"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 8

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O QUE ELE ESCOLHEU ESCONDER

Clara não respondeu a Augusto.

Leu o relatório mais uma vez, ampliou a assinatura e procurou alguma coisa que lhe permitisse acreditar que a imagem era falsa.

Então chamou Enzo.

Ele veio sozinho. Ao ver o telefone sobre a mesa, sua expressão perdeu a suavidade com que entrara.

"Ele falou com você."

"Foi isso que você viu primeiro?"

Enzo olhou para ela.

Clara deslizou o aparelho em sua direção.

"O relatório é verdadeiro?"

Ele examinou a imagem.

"É."

Ela assentiu uma vez. O movimento pareceu pertencer a outra pessoa.

"Você já desconfiava que alguém da sua família tinha ajudado no ataque."

"Eu tinha indícios de colaboração interna."

"E suspeitava do Augusto?"

A pausa respondeu antes dele.

"O nome dele estava entre as possibilidades. Ainda não havia nada que confirmasse."

Clara se levantou. Precisava sentir o chão sob os pés.

"Você deixou ele entrar. Deixou sentar perto de mim, conversar com meu irmão no jardim."

"Ele foi revistado. Havia homens acompanhando a visita. Eu não deixei vocês desprotegidos."

"Você deixou a gente sem saber."

Enzo parou de falar.

A descoberta não era apenas sobre Augusto. Era sobre todos os momentos em que ela confiara na tranquilidade daquela casa porque acreditara que Enzo estava cumprindo o combinado.

O próprio beijo da véspera pareceu se mover dentro de sua memória. Ela o conhecera menos do que imaginava. Isso não fazia o que sentira desaparecer. Tornava tudo pior.

"Eu pedi uma coisa no hospital", disse. "Que você me avisasse quando o perigo dissesse respeito ao Caio e a mim."

"Eu não queria obrigar você a representar diante dele sabendo o que eu suspeitava. Augusto perceberia se você mudasse de comportamento."

Clara olhou para o homem à sua frente.

"Então você precisava que eu parecesse despreocupada."

Enzo fechou os olhos por um instante.

"Eu precisava entender o que ele queria."

O silêncio seguinte foi o mais frio que Clara já experimentara.

Enzo deu um passo.

"Eu não trouxe você aqui para usar como isca."

"Mas decidiu sozinho quanto risco eu podia correr."

Ele não encontrou uma resposta que a fizesse ficar tranquila. Pela primeira vez, pareceu perceber isso sem tentar substituí-la por uma ordem.

Clara apoiou a mão na mesa. O lado do corpo latejava, e ela estava furiosa por sentir dor naquele momento, por precisar que ele notasse e ao mesmo tempo não suportar que se aproximasse.

"Eu preciso sair daqui."

Enzo endureceu.

"Augusto está tentando separar você da proteção da casa."

"Eu sei o que ele está tentando fazer. Isso não muda o que você fez."

Ele a olhou por vários segundos.

"Não volta para seu apartamento. Me deixa preparar outro lugar."

Clara respirou, exausta.

"Tudo bem. Mas eu vou saber quem está lá. E o Caio vai comigo."

Enzo assentiu.

O irmão a encontrou sentada na cama diante de uma mala aberta. Não perguntou logo o que acontecera. Começou a dobrar as roupas dela com cuidado excessivo.

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"Você quer me contar?"

Clara levou as mãos ao rosto.

"Eu achei que podia confiar nele."

Caio parou com uma camiseta entre os dedos.

"Ele mentiu?"

"Ele escondeu uma coisa importante."

O menino se sentou ao lado dela. Durante anos, Clara tinha sido quem abraçava primeiro, resolvia primeiro, dizia que iam encontrar uma saída.

Dessa vez foi Caio quem passou o braço por suas costas.

"Você não precisa explicar tudo agora."

Ela encostou a cabeça no ombro dele e chorou sem tentar fazer pouco barulho.

Não chorou por achar que Enzo nunca se importara. Chorou porque tinha visto que se importava e, ainda assim, ele escolhera excluí-la da verdade.

Quando conseguiu se recompor, perguntou se o irmão tomara a medicação. Caio soltou um suspiro triste.

"Já tomei, já comi e já fiz a lição. Hoje você pode ser só minha irmã."

Clara riu no meio das lágrimas.

Depois que Caio saiu para buscar água, Clara abriu a gaveta onde guardara o recibo das compras. Colocou-o na bolsa junto aos documentos. Queria levar alguma coisa que fosse sua desde antes de Enzo, alguma prova pequena de que sabia existir sem aquela casa.

A aliança permaneceu em seu dedo por mais alguns segundos. Tirou-a devagar. A pele por baixo parecia estranhamente exposta.

Deixou o anel sobre a mesa. Não para machucá-lo quando encontrasse. Não conseguia usá-lo enquanto precisava se lembrar de que ainda tinha o direito de fazer perguntas. Olhou para a porta, esperando ouvir seus passos, e sentiu raiva da esperança que persistia mesmo depois da decepção.

Enzo aguardou na sala enquanto a equipe organizava a saída. Não tentou entrar no quarto.

Nair trouxe uma sacola com comida e abraçou Clara pelo lado que não doía.

"Não vou perguntar o que aconteceu. Só quero que você coma alguma coisa quando chegar."

Clara segurou a mão dela.

"Obrigada por tudo."

"Você fala como se eu tivesse morrido. Eu vou mandar mensagem amanhã."

Léo estava na escola. Clara pediu para esperá-lo.

Não queria que descobrisse uma cama vazia depois de ouvir uma promessa de que ela não desapareceria.

O menino ouviu a explicação sentado no tapete. Ela e Caio ficariam por alguns dias em outro lugar, continuariam conversando pelo telefone, ele não tinha causado aquilo.

"Meu pai vai também?"

Clara sentiu Enzo atrás dela, perto da porta.

"Seu pai vai ficar aqui com você."

Léo olhou de um adulto para o outro. Nenhum dos dois conseguiu lhe oferecer a simplicidade que procurava.

"Vocês brigaram?"

Clara se agachou com esforço.

"Nós estamos tristes com uma coisa que aconteceu. Mas você pode gostar de nós dois. Não precisa escolher ninguém."

Ele apertou a boca. Depois assentiu com uma seriedade que a fez querer cancelar a mala, o carro, tudo.

Não cancelou.

Na hora de sair, encontrou o robô ao lado da bolsa.

Enzo estava no corredor.

"Ele disse que pode fazer companhia até você melhorar."

Clara segurou o brinquedo. As lágrimas voltaram, quentes, antes que conseguisse impedi-las.

"Eu não estou indo para machucar vocês", disse.

Enzo engoliu em seco.

"Eu sei."

Pela janela do carro, ela viu Léo abraçado à cintura do pai. Enzo se abaixou para ouvi-lo.

O vidro ainda estava aberto quando a voz pequena chegou até ela.

"Pai, por que as pessoas de quem eu gosto vão embora?"

Clara fechou os olhos. O carro só começou a andar depois que Enzo pegou o filho no colo.

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