"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 3

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ELA É MINHA ESPOSA

Clara tentou ligar para o número da fotografia. Enzo cobriu a tela com a mão antes que ela completasse a chamada.

"Não responde. Eu preciso preservar a mensagem."

"É meu irmão na foto."

"Eu sei."

"Você não sabe como é ver isso."

A expressão dele mudou. Clara se arrependeu antes que Enzo precisasse olhar para a cadeira onde Léo estivera sentado na véspera.

"Desculpa", ela disse, com a voz falhando.

Ele tirou a mão do aparelho.

"Você não precisa pedir desculpa por estar com medo."

Caio permaneceu ao lado da cama. Tentava parecer tranquilo, mas sacudia uma perna sem perceber.

Enzo explicou o que podia oferecer: uma casa protegida, transporte para a escola, acompanhamento durante a recuperação. Não prometeu que bastava fechar um portão para o mundo ficar seguro.

"E quando eu puder trabalhar?" Clara perguntou.

"Nós conversamos de novo."

"Eu não quero que conversemos só quando você decidir."

Enzo sustentou o olhar dela.

"Então me diga suas condições."

Caio ergueu o rosto, surpreso.

Clara pediu que o irmão mantivesse o telefone e as chaves, que ninguém o tirasse da escola sem avisar, que ela soubesse quem entrava no quarto. Acima de tudo, queria ser informada quando uma ameaça dissesse respeito aos dois.

"Eu não posso proteger o Caio de uma coisa que você esconde de mim."

"Está bem", Enzo respondeu.

Ela procurou qualquer sinal de impaciência. Encontrou apenas aquela atenção difícil de suportar, como se ele estivesse aprendendo seu rosto.

A alta veio alguns dias depois. Clara saiu do hospital devagar, protegendo o lado do corpo a cada movimento. Enzo não tentou carregá-la. Ofereceu o braço e esperou que ela o aceitasse.

No carro, uma freada leve a fez prender a respiração. Ele percebeu e ordenou ao motorista que diminuísse ainda mais.

Clara olhou pela janela para esconder o efeito que aquele cuidado teve sobre ela.

A propriedade ficava numa área arborizada nos arredores de São Paulo. Não era a casa ostensiva que imaginara. Tinha paredes claras, janelas grandes e um jardim tão bem cuidado que ela pensou nas horas de trabalho necessárias para mantê-lo.

Dona Nair, a governanta, recebeu os dois na entrada.

"Seu quarto fica no térreo. Nada de escada por enquanto. O do Caio é ao lado."

O irmão passou os olhos pelo hall, desconfortável.

"A gente vai sujar esse piso."

Nair olhou para os tênis dele.

"O piso aguenta. Quero ver você aguentar meu arroz sem repetir."

Clara quase chorou por causa daquela frase comum.

Léo apareceu depois do almoço. Trouxera o robô de volta para casa numa bolsa e um desenho que não mostrou imediatamente.

"Você vai dormir aqui hoje?"

"Vou."

"E amanhã?"

"Amanhã também."

Ele pareceu fazer uma conta em silêncio.

"Eu posso vir depois da escola?"

Clara disse que sim. O sorriso veio pequeno, desconfiado, como um bichinho saindo da toca.

Enzo entrou quando Léo já estava sentado no tapete. O menino endireitou a coluna e tirou os lápis da cama.

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"Não precisava recolher", Clara disse.

"Ele precisa deixar você descansar", o pai respondeu.

Léo começou a guardar tudo.

Clara esperou que ele saísse com Nair antes de olhar para Enzo.

"Você viu o que aconteceu?"

"Meu filho obedeceu."

"Seu filho estava feliz. Você entrou e ele achou que estava fazendo alguma coisa errada."

A mandíbula do homem endureceu.

Clara sentiu medo, mas continuou.

"Eu não estou dizendo que você não cuida dele. Estou dizendo que ele não sabe quando pode relaxar."

Enzo foi até a janela.

"Minha mulher morreu quando ele tinha quatro anos. Marco morreu depois. Eu quase perdi meu filho num salão cheio de seguranças."

Era a primeira vez que ela ouvia o nome do irmão dele.

"Deve ser assustador", respondeu.

Ele riu sem humor.

"Você está escolhendo uma palavra educada."

"Eu estou tentando imaginar como é. Mas ele também está com medo. E só tem seis anos."

Enzo permaneceu de costas. Clara pensou que o havia ofendido demais.

Então ele perguntou:

"O que eu deveria ter feito?"

A honestidade da pergunta desarmou qualquer resposta preparada.

"Podia ter perguntado o que ele estava desenhando."

Naquela noite, Clara ouviu a voz de Enzo no quarto ao lado da sala. Ele perguntava por que o dinossauro tinha asas. Léo explicou por quase cinco minutos.

Ela sorriu sozinha, depois apertou uma almofada contra o corpo para tossir sem tanta dor.

Ao longo da semana seguinte, Enzo passou a fazer refeições com eles. Caio continuou desconfiado, mas discutiu futebol com o motorista e aceitou a segunda porção de Nair. Clara começou a reconhecer o ruído dos passos do dono da casa antes de vê-lo.

Foi num desses fins de tarde que Augusto Bellini chegou.

O tio de Enzo tinha cabelos prateados e um sorriso que parecia ensaiado para fotografias. Trouxe flores, beijou a mão de Clara e perguntou por sua recuperação com delicadeza perfeita.

"Você causou uma impressão enorme nesta família."

"Eu só queria que o menino ficasse bem."

"Claro. Mas imagino que esteja ansiosa para retomar sua vida. Enzo às vezes confunde gratidão com responsabilidade eterna."

Clara sentiu a velha vergonha de ocupar um lugar onde alguém achava que ela não pertencia.

Augusto olhou para o tapete.

"Léo ainda anda com aquele robô? Depois de tudo, eu teria jogado o brinquedo fora."

Ela ergueu os olhos.

"Por quê?"

"Deve lembrar o ataque. Ainda bem que ficou em casa durante o hospital."

Clara sabia que o robô passara dias em sua mesa de cabeceira. Antes que respondesse, Enzo apareceu na porta com dois homens mais velhos, que Clara reconheceu de uma reunião anterior.

Augusto abriu os braços.

"Eu dizia à nossa convidada que ela não deve se sentir obrigada a ficar. Podemos resolver uma compensação generosa, ajudá-la a sair discretamente dessa confusão."

Enzo ficou muito quieto.

Clara detestou perceber que esperava pela resposta dele. Não precisava que aquele homem rico a defendesse de uma grosseria polida. Ainda assim, a possibilidade de ouvi-lo concordar doía.

Ele atravessou a sala e parou ao lado de sua cadeira.

"A permanência da Clara não está em discussão."

Augusto sorriu.

"Não quis ofender sua funcionária."

Enzo estendeu a mão. Clara a segurou antes de compreender por quê.

Os dedos dele se fecharam em torno dos seus.

"Ela não é minha funcionária."

A sala pareceu suspender a respiração.

Enzo olhou diretamente para o tio.

"Ela é minha esposa."

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