"“Posso Pegar Seu Cachorro Emprestado?” A Filha da Empregada Revelou o Segredo do Chefe da Máfia" Capítulo 10

PUBLICIDADE

O LUGAR DE VOLTAR

No Natal, Sofia decidiu que Bruno precisava de um lugar à mesa.

Dona Célia discordou com firmeza.

"Ele não vai sentar numa cadeira."

"Mas eu fiz um cartão com o nome dele."

"Pode deixar o cartão perto da caminha."

Sofia considerou a proposta uma afronta e levou o problema à maior autoridade da casa.

Dante estava diante do espelho do corredor, fechando o último botão da camisa.

"Ele pode comer perto de mim?"

"Na caminha."

"Bem perto?"

"Sem colocar a comida dele no seu prato."

Ela apertou os olhos.

"A dona Célia contou."

"Ela é muito bem informada."

Sofia saiu para renegociar o território do cachorro.

Dante acompanhou-a com o olhar. O laço vermelho já estava caindo para o lado. Os sapatos brilhantes durariam pouco nos pés, se os outros domingos servissem de referência.

A mesa tinha seis lugares.

Dante pedira isso sem perceber que estava escolhendo um número diferente dos jantares de vinte, trinta ou cinquenta pessoas que costumava oferecer.

Helena, Gabriel, Sofia, Marcos, dona Célia e ele.

Sem discursos. Sem convidados esperando uma oportunidade para discutir negócios entre a entrada e o prato principal.

Gabriel chegou com uma mochila, dois presentes e um pacote de doces que Sofia tentou investigar antes mesmo de ele fechar a porta.

"Você vai dormir aqui?"

"Vou."

"Duas noites?"

"Uma."

Ela pegou a mão dele.

"A gente conversa amanhã."

Gabriel olhou para Dante por cima da cabeça da irmã.

"Ela aprendeu isso com você?"

"Não posso ser responsabilizado por tudo."

Helena veio da cozinha com um pano no ombro. Dona Célia surgiu atrás, tomou o pano e o levou de volta.

Era uma discussão que se repetia nos dias em que Helena estava de folga. Dante já sabia o desfecho: ela ajudaria a servir de qualquer maneira, mas acabaria sentada antes que a comida esfriasse.

Gabriel a abraçou e lhe entregou um pacote pequeno.

"Pra abrir depois."

"Você não precisava gastar."

"Mãe."

Ela respirou, corrigindo-se.

"Obrigada."

O rapaz sorriu.

Dante percebeu quantas conversas cabiam naquele ajuste mínimo.

Durante o jantar, Marcos contou a história de uma reunião em que Dante fizera cinco homens esperar porque Sofia perdera um sapato dentro do carro.

"Foram sete minutos", Dante corrigiu.

"Ela estava usando o outro na mão", Marcos acrescentou.

Gabriel baixou a cabeça, rindo.

Sofia ergueu o garfo.

"Eu estava guardando."

Helena levou a mão à testa.

"Ninguém entendeu até agora por quê."

"Pra não perder os dois."

Dona Célia precisou pousar o copo.

Dante olhou em volta da mesa.

Não havia um silêncio que alguém estivesse tentando preencher. Quando a conversa parava, era porque alguém comia, servia outra pessoa ou esperava Sofia terminar uma explicação muito longa sobre alguma coisa pequena.

Perto da sobremesa, Gabriel colocou um presente diante dele.

"Abre esse primeiro."

Dante desfez o papel sem rasgar a fita. O sobrinho observou o procedimento com impaciência.

"Você pode rasgar. Eu não vou reutilizar."

PUBLICIDADE

"Estou abrindo."

"Está fazendo uma cirurgia."

Dentro havia um porta-retratos.

A fotografia fora tirada na casa do lago, depois da primeira etapa do conserto da varanda. Estavam todos ali. Helena e Sofia no degrau, Gabriel ao lado de Dante, Marcos fingindo não notar que dona Célia o empurrava para caber no enquadramento.

Bruno ocupava a frente inteira.

Dante virou o porta-retratos.

Atrás, Gabriel escrevera:

Pra lembrar que a gente ainda pode sair bem na foto.

Ele leu a frase duas vezes.

Quando levantou os olhos, o sobrinho já estava olhando para o próprio prato.

"Obrigado", Dante disse.

Gabriel assentiu, sorrindo sem mostrar os dentes.

Sofia puxou um embrulho debaixo da cadeira.

"Agora o meu. Eu fiz sozinha. A mamãe só ajudou na fita. E no papel. Mas o resto fui eu."

O pacote continha um desenho emoldurado.

Dante identificou Helena pelo cabelo, Gabriel pela xícara e Sofia pelo laço enorme. Ao lado do cachorro havia um homem muito alto, com a cabeça quadrada e maior que a de todos os outros juntos.

Gabriel viu primeiro.

Tentou esconder a risada no guardanapo.

Não conseguiu.

Helena se inclinou, viu o desenho e começou a rir também. Marcos levantou-se para buscar água sem precisar. Até dona Célia perdeu a batalha.

Dante encarou Sofia.

"Essa pessoa sou eu?"

Ela assentiu, orgulhosa.

"E por que minha cabeça é tão grande?"

"Porque o senhor pensa muito."

Gabriel teve de afastar a cadeira.

Dante tornou a olhar a figura. As mãos eram dois círculos, e uma delas estava encostada na cabeça pequena da menina.

"Está certo", disse.

Sofia parou de rir com os outros.

"O senhor gostou?"

"Vai ficar no meu escritório."

Ela arregalou os olhos.

"Do lado da sua mesa?"

"Onde eu possa ver."

A menina saiu da cadeira e o abraçou pela cintura.

Dante demorou menos do que da primeira vez para colocar um braço em volta dela.

Depois do jantar, levaram os pratos para a cozinha juntos. Gabriel ficou lavando o que dona Célia permitiu; Helena secou. Os dois discordaram sobre uma lembrança da infância dele até Teresa atender uma chamada de vídeo e decidir que ambos estavam errados.

Dante ficou à porta ouvindo a discussão.

Sofia apareceu com a estrela debaixo do braço.

"O Bruno pode dormir comigo?"

"O Bruno tem uma cama."

"Eu também."

"Não é esse o problema."

Ela esperou, paciente.

Dante olhou para o cachorro, que já estava de pé ao lado dela.

"Só esta noite."

Sofia sorriu.

"O senhor falou isso antes."

"E você ouviu muito bem."

Ela levou o cachorro para o corredor antes que ele pudesse encontrar outra condição.

Mais tarde, Dante colocou as duas imagens no escritório. A fotografia ficou sobre a mesa. O desenho, na estante junto à antiga caneta do pai.

Guardou a caixa da infância no armário, numa prateleira fácil de alcançar. A carta de Luca estava com Gabriel. Dante não pedira que deixasse uma cópia.

PUBLICIDADE

O sobrinho enviara uma por conta própria, dias depois, com uma mensagem simples:

Achei que você também ia querer guardar.

Três batidas soaram à porta.

Dante ergueu os olhos.

"Entre."

Sofia apareceu com a almofada apertada contra o peito. Bruno veio atrás.

"Ele está roncando."

Dante olhou para o cachorro.

"Você já sabia disso."

"Mas hoje está muito."

"E o que pretende fazer?"

Ela apontou para a poltrona junto à janela.

"Posso ficar aqui um pouquinho?"

Dante fechou o documento que começara a examinar.

"Pode."

Sofia subiu na poltrona e se acomodou, deixando espaço suficiente para uma boneca que não trouxera. Bruno deitou aos seus pés.

Durante alguns minutos, ela observou a fotografia na mesa.

"O Gabriel vai embora amanhã?"

"Vai. Ele tem as coisas dele pra fazer."

"Mas volta?"

"Volta."

Sofia passou o dedo por uma costura da estrela.

"A mamãe fica feliz quando ele volta."

"Fica."

"O senhor também?"

Dante olhou para o corredor, onde ouviu a risada do sobrinho.

"Também."

Ela pareceu satisfeita. Encostou o rosto na almofada e fechou os olhos.

Helena veio buscá-la pouco depois. Parou na porta ao ver a filha adormecida.

"Ela disse que ia dar boa-noite."

"Deu trabalho junto."

Helena sorriu e se aproximou da poltrona.

Antes de pegar Sofia no colo, olhou para o desenho na estante.

"Você colocou mesmo."

Dante acompanhou seu olhar.

"Eu disse que colocaria."

Ela passou a mão nos cachos da filha.

"O Gabriel me falou que quer voltar à faculdade no próximo semestre."

"Ele comentou comigo."

"Eu consegui não perguntar se tinha certeza."

Dante sorriu de leve.

"Ele deve ter estranhado."

Helena riu baixo.

Levantou a menina com cuidado, ajeitando a almofada entre os dois corpos. Sofia murmurou alguma coisa sobre o cachorro, mas não acordou.

Na porta, Helena voltou o rosto.

"Boa noite, Dante."

"Boa noite."

Bruno se levantou para segui-las.

Dante fez um gesto permitindo, embora o cachorro já parecesse conhecer a resposta.

Antes que pudesse voltar à mesa, Gabriel apareceu no corredor com duas canecas.

"Fiz café. O meu não é tão ruim quanto o que meu pai tomava."

Dante recebeu uma delas.

"Quem te contou essa parte?"

"Minha mãe. Ela está contando bastante coisa."

Sentaram-se nas poltronas vazias.

Gabriel mostrou no celular o calendário de matrícula e um esboço da varanda da casa do lago. Queria usá-la num projeto de restauração do curso, se os professores aprovassem.

Dante examinou a imagem.

"Você vai tirar a rachadura do degrau?"

"Posso consertar sem apagar tudo."

Dante olhou para ele.

"Parece uma boa ideia."

Gabriel guardou o telefone e tomou um gole de café.

"Se eu precisar ficar uns dias aqui antes de voltar às aulas..."

"Seu quarto está pronto."

O rapaz ficou em silêncio por um instante.

Depois assentiu.

Continuaram conversando até as canecas esfriarem.

Quando se levantou para dormir, Dante deixou a porta do escritório aberta. No corredor, passou pelo quarto em que Sofia dormia atravessada na cama, com a estrela debaixo de um braço.

Bruno estava no tapete ao lado.

A menina abriu os olhos quando Dante ajeitou o lençol que caíra no chão.

"Eu devolvo ele amanhã", murmurou.

Dante se abaixou, afastando um cacho do rosto dela.

"Não precisa mais pedir emprestado, Sofia."

Ela sorriu sem acordar direito.

Dante apagou a luz maior, deixou o abajur aceso e saiu em silêncio.

Dessa vez, ao chegar ao próprio quarto, ouviu vozes conhecidas pela casa.

Não precisou voltar ao escritório para adiar o sono.

FIM

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: