"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 4

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A ALIANÇA QUE AINDA NÃO EXISTIA

Clara apertou os dedos de Enzo até sentir a própria unha contra a pele dele.

Augusto olhou para a mão sem aliança.

"Sua esposa? Isso é uma surpresa."

"Nós preferimos manter algumas coisas em particular", Enzo respondeu.

Clara sentiu a náusea subir. Poderia desmenti-lo diante de todos. Então viu o sorriso desaparecer do rosto de Augusto, substituído por uma atenção fria que não existira quando ele a chamara de funcionária.

"Gostaria de ter sabido antes", ela disse, olhando para Enzo, "que nossa vida seria assunto desta visita."

Ele recebeu o aviso sem piscar.

"Você tem razão."

Augusto retomou o sorriso, mas recuou meio passo.

"Nesse caso, felicidades aos dois. Espero que saibam o que estão fazendo."

Quando a porta se fechou atrás dos visitantes, Clara soltou a mão de Enzo.

"Você vai me explicar agora."

Ele pediu por telefone que ninguém os interrompesse. O tom de comando fez a raiva dela crescer.

"Eu não sou um dos seus homens."

"Eu sei."

"Então não me responda como se eu tivesse de ficar quieta porque você decidiu alguma coisa."

Enzo passou a mão pelo rosto. Parecia mais velho quando fazia aquilo, menos intocável.

"Meu tio estava tentando estabelecer que você era uma pessoa de fora, alguém que podia ser afastada sem perguntas. Eu não podia deixar aquela ideia circular entre os homens que estavam com ele."

"Você podia ter dito que eu sou sua convidada."

"Convidados vão embora. Família implica uma responsabilidade pública. Eles vão observar o que acontece com você."

"Atiraram no seu filho, Enzo. Eu não acredito que uma palavra me deixe invulnerável."

Ele se aproximou, parando quando ela recuou na cadeira.

"Não deixa. Eu quis aumentar o custo de alguém tocar em você. E dar outra explicação para o motivo de mantê-la perto."

Clara demorou a entender.

"Você não quer que saibam que estou aqui como testemunha."

"Não quero que tentem descobrir o que você contou."

Ela se lembrou do uniforme branco, da serpente, da fotografia do irmão. O corpo reagiu antes que a cabeça acompanhasse. Um tremor percorreu suas mãos.

Enzo viu. Não tentou abraçá-la.

"Eu devia ter conversado com você antes."

"Devia."

Ele aceitou a palavra sem procurar desculpas.

Clara fechou os olhos por um instante. Queria sair daquela sala, daquela casa, da vida que uma noite tinha virado do avesso. Queria também que ele se sentasse perto e dissesse que ela não precisaria enfrentar tudo sozinha.

O conflito a deixou ainda mais irritada.

"Se eu sustentar essa história, vai ser com condições."

"Eu estou ouvindo."

"Meu irmão não faz parte de nenhuma negociação. Você não usa dinheiro para me fazer concordar. E não anuncia casamento de verdade sem que eu saiba."

Enzo apoiou as mãos no encosto de uma cadeira.

"Não existe casamento registrado. Eu não vou fabricar documento nenhum."

"E dentro desta casa?"

"Seu quarto continua sendo seu."

Ela sentiu o rosto esquentar por ter pensado na pergunta seguinte. O homem notou, e alguma coisa em sua expressão se alterou.

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"Eu não estava perguntando isso", ela disse depressa.

"Eu achei melhor responder mesmo assim."

Pela primeira vez desde a visita, Clara quase riu.

Quase.

"Eu quero saber o que vamos dizer ao Léo."

A atenção dele mudou de lugar.

Conversaram até a luz começar a cair. Concordaram em não prometer ao menino uma permanência que ainda não existia. A história pública precisava ser simples; em casa, ninguém o obrigaria a chamar Clara de mãe.

Enzo contou que a família mantivera antigas alianças com homens ligados ao símbolo da serpente. A ruptura envolvia rotas de transporte, lealdades compradas e pessoas que ele ainda tentava identificar.

Clara não pediu uma aula sobre os negócios. Perguntou se o homem que atirara estava preso.

"Ainda não."

A sinceridade doeu, mas ela preferiu ouvi-la.

Quando Caio voltou da escola, Clara chamou o irmão antes que escutasse a novidade de outra pessoa.

Ele permaneceu em silêncio durante a explicação. Depois olhou para Enzo.

"Se ela disser que quer sair, você vai deixar?"

Enzo não pareceu gostar do verbo.

"Eu vou providenciar um lugar seguro."

"Foi outra coisa que eu perguntei."

Clara tocou o joelho do irmão. Ele não recuou.

Enzo sustentou a hostilidade com uma calma que ela começava a reconhecer como esforço.

"Eu não vou impedir sua irmã de sair."

Caio assentiu devagar, como quem guardava uma promessa para cobrar depois.

Antes de dormir, Clara encontrou no bolso do avental trazido do hospital um recibo amassado. Era a lista de compras que fizera antes do turno: arroz, sabonete, pão para o Caio. Passou os dedos sobre a letra inclinada, reconhecendo uma mulher que, poucos dias antes, acreditava saber qual seria seu maior problema na sexta-feira.

Guardou o papel na gaveta. Não queria perder aquela parte de si dentro da casa de Enzo. Podia sentir medo, aceitar ajuda e até gostar da presença dele. Ainda precisava continuar sendo a pessoa que sabia como o irmão tomava café.

Na manhã seguinte, uma caixa pequena apareceu sobre a mesa do quarto. Clara a levou fechada ao escritório.

"Você não aprende?"

Enzo levantou os olhos dos papéis.

"Abre primeiro. Depois decide se quer me devolver."

Havia uma aliança lisa dentro da caixa, sem diamante, sem espetáculo.

Clara a segurou entre os dedos.

"Foi sua assessora que escolheu?"

"Eu escolhi."

"Por quê essa?"

Ele olhou para sua mão.

"Você mexe nela quando está nervosa. Uma pedra grande ia prender no curativo."

Clara ficou sem resposta. Não lembrava de ter percebido o próprio gesto. O fato de ele ter observado tornou a aliança mais perigosa do que qualquer joia extravagante.

"Você pode usar só quando houver visitas", ele acrescentou.

Ela deixou a caixa sobre a mesa, mas não retirou a aliança da mão.

Mais tarde, Léo encontrou-a na varanda. Trazia um biscoito partido em dois.

"A Nair disse que vocês casaram."

Clara pousou o livro que não conseguira ler.

"Seu pai e eu estamos cuidando de algumas coisas juntos."

O menino olhou para o anel.

"Você vai dormir no quarto dele?"

Ela tossiu e se arrependeu imediatamente da dor.

"Vou continuar no meu quarto. Ainda preciso descansar bastante."

Léo aceitou aquilo com facilidade. Estendeu metade do biscoito.

"Eu posso continuar vindo aqui?"

"Pode."

Ele ficou encostado na cadeira, sem comê-lo.

"Se você é esposa do meu pai..."

Clara esperou.

O menino baixou os olhos para a própria mão.

"Quer dizer que você não vai mais embora?"

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