"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 9

PUBLICIDADE

A VERDADE INTEIRA

A casa preparada para Clara ficava a quarenta minutos da propriedade. Tinha um quintal pequeno, dois quartos e seguranças cujos nomes e turnos ela recebeu por escrito.

Na primeira noite, não dormiu.

O silêncio não era mais tranquilo ali. Só era diferente.

Caio deixou a porta do quarto entreaberta, como fazia quando era pequeno. Clara ouviu o colchão ranger cada vez que ele mudava de posição.

Pela manhã, Nair mandou uma fotografia do almoço e uma reclamação sobre a falta de alguém para elogiar seu feijão. Léo ligou depois da escola. Quis saber se o robô estava perto da janela.

"Ele gosta de ver a rua", explicou.

Clara o colocou no parapeito e mandou uma foto.

Enzo não ligou naquele dia.

No seguinte, enviou uma pergunta simples: poderia visitá-la às quatro, se ela quisesse conversar?

Clara ficou olhando para a mensagem. Parte dela queria fazê-lo esperar tanto quanto a fizera duvidar. Outra parte estava cansada demais para transformar saudade em punição.

Respondeu que sim.

Ele chegou sem flores, sem caixas, sem a aliança que ela deixara na mesa do quarto. Vestia uma camisa azul-escura e parecia não ter dormido mais do que ela.

Caio o recebeu na sala.

"Eu vou estar no quintal", disse à irmã.

Clara agradeceu com um olhar. O irmão demorou um segundo antes de sair.

Enzo permaneceu de pé até ela indicar a cadeira.

"Como está a dor?"

"Melhor."

Ele assentiu. As mãos estavam vazias sobre os joelhos.

"Eu pensei em começar explicando por que fiz aquilo", disse. "Mas seria só mais uma forma de tentar fazer você aceitar minha decisão."

Clara esperou.

"Eu suspeitava do Augusto antes da visita. Não tinha prova, mas havia motivos suficientes para avisar você. Eu preferi observar o comportamento dele sem que soubesse que era observado. E tirei de você uma escolha que prometi respeitar."

Ela sentiu os olhos arderem. O fato de ele dizer exatamente o que acontecera não apagava a mágoa. Tornava possível respirar dentro dela.

"O Caio estava naquele jardim."

"Eu sei. Renato acompanhava os dois. Isso não justifica você não saber."

Clara passou o polegar sobre a marca clara deixada pela aliança.

"O que mais você escondeu?"

Enzo tirou uma pasta fina da bolsa que trouxera. Não a empurrou imediatamente. Primeiro explicou cada parte, deixando que ela interrompesse.

Marco descobrira pagamentos por rotas usadas sem autorização. Guardara cópias, desconfiando das pessoas que cuidavam dos sistemas da família. Escondera o cartão no robô durante uma visita e pretendia recuperá-lo na manhã seguinte.

Não chegara a voltar.

"Ele não planejou deixar o Léo carregando aquilo por meses", Enzo disse. "Achou que teria tempo."

Clara olhou para o brinquedo na janela.

"Como descobriram onde estava?"

"Um funcionário viu Marco mexendo no robô. Depois que morreu, Augusto começou a procurar entre os presentes que ele tinha dado. Léo não deixava ninguém pegar. Meu tio percebeu que havia alguma coisa ali."

PUBLICIDADE

"Por isso queriam o brinquedo no hotel."

Enzo assentiu. Os olhos escureceram.

"O homem que estava com a arma foi identificado numa imagem que Daniel recuperou de um fornecedor. Ainda estão procurando por ele. O outro entrou como ajudante de entrega."

Clara sentiu uma lembrança se mover.

O sapato perto de seu rosto. A mão procurando o robô. Uma voz antes, no corredor de serviço.

"Havia uma entrega de vinho", disse devagar.

Enzo esperou sem se mexer.

"Eu fiquei irritada porque deixaram um carrinho atravessado na passagem. Um homem queria levá-lo pelo elevador errado. Eu disse que a copa ficava do outro lado."

Ela fechou os olhos, tentando recuperar o rosto.

"Não era o atirador. Era o outro. Ele tinha um crachá virado e sabia o nome do meu supervisor. Disse que o senhor Otávio tinha autorizado."

Enzo pegou o telefone, mas não discou.

"Posso passar isso ao Renato?"

A pergunta atingiu Clara de um jeito que ele talvez não compreendesse.

Ela assentiu.

Mais tarde, numa conversa por vídeo, Renato mostrou imagens de funcionários de entregas. Clara reconheceu o homem do carrinho. Não tinha certeza do rosto que vira depois de cair, e disse isso claramente.

A informação permitia conferir escalas, acessos e quem autorizara o fornecedor. Não a transformava na pessoa responsável por desmantelar uma organização.

Quando a ligação terminou, o fim da tarde já atravessava a sala.

Enzo fechou a pasta.

"Existe outra coisa que você precisa saber. A mensagem do Augusto foi uma ameaça. Ele queria que você entendesse que podia alcançar você mesmo dentro da minha casa."

"Eu entendi."

"Se voltar, vai ser porque quer. Se ficar aqui, eu vou manter a proteção. Você não tem que resolver o que sente por mim para continuar segura."

Clara olhou para as mãos dele. Queria tocá-las e ainda tinha medo.

"Eu passei anos fazendo contas antes de dormir", disse. "Se eu ficasse doente, quem levava o Caio para a escola? Se perdesse o emprego, quantos dias tínhamos? Eu não sei desligar isso."

Enzo escutou.

"Na sua casa, eu comecei a dormir sem fazer todas as contas. Acho que foi por isso que doeu tanto. Eu já estava deixando você cuidar de mim."

A voz falhou no final.

Ele se inclinou, mas permaneceu na cadeira.

"Eu gostei de você precisar de mim. Gostei mais do que devia. E tentei manter tudo sob meu controle para não perder isso."

Clara enxugou o rosto com a palma.

"Eu quero poder precisar de você sem deixar de saber o que está acontecendo na minha própria vida."

"Eu entendi tarde. Mas entendi."

Ela estendeu a mão. Enzo a segurou como se o gesto tivesse mais valor do que qualquer perdão apressado.

Não se beijaram naquele dia.

Conversaram até Caio entrar perguntando se alguém pretendia jantar. Enzo aceitou a comida que Nair mandara e ajudou a lavar os pratos depois, mesmo sob o olhar desconfiado do rapaz.

Antes de ir, deixou que Clara o abraçasse primeiro.

Ela encostou o rosto em seu peito. A saudade veio com a mágoa, sem que uma expulsasse a outra.

"O Léo perguntou de você", Enzo murmurou.

"Eu também pergunto dele."

"Ele quer mostrar um desenho novo."

"Pode trazê-lo no sábado."

Enzo beijou seus cabelos e a soltou devagar.

Às dez da noite, ligou novamente. Dessa vez, a voz estava tensa.

"O fornecedor confirmou que recebeu instruções do escritório do Augusto. Renato afastou um homem ligado a ele. Meu tio percebeu que estamos perto."

Clara segurou o telefone com mais força.

"O que vai acontecer agora?"

Enzo respondeu sem esconder o risco.

"Ele vai tentar sair antes de perder o acesso ao que ainda acredita controlar. E você vai saber o que eu fizer a partir daqui."

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: