"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 5
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O JEITO COMO ELE SEGURAVA O FILHO
Clara deixou a pergunta de Léo existir entre os dois antes de responder.
"Eu vou estar aqui amanhã. E, se alguma coisa mudar, vou conversar com você. Não vou simplesmente desaparecer."
O menino mastigou a borda do biscoito.
"Minha mãe não conversou."
Ela sentiu uma dor que não vinha dos ferimentos.
"Seu pai me contou que ela morreu. Sinto muito, Léo."
"Eu sei que ela não quis ir. A Nair explicou."
Ele parecia cansado de entender uma coisa que continuava doendo.
Clara abriu espaço ao seu lado. Léo se acomodou com cuidado, deixando o robô entre eles.
Ela não disse que tudo ficaria bem. Perguntou como era a mãe dele.
O menino contou que ela fazia vozes engraçadas para os animais dos livros e colocava música no carro. Depois ficou quieto, apoiando a cabeça no braço bom de Clara.
Enzo os encontrou assim. Não entrou na varanda. Pela porta de vidro, ela viu o instante em que a mão dele se fechou ao lado do corpo.
Mais tarde, ele agradeceu por ela ter escutado.
"Você também pode perguntar sobre ela", Clara disse.
"Eu não quero fazê-lo sofrer."
"Ele sente saudade mesmo quando ninguém menciona."
Enzo olhou para o jardim. Clara não insistiu. Já tinha percebido que algumas coisas precisavam chegar até aquele homem sem parecer uma ordem.
A recuperação avançava em pequenas conquistas. Na terceira semana, Clara conseguia caminhar pela varanda sem parar. Ainda precisava de ajuda para lavar o cabelo e odiava pedir.
Numa manhã, Nair precisou atender uma entrega enquanto Clara tentava fechar os botões de uma blusa. O ombro esquerdo protestou. Ela prendeu uma palavra feia entre os dentes.
"Quer que eu chame alguém?"
Enzo estava à porta aberta.
Clara segurou as duas partes da blusa contra o peito.
"Eu achei que conseguia sozinha."
Ele manteve os olhos no rosto dela.
"Posso ajudar com os botões."
A oferta deveria ter sido simples. Não foi.
Clara assentiu, sentindo o coração acelerar de um jeito que a deixou irritada com o próprio corpo. Ele se aproximou devagar. As pontas dos dedos tocaram o tecido sem roçar sua pele.
Isso tornou tudo pior.
Ela conseguia sentir o calor dele, o cheiro limpo da camisa, a concentração exagerada com que fechava cada botão.
"Você parece desarmando uma bomba", murmurou.
Enzo ergueu os olhos.
"Você me avisaria se eu estivesse fazendo errado?"
"Provavelmente com bastante falta de educação."
Ele sorriu. Não apenas com a boca. Clara viu o rosto inteiro mudar, e precisou olhar para o próprio colo.
Quando terminou, ele afastou as mãos imediatamente.
"Pronto."
Ela deveria ter dito obrigada. Em vez disso, perguntou:
"Você sorri tão pouco assim de propósito?"
Enzo ficou parado perto dela.
"Ultimamente eu tenho encontrado mais motivos."
Clara ouviu os passos de Nair antes de descobrir uma resposta.
Naquela noite, uma tempestade atingiu a casa. O trovão a acordou de um sonho confuso, e ela levou alguns segundos para lembrar onde estava.
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Então ouviu o choro.
Léo estava na porta do quarto, de pijama, segurando o robô contra o peito.
"Eu escutei o barulho."
Clara acendeu o abajur.
"Foi trovão. Vem cá."
Ele avançou dois passos e parou, olhando os curativos.
"Eu posso machucar você."
"Podemos sentar na poltrona. Você fica do meu lado direito."
Enzo apareceu antes que ela se levantasse.
"Léo, a Clara precisa dormir."
O menino se encolheu.
Clara viu Enzo perceber o efeito da própria voz. Ele passou a mão pela nuca e se ajoelhou diante do filho.
"Eu falei errado. Você pode me contar o que aconteceu?"
Léo apertou o robô até os dedos ficarem brancos.
"Eu sonhei que ela estava no chão de novo."
Enzo ficou imóvel.
Clara se sentou na beirada da cama. Sentia a cicatriz repuxar, mas não queria chamar atenção para isso.
"Eu estou aqui", disse. "Está vendo? Eu estou falando com você."
Léo assentiu sem convicção.
O pai abriu os braços, hesitante, como se oferecesse alguma coisa que talvez não fosse aceita.
"Você quer ficar comigo?"
O menino lançou um olhar para Clara. Ela assentiu.
Enzo o recebeu contra o peito com um cuidado que quase doeu de assistir. A mão grande percorreu as costas pequenas, primeiro rígida, depois encontrando um ritmo.
"Meu coração está correndo", Léo murmurou.
"O meu também correu naquela noite."
O filho ergueu o rosto, surpreso.
"Você ficou com medo?"
Enzo fechou os olhos por um instante.
"Muito."
Clara percebeu que ele nunca havia dito aquilo ao menino.
Léo escondeu o rosto no pescoço do pai. O choro veio mais alto, menos contido. Enzo o segurou sem mandar parar.
Ficaram os três no quarto até o temporal perder força. Clara contou uma história curta sobre Caio ter tentado criar um sapo dentro de uma caixa de tênis. Léo riu pelo nariz. Enzo perguntou o que acontecera com o sapo.
"Minha mãe encontrou antes do café da manhã. O Caio disse que ele tinha entrado sozinho."
"Parece uma defesa pouco convincente", Enzo comentou.
"Ele tinha cinco anos e muita confiança no próprio argumento."
Léo adormeceu com uma mão agarrada à camisa do pai.
Enzo demorou a se mover. Clara pensou que estivesse esperando o sono aprofundar. Então percebeu que ele simplesmente não queria soltá-lo.
Na manhã seguinte, o menino apareceu mais leve. Pediu ao pai que o ajudasse a escolher uma árvore para um trabalho da escola. Enzo fechou o notebook antes de responder.
Clara observou da mesa, com uma alegria discreta que parecia não caber em seu peito.
À tarde, Léo sentou no tapete enquanto ela organizava os lápis. O robô escorregou de seu joelho, e Clara o segurou antes de cair.
"Ele anda precisando de um capacete."
O menino sorriu, mas logo ficou sério.
"O tio Marco falou para eu não dar ele para ninguém."
Clara pousou o brinquedo.
"Ele gostava muito de você."
"Ele disse que era nosso segredo."
Ela esperou, sem pressionar.
Léo passou o dedo pela tampa das pilhas.
"Eu não posso deixar o tio Augusto pegar. Nem se ele falar que meu pai mandou."
Clara ergueu os olhos para a porta vazia.
O calor tranquilo daquela tarde desapareceu devagar.
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