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"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 8

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AS MÃOS DO MEU PAI

A primeira mulher que saiu de lá segurava um pente de plástico.

Agarrava o objeto com as duas mãos, recusando-se a entregá-lo enquanto um socorrista colocava uma manta sobre seus ombros.

Fiquei atrás da barreira, na área de acolhimento, vendo aquela mulher olhar para o céu aberto.

"Já é de tarde?", perguntou.

O socorrista respondeu duas vezes.

Até aquele momento, as pessoas nos arquivos eram nomes que me assustavam. Agora uma delas estava com frio, confusa, protegendo o único objeto que trouxera consigo.

Eu queria tanto que minha mãe estivesse entre elas que sentia vergonha toda vez que outro rosto desconhecido aparecia.

Beatriz veio para o meu lado.

"São onze pessoas até agora", disse. "As equipes de saúde estão avaliando cada uma."

"Encontraram uma mulher com uma cicatriz atrás da orelha esquerda?"

"Estão verificando."

Outro carro chegou com mais mantas. Policiais se deslocavam entre o prédio e a área provisória de atendimento. Alguém pediu um intérprete porque um senhor só respondia numa língua que ninguém ali entendia.

Liguei para Luísa e coloquei um dos fones.

"Fica comigo", pedi.

"Estou aqui."

Ouvimos juntos os sons do resgate de outras pessoas.

Então uma maca passou pelas portas abertas.

Um homem mais velho estava deitado sob uma manta cinza. A barba crescida, o rosto mais magro do que na gravação. Uma das mãos repousava por cima do tecido.

O indicador era torto.

Meu pai quebrara aquele dedo antes de eu nascer. Dizia que conseguia prever chuva com ele.

Reconheci a mão antes de enxergar a cicatriz.

"É meu pai."

O policial junto à barreira se virou.

"Por favor, espere aqui."

"É ele. Daniel Duarte. Por favor, fala o nome dele para a equipe."

Minha voz chegou até a maca. O homem abriu os olhos.

Durante um instante, olhou para além de mim.

Depois tentou se sentar.

"Rafael?"

Ouvi Luísa soltar um som quebrado pelo fone.

Eu não conseguia me mexer.

Passei todos aqueles anos querendo correr para ele. Quando finalmente me deixaram chegar perto, andei como se o chão pudesse ceder.

A socorrista permitiu que eu ficasse ao lado da maca.

Meu pai olhou meu rosto, meus ombros, a barba que eu não fazia desde antes do velório.

"Você cresceu", disse.

Alguma coisa quente e feia subiu dentro de mim.

"É. Isso acontece quando você deixa uma criança por vinte e três anos."

Ele fechou os olhos.

Eu queria que discutisse. Queria uma mentira contra a qual pudesse reagir.

Ele só assentiu.

"Eu sei."

A socorrista pediu que déssemos um momento. Meu pai obedeceu enquanto ela o examinava. Entre uma pergunta e outra, continuava olhando para mim, como se eu pudesse desaparecer caso parasse.

"A Luísa está no telefone", falei.

A boca dele tremeu.

Coloquei no viva-voz e aproximei o aparelho.

"Pai?", ela chamou.

Ele começou a chorar.

"Minha menina."

"Eu não sou mais pequena."

"Não. Claro que não."

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Desviei o olhar enquanto os dois ouviam a respiração um do outro.

Então Luísa fez a pergunta que nos levara até ali.

"Onde está a mãe?"

A expressão do meu pai mudou. Ele segurou minha manga.

"Augusto veio hoje à tarde. Levou ela antes que trouxessem os outros para a área de carga."

"Para onde?"

"Ouvi quando mandou o motorista usar a entrada da capela velha. Não o portão do hospital."

Olhei para Beatriz.

Ela tinha se aproximado o suficiente para ouvir.

"Que capela?", perguntou.

"A antiga, atrás do Santa Cecília. Tem salas embaixo do corredor lateral. Faziam cerimônias particulares ali antes de abrirem o salão funerário novo."

Lembrei das paredes brancas e de um vitral com um pedaço azul faltando.

O velório da minha mãe.

Nós estivéramos naquela capela enquanto Augusto dizia que ela não ia querer nos ver sofrendo.

"Por que ele iria para lá?", Beatriz perguntou.

Meu pai olhou para ela.

"Tem uma sala antiga de arquivos. Uma saída pelos fundos que dá em outra rua. Parte dos documentos originais ficava lá. Augusto disse que precisava pegar tudo antes de ir embora."

Ele começou a tossir, e a socorrista pediu que parasse de falar.

"Ele tem as chaves", meu pai ainda conseguiu dizer. "Continua tendo as chaves de tudo."

Beatriz se afastou para transmitir a informação. Pediu a outro investigador que ficasse com ele e registrasse o que pudesse contar quando a equipe médica permitisse.

Estavam preparando a maca para o transporte.

Meu pai me olhou.

"Eu vi o que aconteceu no velório", disse. "Alguém colocou o vídeo para tocar do lado de fora do quarto. Ouvi sua voz."

Lembrei de gritar contra a madeira quebrada.

"Ela já estava lá? Você sabia que a Luísa corria perigo?"

"Ouvi eles falando sobre a certidão na noite anterior. Tentei fazer alguém me escutar. Me tiraram de perto do corredor."

"Você ajudou a construir o lugar onde ninguém precisava ouvir você."

O rosto dele se desfez.

"Ajudei."

A socorrista ajeitou a manta.

"Precisamos ir agora."

Meu pai estendeu a mão com o dedo torto.

Por um instante, eu tinha nove anos outra vez, esperando no portão com um caminhão de brinquedo que queria que ele consertasse.

Depois vi as marcas no pulso. E, ao lado delas, a mão que assinara documentos enquanto minha mãe implorava para voltar para casa.

Deixei que tocasse minha manga.

Não consegui oferecer mais.

"Encontra a Helena", ele pediu.

"É o que estou fazendo."

Levaram a maca.

Do outro lado da ligação, Luísa chorava.

"Você não precisa perdoar ele hoje", disse.

"Não sei se vou conseguir algum dia."

"Então também não decide isso hoje."

Beatriz voltou. Uma equipe estava verificando a capela. Outra entrava em contato com a segurança do hospital sem passar pelos administradores citados nos arquivos.

Pedi para ir até o ponto de apoio montado nas proximidades.

Ela só concordou depois de confirmar onde eu ficaria esperando.

Antes de entrar no carro, olhei para as pessoas envoltas em mantas. A mulher do pente agora bebia água. Segurava o copo numa mão e mantinha a outra fechada em torno do objeto.

Chamei o socorrista ao lado dela.

"Por favor, não deixa isso se perder."

Ele acompanhou meu olhar e assentiu.

Então entrei no carro para descobrir se minha mãe ainda tinha alguma coisa só dela para levar de volta para casa.

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