"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 10

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PELA PORTA DA FRENTE

O resultado do exame de paternidade tinha chegado semanas depois daquele primeiro encontro. Abri o envelope com Helena sentada ao meu lado, enquanto Sofia desenhava no quarto.

Nós já sabíamos o que esperávamos encontrar. Mesmo assim, ao ver a confirmação, tive que apoiar as mãos nos joelhos.

Helena me deixou alguns minutos. Depois chamou a filha.

Sofia examinou a folha sem entender quase nada e perguntou se precisava trocar de nome.

"Só se você quiser acrescentar o meu", respondi. "Não precisa tirar o da sua mãe."

Ela pensou no espaço disponível nas etiquetas dos cadernos.

"Vou ter que escrever tudo nas provas?"

Helena riu. Eu aprendi naquele dia que uma notícia capaz de me mudar por inteiro podia ser, para minha filha, também um problema de caligrafia.

Guardamos o exame. As providências seguintes vieram com documentos, horários e pessoas que sabiam explicar cada etapa. Eu compareci a todas. Não mandei um representante para ocupar o lugar que perdera durante seis anos.

A questão dos sete por cento demorou mais. Helena escolheu profissionais sem ligação com a família, conferiu os registros e recebeu as explicações que lhe tinham sido negadas. Quando a titularidade foi finalmente regularizada, ela apareceu na minha sala com uma pasta azul e um cansaço que conhecia bem.

"Eu quero continuar dando aula", avisou antes que eu dissesse qualquer coisa.

"Você escolheu um péssimo lugar para anunciar isso. Eu não tenho piano aqui."

Ela sorriu e sentou diante de mim.

A renda que passou a receber lhe permitiu organizar a vida sem esperar pelo próximo cancelamento de aluno. Reservou parte para Sofia e decidiu apoiar um pequeno projeto de ensino de música. Não doou tudo para provar que merecia o que era seu. Comprou sapatos, consertou o carro usado e passou a dormir sem calcular o preço do café da manhã.

Eu acompanhei essas mudanças sem receber o crédito por elas. Aprendi que podia fazer parte da felicidade de Helena sem ser seu autor.

Nico deixou a empresa. A revisão dos arquivos continuou com outras pessoas, e ele respondeu às perguntas por escrito quando necessário. Não o recebi em casa. Não pedi que Helena aceitasse um encontro para aliviar minha própria dificuldade de cortar laços.

No aniversário de Sofia, chegou um cartão dele. Mostrei primeiro à mãe. Ela decidiu guardar até que a menina fosse mais velha e pudesse compreender de quem vinha. Meu primo não ganhou um lugar à mesa apenas por se arrepender.

Clara e Helena voltaram a conversar em visitas curtas. Às vezes uma delas precisava ir embora antes do café. Outras vezes, acabavam fazendo almoço. Eu nunca perguntei se estavam finalmente bem; podia ver que as duas ainda procuravam um jeito de ficar na mesma sala sem se defender de tudo.

Júlio se submeteu à confirmação da paternidade com Helena, a pedido dela. Quando a resposta chegou, ele não perguntou se agora podia ser chamado de pai. Começou a aparecer nos dias combinados, trazendo um livro ou pão da padaria, e foi aprendendo a fazer parte da vida dela sem cobrar intimidade.

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Numa dessas visitas, ouvi Helena chamá-lo da cozinha para ajudá-la com uma prateleira. Ele se levantou tão depressa que quase derrubou o café. Eu fingi não perceber o brilho nos seus olhos.

Quanto a mim, passei a ter uma escova de dentes no banheiro dela e brinquedos no banco de trás do carro. Minhas reuniões ganharam limites. Algumas noites ainda trabalhei demais. Helena dizia quando isso a incomodava, e eu tive que aprender a escutar sem transformar cada conversa numa negociação.

Perto de completar um ano do nosso reencontro, ela me encontrou diante do piano antigo. Eu examinava o pedaço de acabamento que voltara a se soltar.

"Se sugerir jogar fora, eu termino com você", avisou.

"Eu estava pensando em chamar alguém para restaurar."

Ela encostou no instrumento, interessada apesar de si mesma.

"Sem trocar as teclas."

"Vamos perguntar o que é possível."

Helena me olhou. Sorriu devagar, como se a maneira de formular a proposta tivesse sido parte do presente.

Naquela noite, Sofia dormiu na casa de Clara, numa visita que as duas esperavam havia semanas. Ficamos sozinhos depois de lavar a louça. Helena me entregou um prato molhado e reclamou que eu sempre deixava água perto do fogão.

Eu coloquei o prato no escorredor e tirei uma pequena caixa do bolso.

Ela parou com a mão dentro da pia.

"Matteo."

"Eu pensei em preparar um jantar. Depois achei que você ia desconfiar antes da entrada."

Helena riu, mas seus olhos já começavam a brilhar.

Abri a caixa sobre a bancada.

"Eu quero morar com vocês. Quero discutir o lugar das coisas e ser obrigado a aprender outra receita porque a Sofia enjoou de macarrão. Quero envelhecer ouvindo você tocar."

Minha voz falhou no fim. Helena secou as mãos, demorando em cada dedo.

"Você está me pedindo para casar?"

"Estou tentando. Você vai deixar eu terminar?"

Ela assentiu, mordendo o lábio para conter o sorriso.

Peguei sua mão.

"Helena Duarte, você quer se casar comigo?"

"Quero."

A resposta veio antes que eu tivesse tempo de me preparar para ela. Fiquei olhando seu rosto até que ela puxou a caixa para mais perto.

"Mas eu continuo escolhendo onde pendurar o pano de prato."

Coloquei o anel em seu dedo e a beijei, rindo contra sua boca.

Casamos alguns meses depois, no jardim da casa de Clara. Sofia levou as alianças numa almofada que insistira em decorar sozinha. Salvador ficou encarregado de segurar o urso e passou a cerimônia com uma expressão feroz, como se alguém pudesse roubá-lo.

Júlio se sentou ao lado de Clara. Eu não sabia o que os dois ainda tentariam construir. Naquele dia, bastava que estivessem ali sem esconder de Helena o passado que dividiam.

Quando terminou a cerimônia, Sofia puxou minha mão.

"Agora a mamãe também vai ter que fazer prova?"

Demorei um segundo para entender.

"Que prova?"

"A de família. Igual você."

Helena se abaixou ao nosso lado.

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"Acho que eu já moro com a examinadora há tempo suficiente."

Sofia considerou aquilo e decidiu que sim. Depois saiu correndo porque tinham colocado docinhos na mesa.

Na segunda-feira seguinte à nossa pequena viagem, as duas vieram comigo à torre. Helena tinha uma aula mais tarde. Sofia queria conhecer a sala em que eu trabalhava e verificar se os lápis de cor prometidos realmente existiam.

Antes de entrar, a menina parou diante do vidro. Eu também parei.

Ela usava tênis novos. O urso continuava com a orelha remendada. Havia escolhido segurá-lo com a mão esquerda para deixar a direita livre para mim.

"Foi aqui que eu fiquei esperando", disse, apontando a área perto da recepção.

Olhei para o espaço. Lembrei da minha pressa, do joelho no chão frio, da sacola de comida que ela tentara guardar para a mãe.

"Eu lembro."

Sofia ergueu o rosto.

"Você achou que eu estava inventando?"

Abaixei até ficar à sua altura.

"Eu fiquei assustado. Depois você disse o nome da sua mãe, e eu quis ouvir tudo."

Ela me examinou por um instante, procurando alguma coisa que apenas crianças sabem procurar nos rostos dos adultos.

"Eu não vou mais vir sozinha", prometeu.

Apertei sua mão.

"Eu venho buscar você."

Helena passou os dedos pelos meus cabelos ao se aproximar. Levantei, e ela segurou meu outro braço.

A recepcionista sorriu quando atravessamos a porta. Um segurança cumprimentou Sofia pelo nome. A menina respondeu com toda a seriedade de quem tinha assuntos importantes para resolver no andar de cima.

Diante do elevador, ela soltou minha mão para ajeitar o urso no colo.

"Pai, você trouxe a chave da gaveta dos lápis?"

Eu apalpei o bolso.

"Trouxe."

"Então vamos. A mamãe disse que você trabalha muito."

Helena encostou o ombro no meu. As portas se abriram, e Sofia entrou primeiro, esperando que a seguíssemos.

Dessa vez, ela não precisou chamar por mim no meio do saguão.

Eu já estava ao seu lado.

FIM

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