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"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 6

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O QUE MEU PAI FEZ

Luísa estendeu a mão para o tablet antes de mim.

Tinha quatro anos quando nosso pai supostamente morreu. Quase tudo de que lembrava vinha das histórias que eu contava: as músicas desafinadas, o carrinho de boneca que ele consertara, o domingo em que me deixara segurar o volante numa estrada vazia.

Eu tinha dado a ela um pai feito só de boas lembranças.

Agora ela passava os dedos pelo rosto dele numa tela.

"Estavam obrigando ele?", perguntou.

Cláudia olhou para Beatriz antes de responder.

"Não sei como começou. Sei que trabalhou para Augusto durante anos usando outro nome. Os primeiros registros que vi não foram feitos sob ameaça."

"Você viu meu pai pessoalmente?", perguntei.

"Vi. Antes de ele desaparecer das áreas dos funcionários, três anos atrás."

"Desaparecer para onde?"

"Depois eu o vi num quarto restrito do Acácias. Estavam mantendo ele lá como paciente."

Levantei e fui até a janela.

Vinte e três anos.

Ele estivera vivo enquanto eu aprendia a fazer a barba cortando o queixo. Enquanto minha mãe trabalhava à noite. Enquanto Luísa chorava porque não conseguia lembrar da voz dele.

"Minha mãe sabia?"

Cláudia assentiu.

Virei para ela.

"Desde quando?"

"Não sei dizer o dia exato. Quando levaram sua mãe, ela já sabia. Seu pai foi um dos motivos para Helena começar a prestar mais atenção no que Augusto fazia."

Luísa parecia ter levado uma bofetada.

"Então ela encontrou ele antes de desaparecer."

"Encontrou."

Pensei na minha mãe sentada à mesa da cozinha depois dos plantões, segurando com as duas mãos uma xícara de café que nunca terminava.

Eu achava que era cansaço.

Talvez ela estivesse olhando para nós dois e tentando descobrir como explicar que nosso pai estava vivo e tinha escolhido não voltar para casa.

Cláudia continuou seu depoimento com Beatriz. Levei Luísa de volta ao quarto antes que ouvisse mais.

"Você não decide a hora em que eu tenho que parar", ela disse assim que fechamos a porta.

"Você está exausta."

"Você também."

"Eu lembro dele. Você não."

No instante em que falei, vi a expressão dela se fechar.

"Eu lembro de esperar", respondeu.

Sentei pesadamente.

Ela continuou.

"Você dizia que ele ia adorar me ver andando de bicicleta. Que teria orgulho quando eu terminasse a escola. Colocou nosso pai em tudo."

"Porque eu achava que ele ia sentir essas coisas."

"Então não fala como se eu não tivesse perdido ele também."

Fiquei olhando para minha irmã durante muito tempo.

"Você tem razão."

Ela enxugou o rosto com a base da mão.

"Quero saber o que ele fez. Mesmo que doa."

Puxei a cadeira para perto da cama.

"Então a gente vai ouvir junto."

Na manhã seguinte, um investigador nos mostrou a primeira comparação dos registros. A assinatura verdadeira do meu pai aparecia em contratos antigos de manutenção e alterações nos sistemas de acesso. Documentos posteriores usavam seu nome de trabalho e sua autoridade para aprovar a movimentação de pacientes.

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Depois que ele foi confinado, as ordens continuaram saindo com aquela identidade.

Alguns registros haviam sido criados por uma conta acessada do escritório particular de Augusto. Os investigadores estavam apurando quem realmente dera aquelas ordens.

Isso não tornava meu pai inocente.

Significava que sua culpa tinha datas e atos concretos, em vez de ser qualquer coisa que Augusto quisesse nos fazer acreditar.

"Por que continuar usando o nome de um homem que você trancou?", Marina perguntou.

"Quem não pode aparecer também serve para levar a culpa", Beatriz respondeu. "Mas precisamos comprovar cada parte."

Cláudia contara sobre uma gravação que Daniel fizera antes de Augusto confiná-lo. Ajudara a levar uma cópia para Helena, que incluíra o vídeo no material entregue mais tarde a Luísa.

O arquivo estava no pen drive, dentro de uma pasta que minha irmã não conseguira abrir antes do sequestro. Ela se concentrara em copiar os registros, com medo de ser pega com eles.

Assistimos no quarto do hospital.

Meu pai estava sentado diante de uma parede de reboco rachado. O cabelo já tinha grisalhos nas têmporas. Segurava um pano entre as mãos, torcendo o tecido do mesmo jeito que eu fazia com a barra da camisa da escola.

"Rafael. Luísa."

Minha irmã se aproximou de mim.

"Não sei se isto vai chegar até vocês. Helena acredita que pode chegar. Eu já fiz mal demais deixando que ela tivesse esperança sozinha."

Desviou o olhar e se obrigou a encarar a câmera outra vez.

"Quando o trabalho começou, eu sabia que os registros eram falsos. Augusto me pagava para alterar sistemas de acesso, apagar registros de visitas, facilitar transferências que precisavam ficar escondidas. Eu dizia para mim mesmo que os pacientes estavam indo para lugares melhores."

Os dedos apertaram o pano.

"Eu já sabia que não era verdade antes de parar de aceitar o dinheiro."

Senti as unhas de Luísa no meu braço.

"O acidente que contaram a vocês foi combinado para eu desaparecer da vida que podia me ligar ao esquema. Eu aceitei. Sua mãe foi informada de que eu tinha morrido."

Ele puxou o ar como se aquilo doesse.

"Mais tarde, ela me encontrou. Tentou denunciar tudo. Augusto ameaçou vocês dois, e eu ajudei a impedir sua mãe. Não tenho como fazer isso parecer menos terrível."

O quarto pareceu se estreitar à minha volta.

Aquele era o homem que me ensinara a segurar uma chave de fenda. Que dizia para eu assumir quando quebrava alguma coisa, em vez de colocar a culpa na minha irmã.

"Acreditei que podia manter vocês seguros obedecendo", meu pai continuou. "Com o tempo, foi ficando mais fácil obedecer do que encarar o que eu tinha feito."

Durante anos, contou, levara a Helena pequenas notícias nossas, às vezes fotografias tiradas sem que soubéssemos. Mais tarde, quando Augusto restringira até aquelas visitas, ele começara a reunir documentos no lugar de promessas.

"Eu devia ter começado antes de qualquer um de vocês precisar ser salvo."

Os olhos dele se encheram de lágrimas.

"As cópias que Helena tem não são tudo. Há cadernos originais e gravações na garagem antiga, debaixo do remendo no piso, atrás da bancada. Guardei tudo lá no mês passado. A casa está vazia, e Augusto não sabe que ainda tenho uma chave."

A gravação fora feita três anos antes, pouco antes de meu pai ser confinado. Agora eu entendia por que as anotações no pen drive chamavam o material da garagem de sua última coleta.

"Se encontrarem, entreguem para alguém que possa proteger sua mãe. Não negociem com Augusto. Ele nunca cumpriu uma promessa quando cumprir custava alguma coisa."

Meu pai abaixou a cabeça.

Quando voltou a falar, a voz falhou.

"Não estou pedindo que me perdoem. Só não deixem o que eu fiz impedir vocês de encontrá-la."

A tela escureceu.

Luísa chorava em silêncio. Segurei sua mão e fiquei olhando o reflexo do meu próprio rosto no tablet.

Durante vinte e três anos, eu quis meu pai de volta.

Agora queria que continuasse vivo por tempo suficiente para me responder.

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