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"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 1

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HAVIA ALGUÉM LÁ DENTRO

Na primeira vez que ouvi minha irmã chorando dentro do caixão, achei que a dor finalmente tinha me feito perder a cabeça.

Na segunda, encostei a palma da mão na madeira preta.

Alguma coisa arranhou a tampa por dentro.

"Abre isso", eu disse.

Augusto Salles segurou meu pulso antes que eu alcançasse o fecho. O terno preto tinha o mesmo cheiro forte de colônia que ele usava em todos os meus aniversários desde que eu era menino.

"Rafael, você precisa se afastar."

"Eu ouvi ela."

Atrás de nós, alguém parou de rezar. Pelas portas abertas da capela, eu via o carro funerário esperando debaixo do sol da tarde.

Minha irmã tinha vinte e sete anos. Doze horas antes, Augusto havia ligado para dizer que ela sofrera uma emergência cardíaca no hospital onde trabalhava. Quando amanheceu, ele já tinha organizado tudo.

Tudo, menos deixar que eu a visse.

"Às vezes, a cabeça da gente inventa aquilo que a gente não suporta perder", ele disse.

Então o caixão vibrou debaixo da minha mão.

Foi um movimento fraco. Mas foi um movimento.

Soltei meu braço e empurrei as flores para o chão.

"Chama alguém que tenha a chave."

Cláudia Menezes estava perto das portas, apertando contra o corpo a pasta que carregara durante toda a cerimônia. Eu a conhecera naquela manhã. Ela se apresentara como responsável pelo velório e recusara duas vezes meu pedido para abrir o caixão.

Agora, os lábios dela tremiam.

Augusto olhou em sua direção.

"Chame os funcionários. O Rafael não pode continuar aqui."

Dois homens saíram do fundo da capela. Um deles agarrou meu ombro.

Joguei o cotovelo para trás e ouvi um gemido.

"Minha irmã está aí dentro!"

"Sua irmã está morta", Augusto disse, dessa vez com a voz mais dura.

Por um instante, aquelas palavras me paralisaram.

Ele dissera a mesma coisa sobre meu pai quando eu tinha nove anos. Sobre minha mãe quando eu tinha dezesseis. Tinha me abraçado nos dois enterros, e eu acreditara porque não havia mais ninguém em quem acreditar.

Cláudia passou perto de mim ao se aproximar do caixão.

"No canto da frente", sussurrou. "Escuta ali."

Os olhos dela correram na direção de Augusto.

Inclinei a cabeça.

Ouvi uma respiração raspando contra a madeira. Depois, um som fraco demais para ser uma palavra.

Mas eu conhecia aquele som.

Luísa fazia aquilo enquanto dormia depois que nossa mãe morreu, presa num pesadelo que nunca conseguia explicar de manhã.

Peguei o castiçal alto de latão que estava ao lado das flores.

Augusto avançou.

Eu golpeei antes que ele conseguisse me impedir.

A primeira pancada acertou perto do fecho. Uma mulher gritou. O impacto subiu pelos meus braços até os ombros.

"Tirem ele daí!", Augusto berrou.

A segunda pancada abriu uma rachadura no canto.

Enfiei a base pesada na abertura e puxei. A madeira cedeu com um estalo que voltaria nos meus sonhos durante meses.

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A tampa se ergueu torta.

Minha irmã olhou para mim.

Estava de olhos abertos.

Um pano branco cobria sua boca. Os pulsos estavam amarrados contra a barriga, e um lado do rosto tinha inchado sob uma mancha escura. Ela tentou levantar os braços, mas quase não conseguiu mover os dedos.

Durante um segundo terrível, eu não fiz nada.

Então larguei o castiçal.

"Luísa."

Arranquei o pano. Ela puxou o ar e começou a tossir com tanta força que o corpo inteiro sacudiu.

"Alguém chama uma ambulância!"

Uma senhora perto do primeiro banco já estava com o celular na mão.

"Estou ligando. Me fala o nome da rua."

Eu falei. Minhas mãos não obedeciam. Não conseguia desfazer os nós.

"Rafa", minha irmã sussurrou.

"Estou aqui. Estou com você."

Ela prendeu um dos meus dedos entre as mãos amarradas.

"Não deixa eles fecharem."

Inclinei o corpo sobre ela até encostar minha testa na sua.

"Ninguém vai fechar mais nada."

Augusto apareceu do outro lado do caixão.

"Deixa eu ajudar a tirar ela daí."

Luísa recuou com tanta violência que bateu o ombro na borda quebrada.

"Não encosta nela", eu disse.

Ele me encarou.

Eu nunca tinha falado com ele daquele jeito. Mesmo aos trinta e dois anos, ainda abaixava a voz quando ele parecia decepcionado comigo.

"Ela precisa de atendimento médico", ele disse. "O Santa Cecília fica a dez minutos daqui. Vou ligar para avisar."

"Não!"

Luísa tentou se sentar. O ar prendeu na garganta, e um grito fino escapou de sua boca.

"Lá não. Por favor, Rafa. Não deixa me levarem de volta."

Passei um braço por trás dos seus ombros.

"A gente vai para outro lugar."

"O prontuário dela está lá", Augusto insistiu.

"Então eles mandam o prontuário."

Atrás dele, um dos homens que tentara me segurar se aproximava de Cláudia. Ela apertou a pasta e deu um passo na direção da senhora que chamava a ambulância.

Eu vi. E vi Augusto perceber que eu tinha visto.

A expressão dele se suavizou.

"Você está assustado. Eu entendo."

"Alguém amarrou minha irmã e colocou ela num caixão. Para de falar comigo como se eu tivesse quebrado uma janela."

A senhora virou a câmera do celular na nossa direção.

Augusto levantou a mão.

"Por favor, respeite a privacidade da família."

"Continua gravando", eu pedi.

O alívio no rosto dela me assustou quase tanto quanto o caixão. Parecia que estava esperando alguém dizer que podia acreditar no que seus próprios olhos mostravam.

As pessoas começaram a se mexer. Alguém trouxe uma tesoura do escritório. Um homem abriu o portão lateral para a ambulância. Outro convidado se colocou entre nós e os dois funcionários.

O velório tinha deixado de ser um velório.

O celular de Cláudia tocou.

Ela olhou para baixo. Vi o nome do contato antes que virasse a tela.

MÃE.

Luísa também viu.

A mão dela apertou meu dedo.

"Atende", sussurrou.

Cláudia ficou branca.

Augusto estendeu a mão.

"Deixa que eu atendo."

Ela silenciou a chamada.

A sirene chegou antes que ele pudesse dizer outra coisa.

Quando os socorristas entraram, só me afastei o suficiente para examinarem Luísa. Eles cortaram as amarras, verificaram sua respiração e perguntaram quem havia declarado a morte.

Augusto forneceu o nome de um médico: Maurício Valente.

Um dos socorristas anotou. A outra observou as lesões nos pulsos da minha irmã e pediu ao colega que solicitasse a presença da polícia.

"Vamos cuidar dela primeiro", Augusto disse.

"É o que estamos fazendo", a mulher respondeu.

Colocaram Luísa numa maca. Ela não soltava minha mão.

Eu a acompanhei até a saída, passando por cima de um lírio branco esmagado no chão.

Cláudia nos alcançou ao lado da ambulância.

Enfiou um envelope pequeno na minha mão livre.

"Não abre aqui", disse.

"Você sabia."

Ela olhou para minha irmã.

"Tentei falar antes que ele voltasse para a sala."

"Devia ter contado para todo mundo."

"Eu sei."

Não havia nenhuma tentativa de se defender em sua voz. Aquilo me deixou ainda mais furioso.

Augusto saiu da capela conversando com um homem que eu não conhecia. Cláudia desapareceu entre os convidados antes que ele chegasse perto.

Entrei na ambulância.

Quando as portas se fecharam, Luísa me puxou até conseguir encostar os lábios no meu ouvido.

"Disseram que a mãe morreu num acidente", sussurrou.

Eu sentia o corpo dela tremendo por baixo da manta.

"Mentiram sobre isso também."

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