"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 5
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ELE AINDA ME CHAMAVA DE FILHO
Beatriz ouviu a mensagem duas vezes.
Depois perguntou o que eu conseguia escutar por trás das vozes.
Tive vontade de gritar que ela devia mandar uma equipe, em vez de perguntar sobre barulho de fundo. Mas um investigador já estava saindo da sala com o endereço, e outro falava ao telefone com urgência.
Fechei os olhos.
"Uma porta", respondi. "Alguma coisa de metal. E uma cadeira se mexendo."
"Você reconhece o quarto da fotografia?"
Balancei a cabeça.
"O que acontece se eu ligar para ele?"
"Ele pode dizer alguma coisa útil. Também pode tentar convencer você a fazer algo perigoso. Se conversar com ele, fique aqui. Deixe a gente ouvir."
Olhei para a fotografia de Cláudia.
Na capela, eu tinha sentido vontade de machucá-la. Agora não conseguia parar de olhar para o sangue ao lado da sobrancelha.
O celular tocou antes que eu tomasse uma decisão.
Augusto.
Beatriz fez um sinal para o investigador ao seu lado, e atendi no viva-voz.
"Onde está minha mãe?"
"Segura, desde que você pare de dificultar as coisas."
A voz dele parecia quase cansada. Foi o que mais odiei. A sugestão de que o problema era meu comportamento, de que ele continuava sendo o adulto paciente obrigado a resolver minhas confusões.
"Deixa eu falar com ela."
"Quando chegar aqui."
"Ela disse para eu não ir sozinho."
Houve uma pausa.
"Sua mãe não está bem há muito tempo."
"Você disse que ela estava morta."
"Eu disse o que você precisava ouvir naquela época."
Apertei a borda da mesa.
"Eu fui àquele túmulo todos os anos. A Luísa levava os certificados da escola porque achava que, de algum jeito, a mãe podia ver."
"E quem levava vocês até lá? Quem pagava aquelas flores?"
Ele parecia ofendido.
Eu conseguia enxergá-lo como se estivesse na minha frente: ajeitando o punho da camisa, esperando que eu percebesse o quanto estava sendo ingrato.
"Você", respondi. "Você ficou olhando a gente chorar."
"Eu criei vocês."
"Por que fez aquilo com ela?"
"Porque sua mãe nunca soube a hora de parar. Ia destruir tudo que seu pai e eu tínhamos construído."
Meu pai.
Olhei para Beatriz. Ela estava anotando.
"Meu pai consertava equipamentos do hospital."
"Seu pai fazia muita coisa que você não sabe."
Ele deixou as palavras pairarem.
"Vem aqui, Rafael. Estou te dando a chance de ouvir isso de alguém que ama você."
Um gosto amargo tomou minha boca.
"Colocar a Luísa num caixão também foi por amor?"
A voz dele mudou.
"Sua irmã roubou pessoas que têm muito menos paciência do que eu."
"Que pessoas?"
"Não tenta fazer isso comigo."
Ali estava ele. O homem por baixo do tio paciente.
Minha mão começou a tremer contra a mesa.
Ele percebeu o silêncio e voltou a suavizar a voz.
"Você me ligava quando não conseguia dormir. Lembra? Depois que sua mãe foi embora. Eu ficava sentado com você até de manhã."
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Eu lembrava. Do relógio batendo no braço da cadeira. Da mão na minha nuca. Do alívio de ainda ter um adulto que não ia desaparecer.
"Eu lembro", falei.
"Então confia em mim agora."
Olhei pela janela da sala. No fim do corredor, uma enfermeira entrava no quarto de Luísa com uma manta limpa.
"Não consigo mais fazer isso."
Ele desligou.
Fiquei vários segundos olhando para a tela.
Depois me dobrei para a frente e vomitei na lixeira ao lado da cadeira.
Marina segurou a lixeira. Beatriz saiu para falar com a equipe no corredor.
"Ele me fez defender meu pai", falei quando consegui respirar. "Até agora conseguiu me fazer discutir outra coisa."
Marina me deu água.
"Você ficou aqui. Isso importa."
Os policiais chegaram ao galpão pouco antes de escurecer. Não era o imóvel do terminal industrial que aparecia na ordem de transporte, mas um depósito antigo perto do rio, no endereço enviado por Augusto.
Esperei no hospital enquanto eles entravam.
Luísa insistiu para que eu me sentasse ao seu lado. Ficamos olhando o céu escurecer pela janela estreita, sem fingir que conseguíamos prestar atenção em outra coisa.
Quando Beatriz voltou, eu soube antes que falasse.
"Sua mãe não estava lá."
Luísa virou o rosto para a parede.
"Cláudia está viva", a promotora continuou. "Dois homens foram detidos no prédio. Estamos tentando descobrir para onde Augusto foi."
"Ele sabia."
"Sabia que você podia não obedecer. Só isso já era motivo para sair de lá."
Eu queria que um desconhecido de uniforme garantisse que eu podia parar de sentir medo.
Ninguém podia.
Cláudia foi levada ao hospital municipal para receber atendimento e prestar um primeiro depoimento. Mais tarde, acompanhada, pediu para falar conosco.
Entrou com um curativo acima do olho e se sentou perto da porta.
"Sua mãe estava lá quando ele gravou a mensagem", disse. "Depois, ele levou ela embora. Não sei para onde."
"Me conta sobre o velório", pedi.
Ela juntou as mãos.
"Minha filha está desaparecida há três meses. Eles mandam fotografias para eu continuar fazendo o que pedem. Documentos, entregas, organização dos serviços."
"Você sabia que a Luísa estava viva."
"Sabia."
Minha irmã soltou um som baixo ao meu lado.
Cláudia olhou para ela.
"Mandaram manter o caixão fechado. Augusto disse que, depois do enterro, não haveria mais nada com que se preocupar. Eu entendi o que queria dizer."
"E continuou organizando tudo?", perguntei.
"Continuei. Até ouvir ela se mexer, enquanto os funcionários estavam do lado de fora."
As lágrimas desceram pelo rosto dela.
"Tentei soltar o fecho. Não consegui abrir antes que voltassem. Sabia que você ainda estava pedindo para vê-la. Fiquei procurando uma chance de chegar perto de você."
"Você me falou em qual canto escutar."
Ela assentiu.
"Isso não foi suficiente", Luísa disse.
"Eu sei."
Ninguém se apressou em perdoá-la.
Depois de algum tempo, perguntei sobre a ligação.
"Era minha mãe que estava ligando?"
"Às vezes, ela conseguia usar o telefone de uma funcionária da limpeza no Acácias. Combinávamos os horários. Salvei o contato como mãe porque eles verificavam meus contatos."
"Como a Luísa reconheceu?"
"Contei para ela como saber quando Helena estivesse tentando falar comigo", Cláudia explicou. "Sua irmã sabia que ainda mantínhamos contato."
Luísa assentiu.
"Quando vi a tela, achei que a mãe ainda podia ajudar a gente."
A ligação que eu confundira com mais uma ameaça era minha mãe tentando chegar até nós.
Cláudia respirou fundo.
"Tem mais uma coisa que vocês precisam ver. Estava no meu telefone antes que Augusto pegasse. Autorizei os investigadores a copiarem tudo."
Beatriz abriu uma fotografia no tablet.
Três homens estavam ao lado de uma entrada de serviço do hospital.
Augusto. Um homem de jaleco. E um homem cujo rosto eu carregava na memória desde os nove anos.
A cicatriz do meu pai cortava a sobrancelha direita. A mão dele estava apoiada no ombro de Augusto.
A imagem era de três anos antes.
Levantei os olhos para Cláudia.
"Meu pai estava vivo?"
Ela assentiu.
"E ajudou a construir tudo isso."
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