"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 6
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OS ANOS QUE ELE TIROU
Esperamos Sofia dormir profundamente. Helena telefonou para Bete, a vizinha de quem a menina falara no desenho. Embora tivesse se mudado para outro bairro, ela veio assim que soube o que acontecera.
Salvador ficou também. Júlio preferiu esperar no apartamento, disposto a sair se Helena pedisse. Ela apenas disse que não queria mais surpresas naquela noite.
Antes de irmos, Sofia despertou quando a mãe ajeitou a manta.
"Você vai sair?"
Helena passou a mão na testa dela.
"Preciso conversar com uma pessoa. O Salvador e a tia Bete ficam aqui."
A menina me procurou com os olhos.
"Você também volta?"
A pergunta me fez parar junto à porta.
"Volto."
"Mesmo se ficar tarde?"
"Mesmo assim."
Ela estendeu o dedo mínimo para fora da manta. Abaixei e enlacei o meu no dela. Era um gesto desajeitado, e ela precisou girar minha mão para acertar.
No carro, Helena ficou olhando a cidade pela janela. Dei a partida sem perguntar se ela estava bem.
"Quero que ele diga por que me viu chorando e continuou", ela falou depois de alguns minutos.
Eu apertei o volante.
"Eu também quero saber."
A antiga casa ficava nos arredores da cidade. Desde a morte do meu pai, servia principalmente para guardar móveis, documentos e obrigações que ninguém queria assumir. A venda estava sendo preparada havia meses, sob a supervisão de Nico.
Encontramos as luzes da biblioteca acesas. Marcos nos esperava na entrada e ficou no corredor quando passei.
Meu primo estava sentado atrás da mesa de Vittorio. Tirara o paletó. Havia caixas no chão e um copo de água intocado ao seu lado.
"Você trouxe a Helena", ele disse.
Ela avançou antes de mim.
"Você lembra do que me falou na recepção?"
Nico olhou para ela. Seu rosto perdeu o pouco de cor que tinha.
"Lembro."
"Então diga."
Ele se levantou devagar.
"Falei que Matteo estava com outra pessoa. Que você precisava parar de ligar."
"Você disse que eu estava me humilhando. Eu contei que estava grávida. Você olhou para a minha barriga e mandou que eu fosse embora."
Nico apoiou uma mão na mesa.
Eu tive vontade de atingi-lo. A distância entre nós era curta, e conhecia meu próprio corpo o suficiente para saber como aquilo poderia terminar.
Helena percebeu. Não me segurou. Apenas continuou olhando para ele, exigindo a resposta que eu também devia escutar.
"Eu tinha encontrado o arquivo de Gabriel", Nico disse. "Achei que vocês eram primos."
"Por que não me mostrou?", perguntei.
"Porque não sabia como contar. Porque o seu pai tinha construído uma família inteira em cima de coisas que não se podiam dizer, e eu... eu segui o mesmo caminho."
"Você sabia falsificar uma fotografia. Mas não sabia me entregar um papel."
Ele baixou a cabeça.
"Eu sei como parece."
"Não está parecendo nada. Foi o que você fez."
Nico descreveu o telefone deixado no escritório, o acesso às minhas senhas, a viagem de negócios. Enviara a mensagem, bloqueara Helena e apagara as tentativas seguintes. Quando voltei, disse que ela recusara falar comigo e pedira distância.
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Eu me lembrava de ter ido ao prédio onde ela morava. O quarto alugado estava vazio. A dona disse que Helena se mudara. Depois disso, eu aceitara a versão de Nico porque rejeição era uma ferida que conhecia e conseguia esconder.
"E quando soube da gravidez?", Helena perguntou.
Ele demorou a responder.
"Eu achei que já tinha deixado acontecer o que queria impedir. Fiquei com medo. Depois você não voltou."
Helena deu uma risada sem alegria.
"Você garantiu que eu não voltasse."
Nico não tentou negar.
"Eu devia ter procurado vocês."
"Devia ter contado a verdade", falei. "Mesmo que fosse aquela verdade errada. Nós poderíamos ter investigado. Você preferiu deixar uma criança nascer sem pai a admitir o que tinha feito."
Meu primo sentou novamente, mas a cadeira pareceu não oferecer apoio suficiente.
"Eu encontrei as outras cartas agora. Havia um compartimento atrás de um armário. Achei caixas de inventário há seis meses, mas só descobri esse fundo quando removeram o móvel. Gabriel sabia desde o começo. Eu li e entendi que tinha destruído a vida de vocês por nada."
"Não foi por nada", Helena respondeu. "Foi para você não precisar enfrentar o Matteo."
O silêncio depois disso foi longo.
Nico mostrou os envelopes separados. Confirmou ter enviado a carta de Clara a Júlio e devolvido a carta de Vittorio ao cofre, esperando que eu a pedisse. Disse que ensaiara me ligar, mas adiara outra vez.
"Você estava esperando que os papéis fizessem o trabalho por você", falei.
Ele assentiu.
Helena passou a mão pelo rosto. Não chorava. Parecia exausta demais para conceder a ele qualquer coisa, inclusive o espetáculo da própria dor.
Peguei meu telefone e liguei para a responsável pelos acessos corporativos. Determinei o bloqueio imediato das credenciais de Nico e o recolhimento dos aparelhos da empresa, com registro e preservação dos arquivos.
Depois, olhei para ele.
"Você está fora da administração. Amanhã vai formalizar a saída e entregar tudo o que guardou sobre Helena e Clara. Nenhum contato com minha filha sem autorização da mãe dela e minha."
Nico engoliu em seco.
"Entendi."
"Não é uma punição que acaba quando você achar que já sofreu o bastante. Eu não confio mais em você."
Meu primo olhou para Helena.
"Eu não espero que me perdoe."
"Ótimo", ela respondeu. "Porque hoje eu não tenho nada para oferecer."
Ela recolheu uma caixa com cartas da mãe. Ao levantar um envelope mais recente, encontrou uma fotografia de Sofia na saída de uma apresentação escolar. Reconheceu imediatamente o vestido da filha.
O envelope estava endereçado a ela, aos cuidados do escritório da família.
"Por que isso está aqui?"
Nico se inclinou, sem tocar.
"Clara mandou há algumas semanas. Queria que alguém entregasse pessoalmente. Deixei junto das outras coisas."
Helena abriu a carta. Eu li apenas quando ela a virou na minha direção. Clara dizia ter visto meu rosto numa revista e reconhecido o homem da fotografia guardada pela filha. Escrevia que Sofia merecia conhecer o pai, mas que não queria decidir por Helena outra vez.
Havia uma frase sobre um cartão entregue a Sofia para ajudar a iniciar uma conversa com a mãe. Nenhum cartão acompanhava a carta.
"Ela deu outro à Sofia", Helena murmurou. "Minha mãe deu o endereço para a minha filha."
A lembrança da menina atravessando a cidade me fez pegar as chaves.
Antes que alcançássemos a porta, Salvador ligou.
Clara estava no apartamento. Sofia acordara, pedira ajuda a Bete para telefonar à avó e contado que encontrara o pai.
Helena pegou o aparelho da minha mão.
"Diga à minha mãe que estamos voltando. E que desta vez eu vou ouvir tudo."
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