"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 9
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A PRIMEIRA FILEIRA
Dormi numa poltrona com uma mola quebrada. Às seis e quarenta, Sofia tocou meu joelho com o urso.
"Você faz barulho dormindo."
Abri os olhos. Ela estava de uniforme, o cabelo preso de um lado e solto do outro.
"Bom dia para você também."
"A mamãe falou para deixar você dormir. Mas eu achei que você ia perder a escola."
Levei alguns segundos para lembrar que tinha prometido acompanhá-las. Levantei depressa demais e senti o pescoço reclamar.
Na cozinha, Helena segurava uma escova de cabelo e tentava não rir.
"Você pode desistir. Eu explico à coordenação."
"Não vou desistir. Só preciso descobrir se consigo virar a cabeça para a esquerda."
Sofia me acompanhou até a pia para supervisionar o café. Clara já tinha ido embora com Salvador, depois de combinar que voltaria para conversar com a filha em outro dia. Pela primeira vez desde que eu entrara naquela casa, não havia documentos sobre a mesa.
Na escola, Helena pediu explicações com uma firmeza que eu conhecia de quando ela discutia comigo sobre horários de trabalho. A direção reconheceu a falha na saída e estabeleceu com ela uma entrega acompanhada, com os responsáveis confirmados.
Eu fiquei ao lado, respondi quando necessário e aceitei que meu nome só entrasse na lista depois da documentação e da autorização de Helena. Não era algo que meu sobrenome pudesse antecipar.
Sofia esperou no banco do corredor, balançando os pés. Ao sairmos, perguntou se eu iria buscá-la.
"Hoje sua mãe vem", respondi. "Eu volto na sexta para ouvir vocês tocarem."
"Você sabe bater palma baixo? A professora pediu para não assustar a turma pequena."
"Vou praticar."
Naquela semana, descobri que uma criança podia ocupar um calendário sem estar presente. Tudo o que eu fazia encontrava uma hora de saída da escola, um jantar, uma ligação prometida.
Na quinta, Sofia me telefonou para perguntar se meu terno tinha bolso. Precisava que eu guardasse o urso durante a apresentação. Eu disse que tinha dois e ouvi a menina avisar à mãe que o problema estava resolvido.
Na sexta, uma reunião que deveria acabar ao meio-dia se arrastou. Um fornecedor importante queria rever condições que sua própria equipe confirmara na véspera. À uma e vinte, minha assistente deixou um bilhete na mesa.
Saída para a escola: 13h30.
Eu o li e fiz mais uma pergunta ao homem na tela. Depois outra. À uma e quarenta, meu telefone vibrou com uma mensagem de Helena.
Estamos indo. Ela separou uma cadeira para você.
Olhei para o relógio e senti uma pressão no estômago.
"Vamos retomar na segunda-feira", falei.
O fornecedor pareceu não entender.
"Ainda não concluímos."
"Minha equipe continua disponível para receber sua proposta por escrito. Eu tenho outro compromisso."
Desliguei, peguei o paletó e encontrei minha assistente segurando a chave do carro.
"Achei que o senhor pudesse esquecer."
"Eu quase esqueci."
Ela não tentou tornar aquela admissão menos feia. Apenas me entregou a chave.
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O trânsito estava pior do que eu previra. Liguei para Helena do carro parado, informei onde estava e disse que poderia chegar perto do início. Ouvi um silêncio do outro lado.
"Eu não vou dizer a ela que você vem até ver você", respondeu.
"Está certo."
Cheguei com a gravata torta e uma mancha de café na manga. Helena me esperava junto à porta do salão. Não havia tempo para conversar. Ela apenas apontou a cadeira da primeira fileira.
Sofia estava ao lado do piano. Quando me viu, seu corpo inteiro pareceu relaxar. Veio correndo, enfiou o urso na minha mão e voltou antes que a professora precisasse chamá-la.
A música era simples. Helena tocava a parte mais grave, Sofia procurava as notas com cuidado. Num trecho, a menina errou, apertou os lábios e olhou para a mãe. Helena repetiu o compasso. Elas continuaram juntas.
Eu aplaudi baixo, como prometido, com uma vontade absurda de ficar de pé.
Depois, Sofia exigiu saber qual parte eu preferira.
"Aquela em que vocês voltaram e tocaram de novo."
Ela franziu o nariz.
"Mas essa foi a parte errada."
"Eu gostei de ver vocês acertando juntas."
A menina pareceu satisfeita. Foi mostrar o urso a uma colega, e Helena ficou ao meu lado.
"Você chegou", disse.
"Quase me atrasei."
"Eu percebi pelo cabelo."
Passei a mão pela cabeça. Ela riu, mas o riso não impediu o que veio depois.
"Não faça a Sofia esperar sem avisar. Ela vai fingir que não se importa, e eu vou ter que ouvir isso depois que ela dormir."
Assenti. Não pedi reconhecimento por ter cancelado uma reunião.
Nas semanas seguintes, aprendi a sair antes. Aprendi também que Sofia não gostava de ervilha, observava a lua pela janela e fazia perguntas justamente quando eu precisava pensar numa resposta de adulto.
Helena voltou a receber alunos. Uma indicação trouxe outra; não fui eu quem organizou a vida profissional dela. Quando perguntou se eu podia ficar com Sofia durante uma aula noturna, aceitei sem trazer ninguém para resolver por mim.
A menina me ensinou um jogo de cartas e mudou as regras três vezes. Quando Helena entrou na sala, eu estava perdendo de forma humilhante.
"Ela fez isso comigo também", avisou, recolhendo as partituras.
"Você devia ter me contado antes."
"Achei importante vocês se conhecerem melhor."
Três meses depois da primeira visita, Sofia adormeceu enquanto eu lia uma história. Helena e eu ficamos na cozinha, recolhendo duas xícaras e uma caneca infantil.
Ela me observou pendurar o pano no lugar errado.
"Você ainda faz isso."
"O quê?"
"Arruma as coisas onde acha mais bonito, não onde eu consigo alcançar."
Mudei o pano de gancho. Helena se aproximou para pegar o açúcar, e nossos braços se tocaram.
Não foi a primeira vez. Foi a primeira em que nenhum de nós se afastou imediatamente.
"Eu sinto falta de você", falei.
Ela ficou olhando a xícara entre as mãos.
"Eu também. Isso não me deixa menos assustada."
"Comigo?"
Helena assentiu.
"Com gostar de você outra vez do mesmo jeito. Com acordar um dia e descobrir que fui a última a saber de alguma coisa."
Eu podia prometer mil coisas. Naquela cozinha, depois de todos aqueles meses, preferi dizer uma que conseguia cumprir.
"Se algo mudar, você vai ouvir de mim. Mesmo que eu tenha medo da sua resposta."
Ela pousou a xícara. Tocou minha camisa, perto do botão que eu sempre esquecia de fechar, e levantou o rosto.
Esperei até sentir seus dedos me puxarem.
O beijo começou com uma hesitação que eu nunca conhecera nela. Segurei sua cintura sem apertar. Quando Helena encostou a testa na minha, minha mão tremia.
Ela percebeu e entrelaçou os dedos nos meus.
"Dessa vez a gente vai devagar", sussurrou.
Beijei sua mão.
"Mas eu posso voltar amanhã?"
Helena sorriu, com os olhos ainda úmidos.
"A Sofia já separou as cartas."
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