"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 8

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O QUE ERA DELA

"Que participação?", Helena perguntou.

Puxei uma cadeira para perto sem tocar nos documentos. Clara abriu espaço.

Havia correspondências, comprovantes devolvidos e uma relação de bens preparada após a morte de Gabriel. Em uma das páginas, reconheci o nome de uma estrutura patrimonial que eu já vira em relatórios do grupo.

Sete por cento.

Durante anos, aquela parcela aparecera separada, sob administração reservada, ligada a um compromisso familiar antigo. Eu a conhecia como um assunto que os advogados do meu pai resolveriam. Nunca perguntara quem esperava do outro lado.

Helena percebeu minha reação.

"Você sabia?"

"Sabia que a participação existia. Não sabia que tinha ligação com você."

Ela me observou por um instante, depois voltou aos papéis.

Clara contou que, depois do acidente, Vittorio quisera desmontar parte dos negócios. Ficara dias sem aparecer na empresa. Chamara o irmão de fraco na última discussão e não conseguia se livrar da lembrança.

"Ele me chamou para entregar os documentos que eu guardava", ela disse. "Eu fui achando que queria me pressionar outra vez. Encontrei um homem que não dormia e falava em vender tudo sem se importar com quem trabalhava lá."

Meu pai sempre saía inteiro das histórias que os funcionários contavam. Mesmo morto, continuava sendo o homem que nunca vacilara. Ouvir Clara me fez lembrar do copo quebrado, do cheiro de álcool na cozinha e das semanas em que ele não me perguntara sobre a escola.

"Eu disse que destruir a empresa não ia trazer Gabriel de volta", Clara continuou. "Se queria cumprir a promessa feita ao irmão, que começasse por corrigir o que tinha tirado dele."

Júlio examinou uma das folhas.

"Ele reservou parte da participação que Gabriel perdera."

"E vinculou à Helena", Clara confirmou. "O Gabriel tinha pedido que ela não ficasse desamparada. Não por ser filha dele. Porque prometera cuidar dela."

Helena ergueu os olhos.

"E nós contamos moedas para comprar pão."

Clara colocou as mãos sobre o colo.

"Eu devolvi os primeiros pagamentos. Não queria aceitar nada do Vittorio. Quando me mandaram documentos para assinar, recusei."

"Você podia ter recusado por você."

A frase saiu baixa. Clara assentiu, com o rosto molhado.

"Eu sei."

Não havia como transformar aquela escolha numa demonstração bonita de orgulho. A mulher diante de nós amara a filha, trabalhara para sustentá-la e também lhe negara algo importante. Helena parecia tentar acomodar as duas coisas sem diminuir nenhuma.

Quando chegou à correspondência mais recente, reconheceu o próprio nome num aviso enviado quando completara dezoito anos. A cópia indicava uma tentativa de contato pelo escritório da família.

Tirei uma foto e enviei a Marcos. Ele respondeu algum tempo depois, consultando o índice que trouxera da antiga casa: a devolução fora registrada pela área administrada por Nico, com uma anotação de que Clara não desejava contato.

Helena leu a mensagem, fechou a pasta e apoiou a testa na mão.

"Ele nem precisava mais fazer nada. Bastava continuar dizendo o que todo mundo esperava ouvir."

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"Vamos conferir tudo com alguém que você escolha", falei. "Esses papéis precisam ser examinados. Não vou fingir que uma pasta na mesa transfere alguma coisa hoje."

Ela me olhou com desconfiança cansada.

"Eu não quero ficar devendo a você."

"Não está me pedindo nada. Se a participação é sua, eu tenho interesse em que isso seja resolvido direito. Mas você escolhe quem acompanha o processo."

Helena passou o dedo pelo próprio nome.

"Eu quero entender o que aconteceu. Depois decido o que fazer."

"Eu ajudo a conseguir cópias de tudo."

Ela assentiu. Foi uma decisão pequena, tomada sem ninguém falar por ela. Clara permaneceu quieta.

Helena abriu a pasta outra vez e separou uma folha em branco. Pegou uma caneta, anotou três perguntas e parou antes da quarta.

"Eu vou precisar de tempo para entender isso."

"Quanto você precisar", respondi.

Ela apoiou a ponta da caneta no papel.

"Não estou falando só dos documentos. Eu passei anos achando que, se faltasse dinheiro, era porque não estava trabalhando o bastante. Dava aula com febre. Aceitava aluno num horário em que não tinha com quem deixar a Sofia. Quando alguma coisa dava errado, eu achava um jeito de me culpar."

Clara baixou os olhos. Helena não pareceu notar; continuava olhando a folha.

"Hoje eu estou aliviada. E com tanta raiva que nem sei de quem ficar primeiro."

Afastei meu telefone para não interrompê-la.

"Você não precisa escolher agora."

"Nem dizer que está tudo bem?"

Balancei a cabeça. Helena soltou a caneta e esfregou o rosto.

Clara levantou para pegar água. Dessa vez trouxe um copo para a filha e deixou sobre a mesa sem pedir nada em troca. Helena o segurou entre as mãos, mas demorou a beber.

Eu quis tocá-la. Em vez disso, perguntei se preferia que eu fosse embora depois que conferíssemos os papéis.

Ela olhou para o corredor.

"A Sofia vai procurar você de manhã."

"E você?"

Helena me encarou, cansada demais para esconder a resposta atrás de uma discussão.

"Eu prefiro que fique. Só não consigo conversar mais hoje."

Concordei. Naquela hora, ficar na poltrona da sala me pareceu um privilégio maior do que qualquer convite que eu já recebera.

O relógio da cozinha marcava quase duas da manhã. Salvador ofereceu café e recebeu quatro recusas diferentes. Depois perguntou se alguém queria dormir, e ninguém soube responder.

Júlio se levantou para ir ao hotel. Clara o acompanhou até a porta. Não ouvi o que disseram. Vi apenas que ele entregou a pasta de couro e que ela a segurou junto ao peito.

Antes de sair, ele tocou meu ombro.

"Eu devia ter explicado as coisas a você também."

Olhei para a mão dele, marcada por manchas da idade.

"Devia."

Ele aceitou a resposta. Aquela noite não comportava mais reconciliações prontas.

Marcos trouxera da casa o último envelope de Gabriel. Era dirigido a mim, para quando eu fosse adulto e tivesse uma família. Entendi por que Clara pedira que o levasse.

Helena já havia acomodado a mãe no sofá. Sentei à mesa, abri a carta e reconheci a caligrafia inclinada do meu tio, a mesma dos cartões de aniversário que eu guardava numa caixa.

Ele começava fazendo uma piada sobre eu provavelmente ter herdado o mau humor de Vittorio. Ri pelo nariz, e Helena veio sentar na cadeira ao lado.

"Posso?"

Virei a página para que lesse comigo.

Gabriel escrevia sobre meu pai sem tentar destruí-lo. Dizia que Vittorio confundia cuidar com controlar, especialmente quando tinha medo. Pedia que eu não passasse a vida exigindo gratidão de quem amasse. No fim, havia uma lembrança de quando eu era pequeno e esperara por ele no portão, com uma vara de pescar maior do que meu corpo.

Meu tio chegara atrasado. Eu chorara escondido, achando que tinha sido esquecido.

Eu lembrava do passeio. Não lembrava do choro.

Helena pousou a mão perto da minha, sem tocá-la.

"Ela tem uma apresentação na escola na sexta-feira", disse.

Olhei para ela.

"A Sofia?"

"Ela toca uma música comigo. Perguntou a semana inteira se podia chamar alguém."

Pensei na sexta-feira ocupada por reuniões, no calendário que sempre parecera imutável.

"Que horas?"

Helena disse o horário. Tirei o celular do bolso e anotei diante dela.

"Pode dizer que eu vou."

Ela ficou olhando a anotação antes de se levantar. Quando passou por mim, apertou brevemente meu ombro.

Dobrei a carta sem conseguir voltar a ler a última linha.

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