"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 6

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O QUE MARCO DEIXOU PARA TRÁS

Clara chamou Enzo depois que Léo foi lanchar.

Contou exatamente o que ouvira, sem acrescentar interpretações. Enquanto falava, viu os olhos do homem passarem do rosto dela para o robô sobre a mesa.

"Ele disse Augusto?"

"Disse."

Enzo pegou o brinquedo, mas parou antes de mexer nele.

"Eu não quero assustar meu filho fazendo perguntas."

"Então não pergunta tudo de uma vez. Ele falou porque estava tranquilo."

O homem assentiu e chamou Renato, o chefe de sua segurança. Clara conhecia o sujeito desde o hospital: cabelo curto, poucas palavras, um jeito de conferir as janelas sem interromper a conversa.

Enzo pediu que ele verificasse o robô com cuidado.

"Sem danificar. Ele precisa voltar para o Léo."

Clara acompanhou os dois ao escritório. Não queria deixar que uma frase dita em sua presença se transformasse em outra decisão à qual só teria acesso depois.

Renato trouxe ferramentas pequenas. Sob a tampa das pilhas, havia uma segunda placa de plástico, fixada de maneira diferente do restante do brinquedo.

O compartimento escondido continha um cartão de memória.

Enzo ficou tão quieto que Clara teve vontade de tocar seu braço.

"Foi seu irmão que deu o robô?"

"Uma semana antes de morrer."

Renato ergueu o cartão sem conectá-lo ao computador da mesa.

"Vou levar ao Daniel. Ele trabalha num equipamento separado."

Enzo concordou e pediu cópias preservadas antes de qualquer análise. Clara não compreendeu os termos seguintes, mas acompanhou a mudança em seu rosto.

Era a expressão de alguém que acabara de receber uma carta de um morto.

Quando Renato saiu, ela se aproximou.

"Você quer que eu fique?"

Enzo apoiou o robô aberto sobre a mesa.

"Eu não sei o que vai ter aí."

"Não foi isso que perguntei."

Ele olhou para ela. Por alguns segundos, Clara sentiu que um gesto errado o faria voltar para trás de todas as portas que mantinha fechadas.

"Quero", respondeu enfim.

Ela puxou uma cadeira.

Enquanto esperavam, Enzo contou de Marco. Dois anos mais novo, incapaz de chegar no horário, sempre comprando presentes que faziam barulho. Léo gostava de desmontar coisas com ele.

"Meu irmão prometia que ia ensinar a montar de novo depois. Quase nunca conseguia."

Clara sorriu.

"Talvez fosse por isso que o Léo achava normal um robô perder o braço."

Enzo abaixou a cabeça. Um som curto escapou de sua garganta, perto de uma risada e longe de qualquer alegria.

"Eu briguei com ele na última vez em que conversamos."

Clara não disse que ele não devia se culpar. Sabia o quanto aquela frase podia soar vazia.

"Sobre o quê?"

"Ele disse que eu confiava nas pessoas erradas. Eu achei que estava querendo justificar uma decisão ruim. Marco tinha escondido uma investigação de mim. Eu interpretei como deslealdade."

O silêncio ficou pesado.

"Quando meu pai morreu", Clara disse, "eu estava brava porque ele tinha esquecido de buscar o Caio na escola. Foi uma coisa pequena. Depois, por muito tempo, só conseguia lembrar da minha própria voz no telefone."

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Enzo ergueu os olhos.

"Isso passou?"

"Não de uma vez. Mas comecei a lembrar de outras conversas também. Seu irmão teve uma vida inteira com você antes daquela briga."

Ele respirou fundo, olhando para as peças do brinquedo.

Não houve agradecimento. A mão dele encontrou a dela sobre o braço da cadeira e permaneceu ali.

Os resultados chegaram naquela noite.

Daniel, um homem de óculos e barba curta, explicou que o cartão continha registros, imagens de documentos e gravações feitas por Marco. O material precisava ser conferido, cruzado com dados externos e entregue a pessoas que pudessem agir sem alertar os envolvidos.

Não era uma lista que resolvia tudo num clique.

Mas havia nomes que se repetiam.

Clara observou Enzo abrir uma fotografia de um comprovante. Ele passou para outra imagem, depois para uma tabela.

"Volta", pediu.

Daniel voltou.

Augusto Bellini.

O nome aparecia ligado a uma empresa que recebia pagamentos de intermediários associados às Serpentes de Prata.

Enzo tirou a mão da dela.

Clara sentiu a ausência como uma mudança de temperatura.

"Isso pode ter outra explicação?" perguntou.

"Pode", Daniel respondeu. "Por isso eu ainda estou verificando. Mas há uma gravação."

Marco surgia apenas pela voz. Falava baixo, como se estivesse num carro.

"Enzo, se eu não conseguir falar com você pessoalmente, não deixa o Augusto chegar perto do Léo. Eu descobri como estão usando nossas rotas. Ele sabe que eu descobri."

A gravação terminava abruptamente.

Enzo levou a mão à boca. Clara nunca o vira fazer aquilo. Não chorou, não gritou. O esforço para continuar imóvel era mais perturbador.

Ela esperou Daniel sair antes de se aproximar outra vez.

"Enzo."

"Ele tentou me avisar."

"Tentou."

"E eu mandei que parasse de criar problemas."

A voz dele saiu rouca.

Clara tocou a manga de sua camisa. Ele não se afastou, mas também não a olhou.

"Você pode escutar agora."

Enzo fechou os olhos. A frase ficou entre eles por um tempo.

Depois voltou à mesa e pediu que Renato entrasse. O material seria preservado e analisado fora dos canais habituais da família. Léo não ficaria mais sozinho com visitantes, nenhum visitante, até que soubessem o alcance da ameaça.

Clara percebeu que o sobrenome de Augusto não seria pronunciado diante do menino. Ficou grata por isso.

Antes de sair, perguntou pelo robô.

Renato mostrou o brinquedo remontado. O cartão original ficara sob responsabilidade de Daniel; uma cópia seria guardada em outro local. Nada voltaria para o compartimento.

Clara levou o presente a Léo, que o recebeu com um abraço desajeitado.

"Ele não ficou bravo?"

"Quem?"

"Meu pai. Por causa do segredo."

Ela se ajoelhou devagar.

"Seu pai ficou feliz por você ter contado."

Clara ficou com Léo até Nair chamá-lo para o banho. Quando o menino saiu, ela recolheu os lápis e encontrou uma fotografia antiga dentro do livro de histórias. Marco aparecia com um chapéu de papel torto, enquanto Enzo segurava o filho ainda bebê. O rosto dos dois irmãos tinha a mesma alegria desprevenida.

Ela devolveu a fotografia ao lugar. Não era uma pista, não explicava pagamento nenhum. Mas mostrou o tamanho da vida que havia existido antes daqueles arquivos. Clara entendeu melhor por que Enzo olhara para o cartão como se ele pudesse feri-lo.

Mais tarde, da porta do quarto, viu Enzo sentado junto à cama do filho. O menino dormia. O pai segurava o robô com as duas mãos.

Clara não entrou.

Mas, quando ele levantou o rosto e a encontrou no corredor, não desviou.

A dor que viu ali já não pertencia apenas a ele.

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