"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 10

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O HOMEM QUE ABRIU A PORTA

Enzo cumpriu a promessa naquela mesma noite.

Explicou que Léo e Nair seriam levados para um endereço protegido, com Clara e Caio, antes de qualquer confronto. Ela conheceria a equipe que os acompanharia. Renato ficaria com Enzo na propriedade.

Augusto acreditava que documentos originais de Marco ainda estavam no escritório da casa. Era um acesso antigo, concedido quando o sobrinho confiava nele para cuidar de assuntos da família. Agora estava prestes a ser cancelado.

"Você vai deixá-lo entrar?" Clara perguntou.

"Vou deixar que venha para uma conversa. Ele não vai chegar perto de vocês. O material já está fora da casa."

Ela apertou a borda da mesa.

"Eu não quero receber uma ligação dizendo que você resolveu tudo e não volta mais."

Enzo ficou em silêncio por um segundo.

"Eu também não quero deixar meu filho com essa notícia."

Clara ouviu, por trás da firmeza, o homem que segurara Léo durante a tempestade.

"Então lembra disso antes de fazer qualquer coisa."

"Eu vou lembrar."

Léo chegou ainda sonolento, acompanhado de Nair. Ao ver Clara, abriu um sorriso tão espontâneo que ela precisou se abaixar antes de conseguir falar.

O abraço veio cuidadoso. O menino já sabia de que lado podia encostar.

"Trouxe uma coisa para você", disse.

Era o desenho novo. Na folha, todos estavam sob um guarda-chuva enorme. Enzo segurava o cabo. Clara aparecia ao lado dele, e Caio tinha uma bola de futebol debaixo do braço.

"Dessa vez ninguém molhou", Léo explicou.

Clara beijou sua testa.

"Você pensou em tudo."

Caio pegou a mochila do menino e o levou para conhecer os jogos da sala. Nair ficou com Clara na cozinha até sua respiração se acalmar.

A primeira atualização veio de Renato: Augusto chegara à propriedade.

A segunda veio de Enzo, uma mensagem curta dizendo que estava bem e que conversariam em breve.

Clara não acompanhou a reunião. Só conheceria seus detalhes depois, quando Enzo lhe contasse sem omitir as partes que o envergonhavam.

Naquela noite, o que sabia era que Augusto havia descoberto o bloqueio de duas contas usadas por intermediários, tentara localizar o responsável pelo fornecedor do hotel e não conseguira falar com o homem.

O ajudante da entrega já fora encontrado. A confirmação dos acessos, junto às imagens recuperadas, ajudara a polícia a chegar ao esconderijo do atirador. Os dois estavam sob custódia antes de o tio entrar na casa.

Ainda assim, Augusto se apresentara com uma garrafa de vinho, como tantas outras vezes.

Enzo o recebera no escritório onde Marco aprendera a jogar cartas quando era menino.

"Você afastou pessoas sem me consultar", o tio começara.

"Eu afastei quem ajudou a colocar uma arma diante do meu filho."

Augusto pousara a garrafa.

Enzo lhe mostrara uma cópia dos registros. Depois, uma imagem do funcionário do hotel conversando com o intermediário que fazia os pagamentos.

O tio não perguntara quem eram os homens.

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Perguntara onde estava o original.

Foi essa resposta que Enzo repetiu a Clara dias depois. Não o golpe no próprio orgulho, mas o instante em que deixara de procurar alguma explicação menos cruel.

"Você sabia que ele estava no brinquedo", Enzo dissera.

Augusto se recostara na cadeira.

"Marco não sabia aceitar o lugar dele."

"E você resolveu tirar meu filho do caminho também?"

"Eu dei a você oportunidades de corrigir as coisas. Você protegeu rotas, contratos, uma imagem de família. Achou que podia me retirar das decisões e manter tudo de pé."

Enzo se aproximara da mesa, os dedos apoiados na madeira.

"Meu filho estava desenhando debaixo de uma mesa."

Augusto evitara seus olhos pela primeira vez.

A tentativa seguinte fora oferecer um acordo. Os responsáveis menores assumiriam a culpa; o tio deixaria o país; Enzo preservaria o sobrenome.

Enzo abrira a gaveta e retirara uma fotografia ampliada da abotoadura encontrada no salão. O objeto original fora entregue à investigação; a imagem ajudara a reconhecer a ligação entre os homens.

"Você usou um símbolo que meu pai me ensinou a respeitar para mandar matar o neto dele."

Augusto olhara para a porta.

Havia agentes na entrada da propriedade. O material reunido por Marco e os registros do ataque tinham sido entregues antes da conversa, por intermédio de uma equipe independente dos contatos habituais da família.

O tio tentara sair pelo acesso à garagem. Renato o interceptara sem permitir que alcançasse o carro.

Mais tarde, Enzo admitiria que quisera segui-lo.

Quisera obrigá-lo a olhar para uma fotografia do menino. Quisera machucá-lo com as próprias mãos, fazer com que sentisse uma parte do medo que deixara naquela casa.

Mas recebera, naquele instante, a imagem de um desenho enviada por Clara.

Todos debaixo do mesmo guarda-chuva.

Ele permanecera no escritório até Renato voltar.

Clara recebeu a ligação pouco antes da meia-noite.

"Ele foi levado", Enzo disse.

Ela fechou os olhos.

"E você?"

"Estou indo buscar meu filho. Se você quiser, também quero ver você."

O alívio veio tão forte que Clara precisou se sentar.

"Eu quero."

Quando ele entrou, Léo dormia no sofá, a cabeça no colo de Caio. O irmão dela se levantou com cuidado e deixou Enzo se aproximar.

Clara esperou que o pai tocasse o rosto do menino antes de chegar perto.

Enzo a abraçou sem dizer nada.

Ela sentiu o tremor que ele escondera ao telefone.

Por muito tempo, ficaram parados no meio da sala, sem explicar o que já sabiam.

O robô estava na mesa, entre duas xícaras frias. Clara olhou para ele e pensou em Marco escondendo o cartão, convencido de que voltaria para buscá-lo. A alegria de estar viva não apagava a tristeza por quem não tivera a mesma chance.

Nos dias seguintes, novos nomes apareceram nos registros. O homem que enviara a ameaça a Caio foi identificado entre os contratados do ataque. O supervisor do hotel respondeu sobre os acessos autorizados e os avisos que ignorara. As cópias do material ficaram fora do alcance dos envolvidos.

A organização ainda teria consequências a enfrentar, mas a ameaça direta contra os dois irmãos deixara de controlar suas rotinas. Renato explicou o que continuaria sendo acompanhado e o que podia mudar com segurança.

Enzo não prometeu um mundo sem perigo. Entregou a Clara informações, contatos e alternativas reais.

Uma semana depois, levou ao quarto dela a bolsa que ficara na propriedade. Dentro estavam suas roupas, o livro da varanda e a caixa com a aliança.

"Seu apartamento pode ser preparado para você voltar", disse. "Ou podemos procurar outro. O tratamento continua, qualquer que seja sua escolha."

Clara passou o dedo na tampa da caixa.

"Você está me mandando embora?"

O sofrimento no rosto dele foi tão visível que ela se arrependeu da pergunta.

"Eu estou tentando não pedir que fique antes de você saber que pode ir."

Clara segurou a bolsa contra o peito.

Pela primeira vez desde o salão, a porta aberta diante dela não parecia uma fuga.

Parecia uma escolha.

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