"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 1

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ELE ESTAVA MIRANDO NO MENINO

O homem de uniforme branco não olhava para as taças vazias. Olhava para o menino debaixo da mesa.

Clara Martins parou com a jarra de água suspensa sobre uma bandeja. Conhecia todos os funcionários escalados para aquela noite no Hotel Beaumont. Conhecia até os temporários, porque passara a primeira hora do turno ensinando a dois deles onde ficavam as copas.

Aquele homem não era um deles.

Ele ajeitou o punho da camisa. A luz do lustre bateu numa abotoadura de prata: uma serpente enrolada numa adaga. Ao perceber que Clara observava, puxou a manga do paletó sobre o metal.

O gesto fez sua nuca arrepiar.

Do outro lado do salão, Léo Bellini coloria um dinossauro junto ao robô vermelho e azul que ela acabara de consertar.

Vinte minutos antes, ele surgira atrás de sua bandeja.

"Você pode me ajudar?"

Clara quase respondera que os doces seriam servidos depois do discurso. Então vira a mão pequena fechada em torno de um braço de plástico.

"O que aconteceu com ele?"

"Ele caiu."

A voz do menino fora tão baixa que ela precisara se agachar.

"Você caiu também?"

Léo balançara a cabeça. Tinha cachos escuros, uma gravatinha ligeiramente torta e a expressão de quem esperava levar bronca por ocupar espaço.

Clara conhecia aquela expressão. Caio a usara durante meses depois do enterro da mãe, sempre que precisava pedir alguma coisa que custasse dinheiro.

Ela apoiara a bandeja e se ajoelhara ao lado da mesa.

"Então vamos cuidar só do paciente de plástico. Cadê o resto dele?"

Léo apontara para a toalha. Debaixo dela, entre sapatos caros e pernas de cadeiras, o robô esperava deitado de barriga para cima.

Clara encaixara o braço com um pequeno estalo.

"Pronto."

"Você consertou ele."

"Ele só precisava de ajuda."

O sorriso que recebera fora rápido e inteiro. Um instante depois, desaparecera.

Clara não ouvira Lorenzo Bellini se aproximar. Apenas sentira o salão mudar ao redor deles, como se as conversas recuassem para lhe abrir caminho.

"Léo, eu pedi que ficasse perto de mim."

O menino se levantara imediatamente.

"Eu estava aqui, pai."

A mão de Enzo pousara no ombro do filho. Clara notara primeiro os dedos longos, depois o relógio discreto, por último a tensão que atravessara os ombros pequenos sob aquele toque.

"Obrigado", ele dissera a ela.

Tinha uma voz baixa, sem a pressa de quem precisava se fazer obedecer. Os olhos escuros demoraram um segundo em seu rosto. Clara sentira um calor absurdo no pescoço e odiara percebê-lo.

"Não foi nada."

Enzo levara o menino de volta à mesa. Ela observara os dois e pensara que aquele homem parecia capaz de comprar um prédio para proteger o filho, mas não de perguntar por que ele estava triste.

Agora o desconhecido avançava na mesma direção.

"Clara, a mesa doze está esperando."

O supervisor tocou seu cotovelo. Ela não tirou os olhos do uniforme branco.

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"Quem é aquele funcionário?"

"Deve ser do reforço."

"Eu treinei o reforço. Ele não estava lá."

"Não começa a inventar problema no meio do evento."

O supervisor se afastou. Clara procurou um segurança.

Dois homens de Bellini estavam perto da entrada principal. Outro acompanhava alguém até o corredor. O quarto falava ao telefone, virado para uma porta lateral.

Ninguém olhava para o serviço.

O estranho não carregava bandeja. Não pedia licença. Caminhava entre os convidados mantendo o cotovelo direito colado ao corpo.

Clara abriu a boca para chamar alguém. Nesse instante, ele puxou a arma.

A primeira coisa que pensou foi em Lorenzo Bellini.

A segunda foi que estava errada.

O cano desceu, buscando o espaço sob a toalha, onde Léo segurava o lápis verde.

Clara deixou a jarra cair.

O vidro explodiu no mármore.

"Abaixa!"

A palavra se perdeu na música. Ela largou a bandeja, tirou os pés dos sapatos que prendiam seus tornozelos e correu.

O menino ergueu o rosto.

Houve um clarão.

Clara se lançou sobre ele antes de entender o primeiro estampido. Seu ombro bateu na quina da mesa. O segundo tiro atravessou o salão quando ela já puxava o corpo pequeno contra o próprio peito.

O terceiro veio com uma dor quente que a fez perder o ar.

Caíram juntos.

Léo gritou dentro de seu abraço.

Ela tentou se dobrar mais ao redor dele. A mão esquerda não respondeu como deveria. Havia um zumbido em seus ouvidos, cadeiras tombando, o cheiro de pólvora misturado ao perfume de flores.

Um sapato surgiu perto de seu rosto. Outro homem se inclinou para alcançar o robô, mas alguém o atingiu antes. Clara viu a mão vazia desaparecer entre as pernas dos convidados.

"Não solta", sussurrou para Léo, sem saber se falava dela ou do brinquedo.

O menino apertou os dedos em seu avental.

Ela quis dizer que tudo ficaria bem. Não conseguiu mentir com a voz. Então encostou os lábios nos cachos dele e tentou respirar.

Enzo apareceu de joelhos no mármore.

"Léo. Olha para mim."

Clara reconheceu a voz, mas havia alguma coisa partida dentro dela agora.

O menino levantou a cabeça. Um dos seguranças o examinou às pressas. Enzo passou as mãos pelo filho como se precisasse contar cada parte dele.

"Ele está machucado?" Clara perguntou.

Enzo olhou para ela.

Abaixo do paletó aberto, a camisa dele tinha uma mancha vermelha. Por um instante, Clara achou que também estivesse ferido. Só depois percebeu que o sangue era dela.

"Meu filho está bem."

Ela fechou os olhos, aliviada de um jeito quase doloroso.

"Então pega ele."

"A ambulância está vindo."

"Não deixa ele olhar."

Enzo entendeu. Virou o corpo do menino para um segurança, escondendo o uniforme ensanguentado com o próprio paletó.

Léo começou a chorar mais alto.

"Eu quero ficar com ela."

"Você vai vê-la de novo", Enzo respondeu.

Clara tentou respirar fundo e uma pontada lhe cortou o lado. A mão de Enzo pressionou alguma coisa contra sua ferida. Ela agarrou o pulso dele com o pouco de força que restava.

"Meu irmão..."

"Qual é o nome dele?"

"Caio. Ele está sozinho em casa."

O teto se afastava. Clara tinha a impressão absurda de que os lustres estavam subindo.

"Eu vou encontrar seu irmão."

"Ele precisa..."

Ela não conseguiu terminar. Pensou na marmita na geladeira, no dinheiro da passagem separado num pote, na mensagem que ainda não respondera. Caio perguntara se podia comer o último pedaço de bolo.

Precisava dizer que sim.

Precisava voltar para casa.

O medo chegou inteiro naquele momento. Não era heroína nenhuma. Tinha vinte e quatro anos e queria a própria cama, o riso do irmão, mais uma manhã comum.

"Eu não quero morrer", disse, quase sem som.

O rosto de Enzo se aproximou. Ele segurou sua mão livre com firmeza.

"Olha para mim, Clara."

Ela não lembrava de ter contado seu nome.

"Não fecha os olhos. Fica comigo até a equipe chegar."

Atrás dele, uma abotoadura de prata estava caída perto da toalha arrancada. A serpente brilhava entre os cacos.

Clara tentou apontar.

"Era dele."

Enzo acompanhou seu olhar. Quando voltou a encará-la, o medo em seu rosto havia ganhado uma coisa mais escura.

Mas a mão ao redor da dela permaneceu cuidadosa.

"Eu vi", disse ele. "Agora fica comigo."

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