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"Quebrei o Caixão da Minha Irmã" Capítulo 2

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PARA AQUELE HOSPITAL, NÃO

No hospital municipal, uma médica cortou a manga do vestido que tinham colocado em Luísa para o velório.

Minha irmã acompanhava a tesoura com uma expressão que eu nunca tinha visto em seu rosto. Parara de chorar. Qualquer movimento perto da cama a fazia se encolher.

"Meu nome é Renata", a médica disse. "Vou explicar o que estou fazendo antes de tocar em você. Se precisar que eu pare, é só falar."

Luísa assentiu sem encará-la.

Fiquei junto à parede, segurando o envelope que Cláudia me dera.

Nosso tio tinha comprado aquele vestido.

Ele não era realmente nosso tio, mas eu o chamava de Tio Augusto desde que me entendia por gente. Naquela manhã, quando eu mal conseguia falar, dissera que escolheria uma roupa adequada para minha irmã.

Agora uma médica cortava a roupa sobre o corpo machucado dela.

"Meu irmão pode ficar?", Luísa perguntou.

"Se você quiser, pode."

Ela estendeu a mão para mim na mesma hora.

Atravessei o quarto.

Renata a examinou e pediu exames. Não fingiu saber tudo o que havia acontecido. Disse que Luísa estava desidratada, apresentava lesões e talvez ainda estivesse sob o efeito de substâncias administradas antes do velório.

"Ela precisa ficar em observação", me explicou do lado de fora. "E precisa se sentir segura."

"Você consegue impedir o Augusto de se aproximar?"

"Foi ele quem organizou o funeral?"

Assenti.

"Avise à equipe quem pode visitar. Vou registrar o que sua irmã nos contou."

Meu celular vibrou.

Augusto tinha ligado onze vezes.

Abaixo das chamadas perdidas, havia uma mensagem.

Você está tornando uma situação terrível ainda mais difícil. Me diga em qual hospital está.

Virei o aparelho com a tela para baixo.

Quando voltei ao quarto, Luísa tentava beber água num copo descartável. A água escorreu sobre a manta.

Estendi a mão para ajudar, e ela se afastou num sobressalto.

Então olhou para mim, envergonhada.

"Desculpa."

"Você não precisa pedir desculpa."

Deixei o copo na mesa e me sentei onde ela pudesse ver minhas duas mãos.

Durante anos, eu tinha sido o irmão que consertava as coisas: eletrodomésticos quebrados, aluguel atrasado, a fechadura do banheiro que emperrava no inverno. Não sabia como consertar o medo de alguém que via uma mão se aproximar.

"Me conta sobre a mãe", pedi.

Luísa fechou os olhos.

"Primeiro, me fala que ainda está com a chave."

Tirei a chave do bolso. Era pequena, prateada, com uma etiqueta de plástico marcada com o número dezessete.

Ela me entregara na manhã anterior, durante o café, dizendo que precisava que eu guardasse uma coisa. Eu reclamara dos mistérios dela. Estava atrasado para o trabalho.

"Está aqui."

Os ombros dela relaxaram um pouco.

"Encontrei um registro de transferência no Santa Cecília. Um paciente tinha morrido, pelo menos era o que estava no sistema. Quatro dias depois, um carro levou esse mesmo paciente para o Residencial das Acácias."

"As datas podiam estar erradas."

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"Foi o que pensei. Depois achei outros."

O trabalho no setor administrativo lhe dava acesso a notas fiscais e solicitações de transporte. Ela estava conferindo um lote de contas antigas quando percebeu a diferença entre as datas.

"Tinha gente com registro de óbito e despesas que continuavam chegando", explicou. "Alimentação. Transporte. Medicamentos. Estavam transferindo essas pessoas com nomes diferentes."

"Você contou para alguém?"

"Perguntei sobre o primeiro paciente para minha supervisora. No dia seguinte, meu acesso mudou. Naquela noite, Augusto foi me ver."

Afastei as costas da cama.

"Você tinha contado para ele?"

"Não tinha contado nada."

A ventilação zumbia acima de nós.

"Ele disse que eu devia procurá-lo se estivesse confusa com alguma coisa no trabalho. Sabia exatamente quais registros eu tinha aberto."

Ela passou o polegar pela borda do curativo.

"Continuei procurando. Com mais cuidado. Foi quando encontrei a data de nascimento da mãe."

"E o nome dela?"

"Outro sobrenome. O primeiro nome era o mesmo, a data estava certa e tinha uma descrição da cicatriz atrás da orelha."

Eu lembrava daquela cicatriz. Uma meia-lua clara escondida sob o cabelo. Quando éramos crianças, pedíamos tantas vezes a história da bicicleta que ela deixava o final para nós contarmos.

"Isso não prova que estava viva", eu disse.

Luísa me encarou.

"Eu sei do que você está com medo."

"Você não sabe."

"Eu também levei flores para aquele túmulo, Rafa."

Desviei o olhar.

Alguém bateu, e uma enfermeira entrou para verificar o monitor. Luísa ficou em silêncio até ela sair.

"O que a Cláudia te entregou?", perguntou.

Abri o envelope.

Antes que pudesse desdobrar seu conteúdo, ouvi vozes alteradas no corredor.

"A família solicitou a transferência", um homem dizia.

Luísa ficou rígida.

Pela pequena janela da porta, vi uma pasta azul e um maxilar quadrado que reconheci imediatamente. O homem que tentara me segurar no velório estava no posto de enfermagem, acompanhado de outro com uniforme de transporte.

Levantei.

Renata já estava entre eles e a entrada do corredor.

"A paciente não pediu transferência", disse.

"O responsável dela autorizou."

"Ela tem vinte e sete anos. Pode falar por si mesma."

Saí do quarto.

O homem do maxilar quadrado me reconheceu.

"O doutor Augusto só está tentando ajudar."

"Então pode parar de mandar gente que assusta minha irmã."

Ele baixou a voz.

"Você me agrediu na capela. É melhor tomar cuidado com essas acusações."

Renata olhou para mim e depois para o segurança que vinha da recepção.

"Vocês podem explicar a solicitação para a administração do hospital", disse. "Não vão entrar nesse quarto."

Pela primeira vez naquele dia, alguém ficou ao meu lado sem procurar Augusto para pedir permissão.

Os dois acabaram saindo com o segurança. Renata acompanhou com os olhos até desaparecerem atrás das portas de acesso restrito.

"Precisamos avisar os policiais que estão cuidando do que aconteceu na capela", disse.

"Não sei quem ele conhece."

"Então vamos registrar exatamente o que aconteceu. Sem adivinhar."

Ela me deu o contato de Beatriz Ramos, uma promotora com quem havia trabalhado em outro caso envolvendo a proteção de pacientes. Ofereceu-se para falar pessoalmente com ela.

Eu aceitei.

De volta ao quarto, encontrei Luísa olhando para o envelope em cima da minha cadeira.

Havia duas fotografias dentro dele.

Na primeira, nossa mãe segurava uma menina com vestido verde. Era Luísa, aos três anos. Eu lembrava de ter tirado aquela foto com a câmera do meu pai.

A segunda mostrava duas mulheres sentadas num banco debaixo de uma árvore florida.

Uma delas era Cláudia.

A outra tinha cabelos brancos, pulsos finos e um rosto que o tempo havia transformado até quase torná-lo irreconhecível.

Quase.

A data escrita no verso era de dois anos antes.

Dezesseis anos atrás, eu tinha visto homens baixarem o caixão da minha mãe para dentro da terra.

Agora minha irmã encostava um dedo trêmulo no rosto daquela mulher de cabelos brancos.

"É ela", disse. "É a nossa mãe."

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