu desço assim que puder."
Quis perguntar se estava demitida. A pergunta me pareceu tão pequena diante do rosto dela que não consegui fazê-la.
Lá embaixo, a cozinheira, dona Cida, empurrou uma cadeira com o pé para que eu me sentasse. Serviu água num copo de plástico para Mia e café numa xícara para mim.
"Beba antes que esfrie."
"Eu nem devia ter trazido minha filha."
"Você avisou que precisava trazê-la. A senhora Isabela concordou."
"Ela concordou que ficasse aqui embaixo."
Dona Cida não tentou discutir. Cortou uma banana em rodelas e colocou um garfinho ao lado. Mia ofereceu a primeira rodela ao coelho.
Fiquei olhando a pequena marca de caneta na mão da minha filha. Na noite anterior, ela tentara desenhar uma janela enquanto eu dobrava lençóis numa lavanderia. Adormecera antes de terminar. Eu a carregara até o ônibus junto com uma sacola de roupas e a marmita vazia.
Aquele emprego significava não precisar fazer isso de novo.
Isabela desceu quase uma hora depois. Já não estava com o celular. Uma mecha tinha escapado de seu penteado, e ela não pareceu notar.
"Os médicos vão repetir algumas avaliações", disse, sentando-se à minha frente. "Há sinais que precisam ser acompanhados."
"Ele está acordando?"
Ela apertou as mãos sobre a mesa.
"Eu gostaria de responder que sim. Ainda não posso."
Mia espetou outra rodela.
"Ele gostou do Nino."
Isabela olhou para o coelho. Uma costura na barriga deixava aparecer um fiapo branco.
"É o nome dele?"
"É. Ele não gosta de tomar banho."
"Que coincidência", murmurei.
Minha filha me lançou um olhar ofendido. Isabela soltou um som curto, quase uma risada, e em seguida baixou a cabeça.
Esperei que se recompusesse.
"A senhora quer que a gente vá embora?"
Ela ergueu os olhos.
"Por que eu pediria isso?"
"Porque eu descumpri a sua regra."
"Eu vi você tentando tirar sua filha de lá. Vamos organizar as coisas para que ela fique acompanhada enquanto você trabalha. O que aconteceu hoje não pode se repetir dessa maneira."
Concordei tão depressa que minha nuca doeu.
Ela se voltou para Mia.
"E você precisa avisar sua mãe quando quiser sair de um lugar."
"Ela já falou isso."
"Então agora somos duas."
Mia avaliou aquela informação enquanto mastigava.
"Vocês podem falar mais baixo. Eu escuto."
Dessa vez Isabela riu de verdade. Durou pouco, mas mudou seu rosto inteiro.
Na manhã seguinte, Helena me chamou antes do início do expediente. Mia desenhava na salinha, com dona Cida sentada perto da porta e um quebra-cabeça espalhado sobre a mesa.
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"A doutora gostaria de conversar com você", explicou a enfermeira.
Fiquei desconfiada. Devia estar visível, porque ela acrescentou:
"Não é nada para decidir agora."
A médica nos recebeu numa pequena sala ao lado do quarto. Explicou que Lorenzo sofrera o acidente quarenta e nove dias antes da nossa chegada. Passara semanas no hospital e, depois de estabilizado, fora transferido para a estrutura de cuidados montada em casa.
Falou de respostas que podiam variar, de avaliações repetidas e de um caminho que ninguém sabia prever.
"A presença da sua filha coincidiu com uma mudança importante", disse. "Isso merece atenção. Não significa que ela tenha uma tarefa a cumprir."
Apertei a alça da bolsa.
"Ela gosta de cantar. Mas também tem dias em que chora porque a meia está torta."
Helena sorriu.
"Eu também tenho esses dias."
Olhei para Isabela, que permanecia encostada à janela.
"Se ela quiser visitá-lo, eu fico junto. Se não quiser, eu não vou insistir."
"Combinado", respondeu Isabela.
Falamos dos horários, de quem acompanharia Mia enquanto eu limpava os quartos do térreo, de uma porta que passaria a permanecer fechada. Coisas práticas. Só então meu corpo começou a deixar de esperar uma armadilha.
À tarde, perguntei à minha filha se gostaria de dar um oi ao homem do quarto.
Ela levantou o coelho.
"Ele também vai."
"Cinco minutos", avisei.
"Dá para cantar duas músicas?"
"Vamos ver quanto você demora na primeira."
Mia aceitou a proposta e deixou que eu a carregasse até lá. Helena já tinha colocado uma cadeira mais segura ao lado da cama.
Minha filha anunciou sua chegada antes de eu pousá-la.
"Voltei. A mamãe deixou."
A mão dele estava aberta sobre o lençol. Nenhum aperto nos aguardava, nenhum sinal extraordinário. Senti uma decepção que me envergonhou. Eu já estava esperando alguma coisa de uma criança que só queria brincar.
Mia mostrou o desenho do dia: três formas roxas, uma linha verde e um cavalo que poderia ser qualquer outro animal.
"Ele está correndo", explicou.
Isabela se aproximou para olhar.
"Tem quatro pernas?"
Mia apontou para a parte de baixo da folha.
"A outra ficou atrás."
"Claro. Não reparei."
Minha filha cantou. Parou na metade para ajeitar o vestido. Recomeçou do início porque havia esquecido onde estava.
Lorenzo continuou imóvel.
Quando os cinco minutos acabaram, eu me levantei. Não houve discussão. Mia tinha encontrado uma mancha na orelha de Nino e estava preocupada em descobrir se era chocolate.
"Até amanhã", disse, esticando a mão pequena para tocar a dele.
O rosto de Lorenzo mudou.
Primeiro pensei numa contração passageira. Então suas pálpebras se ergueram, por um instante tão breve que eu nem tive tempo de chamar ninguém.
Helena já estava ao lado da cama.
"Lorenzo, sou eu. Está em casa."
Os olhos dele se moveram sem se fixar.
Mia ficou quieta. Pela primeira vez desde que entrara naquele quarto, não pareceu saber o que fazer.
"Diga oi", sussurrei, sem pensar.
"Oi, moço."
O olhar dele pareceu parar na direção da voz. Helena chamou a médica. Isabela começou a chorar sem fazer barulho.
Antes que os olhos se fechassem outra vez, minha filha ergueu a folha amassada.
"Eu trouxe um cavalo para você."
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