"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 7

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DESSA VEZ, NÃO ERA ENCENAÇÃO

Enzo veio até a porta sem fazer barulho. O robô permanecia em sua mão.

"Ele perguntou se o Marco estava bravo com ele", disse.

Clara encostou o ombro bom na parede.

"O que você respondeu?"

"Que meu irmão ia ficar orgulhoso."

Ela assentiu. Enzo olhou para os olhos dela por tempo suficiente para que o corredor parecesse estreitar.

"Você ia me chamar?" perguntou.

"Eu só queria saber como você estava."

Ele baixou a cabeça e soltou o ar. Por um instante, Clara pensou que ele fosse encostar a testa na dela.

Então o telefone vibrou em seu bolso.

Enzo recuou.

"Você devia descansar."

Nos dias seguintes, a frase se repetiu de formas diferentes.

Ele mandava verificar seus remédios, perguntava a Nair se ela comera, chegava antes do carro quando tinha uma consulta. Mas já não se sentava com ela na varanda. Não demorava à porta do quarto. Quando seus dedos se tocavam, ele os retirava depressa.

Clara tentou não dar importância.

Era ridículo sentir falta de um homem que continuava na mesma casa. Mais ridículo ainda era olhar para a aliança e recordar os botões de uma blusa.

Na quarta manhã, decidiu tirar o anel durante o café.

Enzo percebeu antes de pegar a xícara.

"Está machucando sua mão?"

"Não. Não temos visitas hoje."

Ele olhou para a aliança sobre a mesa.

"Entendi."

O tom fez Clara desejar que tivesse perguntado mais alguma coisa. Ela detestou desejar aquilo.

Léo surgiu com um trabalho de escola. Precisava desenhar a família num passeio. O menino colocou a folha diante do pai: quatro pessoas de mãos dadas, uma quinta com cabelo comprido ao lado de uma árvore.

"A Nair está aqui", explicou, apontando a quinta figura. "Ela falou que não vai caminhar no sol, então desenhei na sombra."

Caio riu.

Clara procurou os próprios traços no papel. Era a figura de amarelo, entre Léo e Enzo.

"Ficou bonito", disse, mas sua voz saiu baixa.

O menino percebeu.

"Você não queria vestido? Eu posso mudar."

"Eu adorei o vestido."

Enzo olhou para ela por cima da mesa. Clara não conseguiu sustentar o olhar.

Naquela tarde, ouviu uma discussão no escritório. Não entendeu as palavras, apenas a voz de Enzo ficando mais baixa, e a de Renato respondendo com urgência.

Quando a porta se abriu, ele a encontrou no corredor.

"Aconteceu alguma coisa?"

"Nada que mude sua rotina."

A resposta atravessou a insegurança que ela tentava esconder.

"Você pode parar de falar comigo como se eu fosse uma criança?"

Renato se afastou discretamente.

Enzo ficou à porta.

"Clara, eu tenho coisas para resolver."

"Eu sei. É por isso que você me manda descansar toda vez que faço uma pergunta?"

Ele olhou para seu ombro.

"Você continua se recuperando."

"Eu não perguntei se posso levantar peso. Perguntei o que está acontecendo."

Enzo entrou no escritório e esperou. Clara o seguiu, irritada por seu coração estar batendo tão forte.

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"O material está sendo conferido. Algumas pessoas estão sendo afastadas. Eu estou revendo quem teve acesso ao hotel."

"E você também está revendo se foi uma boa ideia me trazer para cá?"

A expressão dele mudou.

"Por que você acha isso?"

Clara abriu a boca. Tudo o que ensaiara soava patético de repente.

"Você mal olha para mim."

Enzo ficou imóvel.

Ela gostaria de puxar as palavras de volta. Em vez disso, respirou com cuidado e continuou.

"Eu sei que esta história de casamento tem uma função. Não estou confundindo as coisas. Mas você não precisa me tratar como um erro que ainda não sabe corrigir."

Ele deu um passo na direção dela.

"Eu não estou conseguindo olhar para você sem querer me aproximar."

Clara sentiu o ar falhar.

Enzo parou perto o bastante para que ela visse a barba começando a aparecer em seu maxilar.

"Isso não é um problema que você tenha de resolver", ela murmurou.

"Eu prometi que você teria espaço aqui."

"E decidiu que eu queria distância?"

A pergunta o atingiu. Clara viu pela maneira como ele baixou os olhos para a boca dela, depois voltou a encará-la.

"Eu não sou bom em querer alguma coisa sem tentar controlar o que pode acontecer."

"Eu já percebi."

O canto da boca dele se moveu, sem alegria.

"Você fala comigo como ninguém mais fala."

"Talvez as outras pessoas estejam preservando o emprego."

Dessa vez ele riu de verdade, baixo, perto demais.

Clara ergueu a mão boa e tocou sua camisa. Não o puxou. Apenas deixou os dedos ali, sentindo o calor de seu peito através do tecido.

Enzo cobriu sua mão com a dele.

"Isso está deixando de parecer uma boa ideia", disse.

Ela levantou o rosto.

"Para você ou para mim?"

"Para a minha capacidade de ficar longe."

Clara ficou na ponta dos pés o suficiente para que a resposta não precisasse ser dita.

Enzo a beijou com uma delicadeza que não combinava com a tensão de suas mãos. Primeiro um toque breve, como se ainda lhe oferecesse a chance de mudar de ideia. Quando ela segurou sua camisa, ele soltou o ar contra sua boca e a beijou de novo.

Clara sentiu a mão dele em sua cintura, cuidadosa com o lado ferido. O corpo inteiro pareceu reconhecer aquela atenção antes que sua cabeça conseguisse nomeá-la.

Não havia tio na sala, convidados observando, uma mentira a ser sustentada.

Havia o som da respiração dele e a descoberta assustadora de que ela queria mais.

Quando se afastaram, Enzo encostou a testa na sua.

"Eu estou com medo de fazer isso errado", confessou.

Clara acariciou com o polegar a pequena dobra na camisa dele.

"Então não tenta decidir minha parte também."

Ele assentiu devagar.

Ficaram abraçados por alguns minutos. Clara ouviu o coração dele sob a própria orelha e pensou que Léo tinha razão: às vezes ele também corria.

À noite, Enzo apareceu na varanda com duas xícaras de chocolate. A aliança estava ao lado da bandeja.

"Encontrei na mesa", disse.

Clara a colocou sem desviar os olhos dele.

O gesto simples apagou a expressão cautelosa de seu rosto. Enzo segurou sua mão e beijou seus dedos, acima do anel.

Ela dormiu sorrindo pela primeira vez desde o hotel.

Na manhã seguinte, chegou uma mensagem de Augusto.

Era uma fotografia de um relatório sobre a segurança do evento. Na última página, uma anotação mencionava suspeita de participação interna, com data anterior à visita dele à casa.

Abaixo, o tio escrevera:

Antes de acreditar que é esposa dele, pergunte o que seu marido já sabia quando me deixou sentar ao seu lado.

Clara releu a data.

O frio começou na base de sua garganta e desceu até a mão onde ainda usava a aliança.

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