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"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 7

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A CASA QUE ELE GUARDOU PARA NÓS

Ainda era preciso levantar o portão da frente para conseguir abrir.

Estendi a mão automaticamente e parei, porque um investigador tinha pedido que eu não tocasse em nada antes de fotografarem a entrada.

Foi assim que voltei para casa: esperando autorização para abrir um portão que eu havia escalado uma centena de vezes.

A casa ficava no fim de uma rua estreita, na parte mais antiga da cidade. Depois que Luísa saiu de lá, fiquei por mais um ano. Então uma infiltração se espalhou pelo teto da cozinha, e Augusto me aconselhou a alugar um lugar menor enquanto providenciava o conserto.

Nunca providenciou.

Sempre que eu falava em vender, dizia que seria uma pena perder o último lugar onde nossa família estivera reunida.

Eu achava que ele era sentimental.

Agora me perguntava se não preferia apenas manter todas as nossas portas sob seu controle.

Beatriz acompanhou a equipe. Eles tinham obtido a autorização necessária, e eu concordara em ajudar a identificar o lugar mencionado na gravação do meu pai.

Luísa ficou no hospital. Pediu que eu ligasse antes de abrirem qualquer coisa.

Liguei do jardim.

"A laranjeira não está mais aqui", contei.

"Ela morreu faz anos, Rafa. Foi você que cortou."

Olhei para o canto vazio junto ao muro.

"Esqueci."

"Você está lembrando do ano errado."

Ela falou com delicadeza. Aquilo apertou minha garganta.

A casa da minha cabeça estava cheia de pessoas que não moravam ali havia décadas. Era difícil olhar para a casa de verdade, com a tinta descascada e os cômodos em silêncio.

"Liga quando souber", ela pediu.

"Eu ligo."

Lá dentro, alguém tinha coberto os móveis com lençóis. A poeira cobria quase tudo, menos uma passagem estreita entre a porta dos fundos e a garagem.

Augusto dizia que um funcionário passava para verificar o imóvel.

Dessa vez, talvez fosse verdade.

A bancada do meu pai continuava sob a janelinha. Um dos cantos ainda tinha a marca de queimadura da tarde em que tentei soldar um fio solto sem pedir ajuda.

O investigador apontou para o remendo no chão atrás dela.

"Era aqui que ele estava falando?"

Assenti.

Moveram a bancada e descobriram um compartimento raso debaixo dos pisos mais novos. Dentro havia uma caixa de aço embrulhada em plástico grosso.

Dei um passo para trás quando a retiraram.

Durante três anos, ela estivera sob um chão pelo qual eu podia ter passado a qualquer momento.

Marina esperava junto à porta. Tinha me acompanhado para ajudar com as anotações e o transporte, mas permaneceu fora da área de trabalho enquanto a equipe abria a caixa.

Havia cadernos, envelopes, um HD e uma fotografia guardada num plástico separado.

O investigador a segurou onde eu pudesse ver.

Estávamos na praia.

Eu tinha oito anos. Luísa tinha três, com os pés cheios de areia no colo do nosso pai. Nossa mãe estava atrás, inclinada para entrar no enquadramento porque a pessoa que tirava a foto pedira que chegasse mais perto.

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Lembrei do guarda-sol alugado, barato, virando do avesso com o vento.

Durante anos, pensei naquela viagem como a prova de que um dia tínhamos sido uma família feliz.

Talvez tivéssemos sido. Talvez meu pai já tivesse começado a mentir.

A fotografia não podia responder.

Pedi que me mostrassem o verso.

Meu pai escrevera uma frase.

Eu devia ter protegido isto antes de proteger a mim mesmo.

Saí e liguei para Luísa.

Quando atendeu, demorei a conseguir falar.

"Você encontrou", ela disse.

"Encontrei."

"Tem alguma coisa da mãe?"

"Uma foto de nós quatro. Na praia."

Ela chorou sem fazer barulho. Eu conseguia ouvir a mudança na respiração.

"Quero uma cópia", disse por fim.

"Vou pedir."

Fiquei na linha até que estivesse pronta para desligar.

O material foi levado para o local onde a investigação estava sendo conduzida. Fui para lá depois, para identificar vozes e nomes que pudesse reconhecer. A equipe examinou registros de vários anos: pagamentos, mudanças de acesso, veículos, pacientes transferidos entre instalações, cartas que meu pai nunca enviara.

Nem todas as páginas ajudavam. Algumas estavam incompletas. Outras precisavam ser conferidas com documentos guardados em outros lugares.

Mas uma gravação não precisava de explicação para me machucar.

Era do mês em que nossa mãe desaparecera.

O investigador me avisou antes de reproduzir.

A voz de Augusto encheu a sala.

"Ela não vai concordar em ficar quieta enquanto achar que pode chegar até eles."

Outro homem respondeu. Reconheci o nome dos documentos do funeral quando o investigador o identificou: doutor Maurício Valente.

"Então manda ela para longe daqui."

"E coloca mais uma pessoa sabendo onde ela está?"

Uma xícara bateu num pires.

"Ela precisa acreditar que as crianças estão seguras", Augusto disse. "É a única coisa que ainda importa para ela."

"O que vai dizer para os filhos?"

"Que ela morreu. Daniel já mostrou como isso pode ser simples."

Meu maxilar começou a doer. Percebi que estava apertando os dentes.

Valente perguntou sobre tutela, vizinhos, gente que pudesse fazer perguntas.

"Eu crio os dois", Augusto respondeu. "Já estão acostumados comigo."

Não havia raiva em sua voz. Nem prazer. Estava falando de uma tarefa que esperava executar bem.

"E quando crescerem?"

"Vão confiar em mim. Até lá, vou ser o único pai de que vão lembrar."

Levantei tão depressa que a cadeira tombou para trás.

O investigador interrompeu a gravação.

"Preciso de um minuto", falei.

No corredor, apoiei as duas mãos na parede.

Lembrei de agradecer a ele na minha primeira formatura. De convidá-lo para almoçar no Dia dos Pais porque não queria que sentisse falta de um título que tinha conquistado.

Eu escrevera isso no cartão.

Um título que você conquistou.

Marina se aproximou, mas não encostou em mim até que eu me virasse.

"Eu amava ele", falei.

"Eu sei."

"Ainda lembro de amar. Não consigo fazer isso desaparecer."

"Você não precisa resolver isso hoje."

Deixei que passasse um braço pelas minhas costas. Pela primeira vez desde a capela, chorei sem tentar esconder o barulho.

Quando voltei, Beatriz tinha novidades.

Os cadernos ligavam um nome antigo de empresa ao galpão do terminal industrial. Somados aos documentos de transporte e às informações de um dos homens detidos, tinham dado à equipe um lugar para procurar além dos escritórios da frente.

Havia pessoas presas em quartos atrás de uma área de serviço trancada.

O resgate estava acontecendo.

"Eu posso ir?", perguntei.

Beatriz me observou por um instante.

"Até o ponto de acolhimento, quando estiver seguro. Você não vai entrar no prédio."

Assenti antes que terminasse.

Lá fora, o céu estava ficando da cor de concreto molhado. Liguei para Luísa outra vez.

"Encontraram pessoas", contei.

"A mãe?"

Olhei para o veículo que me esperava.

"Ainda não sei."

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