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"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 4

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O HOMEM QUE ASSINOU

"Liga para a Beatriz agora", eu disse.

O investigador já estava discando. Leu o endereço do Residencial das Acácias, o horário da retirada e a identificação do veículo registrada na autorização. Depois enviou o documento.

Marina abriu a página anexada.

O destino era um galpão alugado por uma transportadora no terminal industrial. Ao lado do número da nossa mãe havia uma instrução manuscrita: Sem contato com familiares. Necessária autorização de A. Salles.

Aquela ordem não tinha dezesseis anos.

Tinha três dias.

Augusto sabia onde minha mãe estava enquanto me ajudava a escolher flores para minha irmã.

"Vão tirar ela de lá antes que alguém chegue", falei.

"Já estamos agindo", o investigador respondeu. "Por favor, não avise ninguém que possa repassar essa informação."

Olhei para meu celular em cima da mesa.

Outra mensagem de Augusto iluminou a tela.

Você comeu alguma coisa? Não vai ajudar sua irmã se passar mal.

Virei o aparelho com tanta força que a capinha estalou contra a madeira.

Beatriz chegou ao hospital antes de amanhecer. Usava um casaco azul-marinho por cima de uma camisa abotoada às pressas. Apertou a mão de Luísa com delicadeza e perguntou se podia se sentar.

Não prometeu que tudo ia ficar bem.

"Uma equipe está verificando a residência e a transportadora", disse. "Solicitei medidas urgentes. Sua irmã vai continuar aqui com acesso restrito enquanto organizamos uma situação mais segura."

"E minha mãe?"

"Precisamos encontrá-la. Também precisamos saber se o horário mudou depois do que aconteceu no velório."

Essa possibilidade não tinha passado pela minha cabeça.

Claro que poderia ter mudado. O vídeo estava em toda parte. Augusto sabia que já não éramos pessoas enlutadas dispostas a obedecer.

"Então a gente já perdeu tempo."

"Sim", Beatriz disse. "Por isso preciso de respostas claras, não de suposições."

Ela pediu que explicássemos os documentos que reconhecíamos. Luísa descreveu o sistema do hospital e as pastas que havia copiado. Identifiquei a letra de Augusto na autorização impressa, deixando claro que não o vira escrever aquilo.

Quando Beatriz perguntou quem controlava os bens dos nossos pais, me senti ridículo de repente.

"Augusto cuidava disso quando éramos crianças."

"E agora?"

"Ainda tem algumas autorizações antigas. Ele ajuda com as contas da casa."

Marina levantou os olhos.

Tive vontade de dizer que não era idiota. Que confiar em alguém que tinha me buscado na escola, levado remédio quando eu adoecia e ficado ao meu lado no enterro da minha mãe era diferente de entregar a vida a um desconhecido.

Mas ela só perguntou:

"Você tem esses papéis?"

"Em casa."

"Então a gente busca depois."

Luísa falou da cadeira ao meu lado.

"Tem uma instituição também."

Apontou para uma pasta na tela.

Instituto Helena Duarte.

Fiquei olhando o nome.

Augusto o fundara depois da suposta morte da nossa mãe. Dois anos antes, eu tinha participado de um evento para arrecadar doações, sorrindo ao lado dele sob uma fotografia dela com uniforme de enfermeira.

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Ele dissera que a bondade de Helena merecia continuar viva.

Lembrei dos aplausos.

"Ele me fez discursar", falei.

Ninguém respondeu.

"Eu agradeci por manter a memória dela viva."

Luísa segurou minha mão.

Soltei e me levantei porque, se ela me tratasse com carinho naquele momento, eu ia desmoronar.

No notebook havia contas pagas pelo instituto, contratos com o Acácias e restrições assinadas em nome de Augusto. Algumas pessoas naquelas pastas tinham famílias que pagaram por funerais. Outras possuíam bens que acabaram sob o controle de empresas ligadas a ele.

Também havia pessoas que fizeram perguntas demais.

Os antigos registros de enfermagem da minha mãe estavam entre os documentos.

Beatriz foi falar com a equipe no corredor. Pelo vidro, vi quando apontou para os papéis e anotou um número.

Luísa se levantou devagar.

"Senta", pedi.

"Então volta para cá."

Havia na voz dela uma teimosia que eu conhecia desde criança.

Voltei para a cadeira.

"Eu devia ter procurado mais", falei.

"Você tinha dezesseis anos."

"Parei de perguntar porque ele ficava com uma cara triste toda vez."

"Era isso que ele queria. Que você parasse."

Olhei para o rosto machucado dela.

"Quase deixei levarem você daquela capela."

"Mas não deixou."

Ela apertou minha mão entre as suas.

"Não entrega isso para ele também. Não deixa ele transformar o que você fez em mais uma coisa que deveria ter feito antes."

Renata apareceu para levá-la de volta à cama. Minha irmã começava a tremer de exaustão.

Antes de sair, me fez prometer que eu não iria a lugar nenhum sem avisá-la.

Prometi.

Dessa vez, pretendia cumprir cada palavra.

No fim da manhã, os investigadores já tinham chegado ao residencial. Beatriz nos disse que o local estava sendo apresentado como uma instituição de cuidados comum. Vários quartos mostrados nos arquivos estavam vazios. O veículo indicado na ordem não aparecera às cinco e meia.

O horário realmente tinha mudado.

Estavam verificando o imóvel no terminal industrial e tentando encontrar o motorista.

"Onde está a Cláudia?", perguntei.

A expressão de Beatriz se fechou.

"Ainda não conseguimos falar com ela."

Eu tinha ficado tão consumido pela minha própria família que não perguntara por ela desde a ambulância.

Liguei para o número anotado dentro do envelope.

Chamou até cair na caixa postal.

Uma hora depois, meu celular vibrou.

Uma fotografia ocupou a tela.

Cláudia estava sentada numa cadeira, dentro de um quarto vazio. A pasta jazia aos seus pés. Havia sangue seco ao lado de uma sobrancelha.

Depois veio um endereço.

Em seguida, uma mensagem de áudio.

Coloquei para tocar com Beatriz ao meu lado.

"Rafael, meu filho", Augusto disse. "Você anda ouvindo pessoas que não entendem a nossa família. Vem conversar comigo. Ainda podemos resolver isso antes que a Luísa sofra mais."

Ouvi um movimento. Uma cadeira arrastou. Alguém respirou perto do microfone.

"Fala com ele", Augusto ordenou.

Durante alguns segundos, não houve nada.

Então minha mãe falou.

"Rafa, não vem sozinho. Não importa o que ele diga, não vem sozinho."

A gravação terminou com Augusto dizendo o nome dela num tom que eu nunca tinha ouvido.

Estendi o celular para Beatriz.

"Encontra ela", pedi. "Por favor, antes que ele castigue minha mãe por ter dito isso."

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