localização atual: Novela Mágica Quebrei o Caixão da Minha Irmã Capítulo 3

"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 3

PUBLICIDADE

OS ANOS EM QUE ELA ESTEVE VIVA

Virei a fotografia outra vez, procurando algum erro.

Havia um ano, um mês e um dia. Embaixo, com a letra da minha irmã, estava escrito: Cláudia diz que foi tirada no jardim.

"Foi você que escreveu?"

Luísa assentiu.

"Ela me mostrou na semana passada. Pedi alguma coisa que pudesse conferir. Não queria acreditar numa foto sem saber de onde tinha vindo."

Olhei para a mulher mais velha sentada no banco.

Eu tinha imaginado minha mãe envelhecendo tantas vezes. Em formaturas, em supermercados, atrás de mulheres que atravessavam a rua. Sempre que via alguém com seu jeito de andar, continuava olhando até a pessoa virar o rosto.

Agora não conseguia acreditar na imagem que segurava.

"Por que não me contou?"

"Porque, se a foto fosse mentira, eu não podia fazer isso com você."

"Você me deixou ir ao seu velório sem saber de nada disso."

Ela se encolheu.

As palavras ficaram entre nós. Palavras cruéis. Palavras de alguém apavorado. Eu queria recolher cada uma assim que saíram da minha boca.

"Desculpa", falei. "Estou com raiva e não sei o que fazer com ela."

Luísa olhou para os pulsos enfaixados.

"Guarda essa raiva para quem fez isso."

Peguei sua mão, esperando até que ela mesma virasse a palma para cima.

Ela me contou sobre Cláudia. A empresa de serviços funerários da família dela tinha contratos com o hospital. Anos antes, Cláudia também trabalhara na administração do Acácias. Conhecia o sistema dos dois lados.

Luísa encontrara o nome dela numa denúncia que não havia dado em nada. Procurara Cláudia do lado de fora do hospital, mas a mulher negara tudo.

Duas noites depois, porém, um envelope apareceu por baixo da porta do apartamento da minha irmã.

"Tinha cópias, fotografias e uma carta", Luísa disse. "Parte era antiga. Parte era recente. Juntei com os registros que encontrei no trabalho."

"Onde você guardou?"

"Nos armários atrás da antiga lavanderia da dona Celeste. No dezessete. Ela continua com o prédio, mesmo depois que fechou a lavanderia. Eu alugo um daqueles armários para guardar meus documentos."

Lembrei da mulher que fazia os ajustes dos nossos uniformes. Nossa mãe confiava nela a ponto de deixar uma cópia da chave de casa em suas mãos.

"Ela sabe?"

"Sabe que eu precisava de um lugar seguro. Não contei sobre a mãe."

Era quase meia-noite quando liguei para Marina Costa.

Éramos amigos desde a escola. Ela trabalhava num jornal da região, fazendo perguntas que levavam Augusto a descrevê-la como uma mulher infeliz que gostava de arrumar confusão.

Atendeu no segundo toque.

"Rafa, aquele vídeo é de verdade?"

Olhei para Luísa.

"Cada segundo."

Marina chegou ao hospital com um carregador extra, roupas limpas para minha irmã e um sanduíche que eu não consegui engolir. Ouviu tudo sem interromper. Quando mostrei as fotografias, colocou as duas em cima da mesa, em vez de dizer o que eu queria ouvir.

PUBLICIDADE

"Precisamos dos originais do que a Luísa guardou", disse. "E precisamos garantir a segurança dela enquanto examinamos isso."

Renata nos ajudou a entrar em contato com a equipe de Beatriz. Depois de ouvir o relato e conversar com o hospital, a promotora providenciou que um investigador nos encontrasse ali. Ele anotou nossos nomes, registrou a tentativa de transferência e falou separadamente com Luísa.

Eu detestava a ideia de entregar a chave para outra pessoa.

Mas detestava ainda mais a ideia de deixar minha irmã sozinha.

Marina foi com ele buscar o conteúdo do armário. Ligaram antes para dona Celeste. Às duas da manhã, a senhora desceu de chinelos e casaco de lã para abrir a porta de fora.

Quando voltaram, Marina me entregou um saco de papel que Celeste mandara.

Dentro havia dois pães e um bilhete.

Vocês deviam ter me procurado, meus filhos.

Dobrei o papel com cuidado e guardei no bolso.

Usamos uma pequena sala de atendimento, depois que Renata confirmou que Luísa podia sair da cama por algum tempo. O investigador registrou o que tinham recolhido: um pen drive, uma carta lacrada e outra fotografia da nossa mãe com Cláudia.

"Podem ler a carta", ele disse. "Só preciso fotografar as páginas antes."

O envelope tinha nossos nomes.

Rafael. Luísa.

Minha mãe sempre apertava demais a caneta no fim do R. A marca estava ali, afundada no papel.

Minha irmã encostou no meu ombro enquanto eu abria a folha.

Meus filhos,

Não sei qual de vocês vai ler isto primeiro. Escrevi outras cartas. Nenhuma chegou até vocês. Cláudia prometeu tentar, e estou escolhendo acreditar nela porque não suporto mais um ano de silêncio.

Parei.

Luísa se aproximou mais.

"Continua", sussurrou.

Eu não morri no acidente que contaram a vocês. Quando descobri o que estava acontecendo com os pacientes do Santa Cecília, tentei levar documentos para fora. Augusto descobriu antes que eu chegasse a alguém que pudesse ajudar.

Ele trouxe fotografias de vocês. Sabia a hora em que Rafael saía da escola e qual ônibus Luísa pegava. Depois disso, cada chance de falar virou uma escolha que eu tinha medo demais de fazer.

Havia manchas no papel. Algumas letras tinham borrado.

Acreditei quando ele disse que ficar quieta manteria vocês seguros. Acreditei quando prometeu trazer notícias. Depois, ele parou de trazer qualquer coisa.

Eu tentei voltar para casa. Por favor, não pensem que escolhi ficar longe.

Luísa começou a chorar contra minha manga.

Rafael, se você estiver com raiva porque eu não voltei, tem o direito de sentir raiva. Eu também senti. Mas nunca deixei de ser sua mãe.

Abaixei a carta.

Durante dezesseis anos, eu tinha tentado lembrar da nossa última conversa. Uma discussão comum por uma coisa comum: eu queria deixar a escola para trabalhar, ela queria que eu terminasse os estudos. Saí sem me despedir.

Em todas as versões particulares que inventei para sua morte, eu voltava por aquela porta.

Agora era ela quem estava pedindo desculpas.

Marina me passou um lenço sem dizer nada.

O investigador abriu o pen drive. Luísa forneceu a senha, o último verso de uma música que nossa mãe cantava nas tempestades: A luz sempre volta.

Um arquivo de áudio tinha o nome dela.

A voz saiu pelo pequeno alto-falante, fraca, mas impossível de confundir.

"Meu nome é Helena Duarte. Se isto chegar aos meus filhos, quero que saibam que eu lembro de tudo. Rafael odeia cenoura muito cozida. Luísa dorme com um pé para fora da coberta."

Dei uma risada que não consegui controlar e cobri o rosto.

"Vocês já devem ser adultos", minha mãe continuou. "Talvez essas coisas tenham mudado. Eu queria saber."

A gravação prosseguiu com nomes, lugares e coisas que ela tinha presenciado. Eu ouvia tudo, mas as palavras que ficaram foram as mais simples.

Eu queria saber.

Havia pastas de pacientes, listas de transporte e imagens de documentos. O investigador ligou para seu superior. Marina leu ao lado dele enquanto eu permanecia sentado, com a cabeça da minha irmã apoiada no meu ombro.

Então ela virou o notebook na nossa direção.

A fotografia de Helena apareceu ao lado de um número de paciente: quarenta e sete.

Embaixo havia uma autorização de transferência daquela semana.

Solicitante: Augusto Salles.

A retirada estava marcada para as cinco e meia daquela manhã.

Faltavam menos de três horas.

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: