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"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 9

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DIZ O NOME DELA

A capela antiga ficava atrás do hospital, quase escondida por uma ala mais nova.

Da rua onde me mandaram esperar, eu conseguia ver a parte de cima do vitral. O pedaço azul que faltava tinha sido substituído por um vidro comum.

Dezesseis anos, e alguém havia consertado a janela.

Ninguém tinha aberto a porta da minha mãe.

Fiquei dentro de um carro estacionado com Marina, que viera do local da investigação. Beatriz estava a poucos metros, ouvindo as informações que chegavam. Liguei para Luísa e contei onde estava. Ela permaneceu na linha até Renata pedir que descansasse. Prometi ligar assim que qualquer coisa mudasse.

O celular ficou no meu colo.

Às nove e quatorze, tocou.

Augusto.

Mostrei a tela para Beatriz pela janela aberta. Ela falou rapidamente com um policial e veio para o meu lado.

"Se atender, não prometa nada", disse.

Toquei na tela.

"Tem polícia lá fora", Augusto falou.

A respiração dele estava mais forte do que antes.

"Então abre a porta."

"Você trouxe eles."

"Você trouxe minha mãe para cá."

Ele não respondeu.

"Deixa ela sair."

"Você não entende o que acontece se levarem aqueles documentos."

"Entendo o que acontece se continuar com ela aí dentro."

O banco rangeu quando me inclinei para a frente.

"Passa o telefone para ela."

"Antes você me escutava."

"Passei dezesseis anos escutando."

A respiração dele falhou, quase como uma risada.

"E teve uma vida boa. Estudou. Teve uma casa. Eu podia ter deixado vocês sem nada."

Os dedos de Marina se fecharam na borda do banco.

Olhei para a janela da capela.

"Você manteve minha mãe trancada enquanto dizia que eu tinha sorte de ter você."

"Helena fez as escolhas dela."

"Ela tentou voltar para casa."

"Ela tentou me destruir."

Havia alguma coisa crua na voz dele. Uma raiva antiga demais para ter começado naquela noite.

"Dei ao seu pai oportunidades que ele nunca teria conseguido sozinho. Mantive aquelas instituições funcionando. Aí ela decidiu que podia sair com uns papéis e tirar tudo de mim."

"Então você tirou os filhos dela."

"Eu protegi vocês."

Fechei os olhos.

Ele precisava que aquilo fosse verdade. Mesmo com policiais do lado de fora e as vidas que arruinara finalmente aparecendo, ainda queria que eu chamasse de amor o que tinha feito.

"Então faz uma coisa para proteger a gente agora", pedi. "Deixa ela ir."

Ouvi um barulho surdo ao fundo.

Depois, uma voz de mulher.

"Rafael?"

Endireitei o corpo tão depressa que bati o joelho no painel.

"Mãe?"

"Estou aqui."

Cobri a boca. Durante um instante, não consegui transformar o ar em palavras.

"Estou aqui fora", falei por fim. "Tem gente chegando para te ajudar."

Augusto disse alguma coisa longe do telefone. A voz saiu abafada.

Minha mãe respondeu com clareza.

"Eles sabem que estou viva. Você não vai tirar isso de mim outra vez."

A ligação caiu.

Segurei a maçaneta.

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Beatriz apoiou a mão na porta antes que eu saísse.

"Eles sabem que ela está lá", disse. "Fique onde a equipe possa encontrar você."

Eu ouvia minha própria respiração. Cada parte do meu corpo queria correr na direção daquela voz.

Marina segurou minha mão.

"Ela também sabe que você está aqui."

Eu fiquei.

Não fiquei calmo. Não foi porque de repente passei a confiar no mundo. Fiquei com os pés cravados no chão do carro e o celular apertado entre as mãos até as bordas machucarem.

Os vinte minutos seguintes passaram aos pedaços.

Um policial atravessando a rua. Um rádio com o volume baixo. Um galho raspando no teto do carro.

Então Beatriz veio na nossa direção.

Ela não estava sorrindo e, por um segundo, achei que tivesse perdido minha mãe.

"Sua mãe já saiu da sala", disse. "Está com a equipe médica."

Abri a boca.

"Ela está viva, Rafael."

Me curvei sobre os próprios joelhos.

Marina precisou me ajudar a sair quando finalmente autorizaram que eu me aproximasse da área de atendimento.

Minha mãe estava sentada numa maca, coberta por uma manta.

Parecia menor do que na fotografia. Os cabelos brancos estavam presos com um pedaço de barbante. Ela envolvia uma mão com a outra, esfregando os nós dos dedos como se não conseguisse se aquecer.

Parei a poucos passos.

Ela levantou a cabeça.

Seu rosto mudou devagar. Vi o esforço de encontrar, no homem à sua frente, o menino que tocara pela última vez aos dezesseis anos.

"Rafa?"

Assenti.

Ela levantou as mãos.

No instante seguinte, eu estava de joelhos diante dela.

Minha mãe tocou meu rosto, meu cabelo, a pequena cicatriz debaixo do queixo, feita na primeira vez em que tentei me barbear.

"Você está de barba", disse, chorando.

Tentei rir e não consegui.

"Está horrível. A Luísa vive mandando tirar."

Minha mãe soltou um som que era metade riso, metade alguma coisa se quebrando.

No começo, abracei com tanto cuidado que ela mesma me puxou para mais perto.

"Eu continuei tentando", sussurrou contra minha cabeça.

"Eu sei. Li sua carta."

"Ele dizia que você tinha parado de perguntar por mim."

Fechei os olhos.

"Eu achava que você estava morta."

"Dizia que a Luísa não lembrava mais de mim."

"Ela lembra. Foi ela que encontrou você."

Minha mãe se afastou um pouco.

"Ela está segura? Me fala a verdade."

"Está no hospital municipal. Machucaram ela, mas está viva. Eu tirei ela de lá."

As mãos da minha mãe seguraram meu rosto.

"Eu soube. Não deixaram eu ver o vídeo, mas ouvi quando estavam conversando."

Liguei para Luísa com os dedos errando a tela.

Quando atendeu, virei a câmera para nossa mãe.

Minha irmã não falou. Cobriu a boca com as duas mãos, e as lágrimas passaram entre os dedos.

"Minha filha", nossa mãe disse.

Luísa balançou a cabeça como se estivesse se recusando a acordar de um sonho.

"Você pode falar meu nome?", pediu.

Minha mãe levou uma mão ao peito.

"Luísa. Minha Luísa."

Segurei o celular entre as duas até um socorrista avisar, com delicadeza, que era hora de sair.

Augusto foi levado para fora enquanto preparavam minha mãe para o transporte.

Eu o vi do outro lado do pátio, com o paletó aberto e as mãos algemadas atrás do corpo. Virou a cabeça quando ouviu minha voz.

"Rafael", chamou.

Fiquei ao lado da maca da minha mãe.

Ele tentou outra vez.

"Conta para eles quem eu sou para você."

Olhei para a mulher cuja fotografia tinha carregado na carteira durante dezesseis anos.

Depois voltei a olhar para ele.

"Eles sabem quem você é."

Pela primeira vez na vida, deixei Augusto esperando uma resposta que não tinha mais como me obrigar a dar.

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