"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 10

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A COR QUE SOFIA ESCOLHEU

A inauguração aconteceu pouco mais de um ano depois do resgate.

Na véspera, choveu tanto que Helena passou duas horas ao telefone discutindo a posição das tendas. No dia seguinte, o sol apareceu e ela se irritou por ter se preocupado à toa. Eu não comentei. Já aprendera que isso não ajudava.

O projeto ocupara uma área cuja utilização pudéramos definir sem comprometer os direitos de Sofia nem as questões ainda em andamento. Os acordos com as outras famílias seguiam caminhos diferentes. Alguns tinham sido concluídos; outros exigiam tempo. A horta não servia de atalho para nada disso.

Servia, naquela manhã, para que vinte crianças sujassem os sapatos antes da cerimônia.

Sofia, agora com seis anos, liderava a operação. Levava o coelho de pano numa mochila e usava uma camiseta branca que não sobreviveria até o almoço.

Samuel chegou reclamando do banco do carro.

Aos noventa e dois, mantinha a capacidade de transformar uma dor no joelho numa crítica minuciosa ao fabricante do veículo. Álvaro respondeu que podia voltar a pé se preferisse. Os dois discutiram enquanto Ronaldo acomodava uma cadeira com apoio perto da mesa de comida.

Eu me aproximei para cumprimentá-lo. Samuel segurou meu braço antes que eu me afastasse.

"Está bonita."

Olhei a estufa restaurada, os vidros novos, os canteiros.

"A Helena brigou bastante com o orçamento."

"Eu estava falando dela também."

Helena vinha pelo caminho, prendendo o cabelo com um lápis porque perdera a presilha. A barra da calça estava molhada. Tinha passado a manhã verificando mangueiras.

Quando me viu sorrindo, estreitou os olhos.

"O que os dois estão aprontando?"

"Nada que passe pelo seu orçamento", respondi.

Ela beijou Samuel no rosto e ajeitou a manta sobre suas pernas.

Na entrada, uma placa simples trazia o nome de Rosa. Helena não quis uma fotografia enorme nem uma cerimônia de discursos longos. Falou da tia, das latas na varanda e da ideia de oferecer às crianças um lugar onde pudessem plantar e acompanhar o que crescia.

Sua voz falhou no meio. Sofia correu até ela e segurou sua mão. Helena terminou assim, com a filha ao lado.

Eu permaneci perto da mesa, aplaudindo mais tempo do que o necessário.

Marcos não estava na inauguração. Já não trabalhava na fazenda. Meses antes, recebera a visita de Daniel e me escrevera dizendo que finalmente começara a conversar com o filho. Li a carta, desejei que ambos conseguissem seguir adiante e a guardei. Helena soube. Não pediu para vê-la.

Sobre Celeste, as notícias chegavam pelos profissionais que acompanhavam o caso. Helena não precisava organizar sua vida em torno delas. Eu tampouco pretendia pedir que transformasse o sofrimento em uma demonstração pública de perdão.

Depois da cerimônia, Sofia me puxou pela mão.

"Falta mostrar uma coisa para o Samuel."

Ela se referia ao corredor.

Meses antes, eu sugerira fechá-lo de vez. Helena apoiara a necessidade de tornar o lugar seguro, mas Sofia ouvira a conversa e perguntara se uma parede faria a sala desaparecer.

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Expliquei que não. Ela quis saber por que não podíamos acender as luzes e limpar tudo.

Levamos a ideia a quem entendia de estrutura. O trecho perigoso fora isolado, a ventilação refeita e um novo acesso aberto a partir da estufa. A antiga sala se tornara depósito de materiais para as atividades. Nada de manter intacto um cenário de horror em nome da memória.

A porta, porém, continuava ali.

Sofia escolhera a cor.

Um amarelo tão vivo que eu precisara perguntar duas vezes se aquela era mesmo a amostra certa.

Na inauguração, Samuel desceu pelo acesso novo com ajuda, parando para descansar no patamar. Sofia caminhava diante dele, explicando onde ficavam os regadores e por que ninguém podia mexer na prateleira de sementes sem pedir.

Helena apertou minha mão quando chegamos à sala.

Fiquei atento a seu rosto. Ela olhou para o espaço iluminado, para o chão lavado, para a janela alta aberta na reforma.

"Você quer sair?", perguntei baixo.

Ela negou.

"Quero ver a Sofi mostrando os vasos."

Ficamos.

Naquela noite, depois que os visitantes foram embora, jantamos na cozinha com Cida, Ronaldo e a equipe que trabalhara até o fim. Sofia adormeceu antes da sobremesa, sentada entre mim e Helena.

Levei-a para o quarto. Ela acordou o suficiente para perguntar se Samuel voltaria no domingo.

"Se estiver disposto a aguentar a viagem, volta."

"Diz que tem bolo."

"Vou usar esse argumento."

Ela tornou a dormir. Helena ficou na porta, observando enquanto eu ajeitava o lençol.

Nós ainda morávamos em quartos separados. Não por falta de vontade de estar juntos, mas porque havia uma criança aprendendo de novo que a mãe continuaria ali, e uma mulher que queria escolher o próprio ritmo. Eu passava muitas noites ao lado de Helena. Em outras, voltava ao meu quarto com um beijo na porta e um encontro marcado para o café.

Quando lhe pedi que morasse comigo, meses depois, ela não respondeu na hora.

Quis conversar sobre o trabalho, o espaço de Sofia, a liberdade de discordarmos sem que tudo se misturasse. Eu quis saber se ela deixaria alguma gaveta disponível ou pretendia ocupá-las antes da mudança.

Ela jogou uma almofada em mim e disse que aceitava.

Sofia fez sete anos no verão seguinte. Pediu uma festa com morangos e insistiu que Samuel assistisse pelo telefone quando não pôde viajar. Mostrou o dente que perdera, o vestido e o bolo, nessa ordem. Ele fingiu indignação por ter sido deixado para o fim.

Pouco depois, quase dezoito meses após a manhã em que eu voltara da viagem, encontrei Sofia diante da porta amarela.

Meu corpo reagiu antes que eu entendesse a cena.

"Sofi? O que você está fazendo?"

Ela virou com uma caixa de lápis nas mãos.

"Pegando o vermelho. A mamãe disse que podia."

A porta estava aberta. Atrás dela havia sementes, aventais infantis e caixas de papel. Do alto da escada vinha a voz de Helena pedindo que a filha não demorasse.

Sofia me olhou por um instante.

"Você achou que eu estava ouvindo de novo?"

"Acho que levei um susto."

Ela guardou os lápis contra o peito e segurou minha mão livre.

"A mamãe está lá em cima."

"Eu sei."

"Ela disse que vai fazer salada. Você pode falar que eu não gosto de tomate?"

Sorri.

"Você passou um ano ajudando a plantar tomate."

"Eu gosto de plantar. Comer é outra coisa."

Subimos juntos. Helena nos esperava à mesa da estufa, com uma cesta ao lado e as mangas dobradas. Quando me aproximei, puxou-me pela camisa e me deu um beijo.

Sofia fez um ruído impaciente.

"Eu trouxe o lápis. Vocês podem parar um pouquinho?"

Helena riu e soltou minha camisa. Sentei ao lado delas. Sofia espalhou as folhas, empurrou uma para mim e começou a explicar o desenho que queria fazer.

Lá embaixo, a porta amarela permaneceu aberta.

Dessa vez, ninguém precisava bater para ser ouvido.

FIM

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