"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 5
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O HOMEM NA PORTA
Júlio demorou quarenta minutos para chegar.
Reconheci a voz pelo interfone, mas o homem que encontrei no corredor parecia ter envelhecido mais do que dez anos. O cabelo estava branco. Ele segurava uma pasta de couro com as duas mãos e não tentou me abraçar.
"Obrigado por atender."
"Helena pediu para ouvir você."
Ele assentiu. Quando passei para o lado e ela apareceu, vi a mão dele apertar a pasta.
"Você se parece com a sua mãe."
Helena não se moveu.
"Todo mundo está dizendo isso hoje."
Júlio baixou os olhos. Eu me lembrava de um homem capaz de sustentar conversas difíceis com a mesma serenidade com que limpava um peixe. Naquele corredor, ele parecia não saber o que fazer com os próprios pés.
"Posso entrar?"
Helena deu passagem. Mantive a porta aberta até que ela voltasse à mesa, então fechei devagar.
Os documentos estavam cobertos por um pano de prato. Uma decisão minha quando Sofia saíra do banho. O absurdo de esconder arquivos de família sob desenhos de galinhas teria me feito rir em outro dia.
Júlio pousou a pasta numa cadeira.
"Recebi uma carta da Clara. Uma carta antiga, que devia ter chegado a mim há muitos anos. Nicolas mandou pelo correio há alguns dias."
"Você é meu pai?", Helena perguntou.
Ele abriu a boca e precisou tentar novamente.
"Acredito que sim. Pela época, pelo que Clara escreveu e pelo que aconteceu entre nós. Mas não quero exigir que você aceite uma carta como prova. Podemos confirmar da maneira que você preferir."
Helena olhou para a cadeira vazia. Só então se sentou.
Júlio permaneceu em pé até que ela apontasse outro lugar.
"Comece pelo que você sabe."
Ele não começou com uma declaração de amor. Começou com um erro.
Anos antes de eu me tornar adulto, trabalhara como advogado de meu pai. Preparara relatórios que faziam a situação da empresa parecer pior do que era. Gabriel vendera parte de sua participação acreditando que ajudava a evitar um colapso. Vittorio, de posse do controle, consolidara a própria posição.
Clara trabalhava no arquivo executivo. Encontrara as versões verdadeiras.
"Ela me deu a oportunidade de corrigir", Júlio disse. "Eu pedi tempo. Depois pedi mais. Quando Vittorio percebeu, começou a me lembrar de tudo que fazia pela minha família."
"E você deixou", falei.
Ele ergueu o rosto.
"Deixei. Eu tinha medo de perder o trabalho, o tratamento da minha mãe, a segurança que construíra para os meus. Na época, usava isso para tornar a minha covardia mais respeitável."
Helena passou a unha por uma marca na mesa.
"Minha mãe estava grávida."
"Nós nos separamos antes que ela me contasse. Quando soube da criança, Gabriel já tinha assumido que cuidaria das duas."
"Por que ele faria isso?"
Júlio olhou para a fotografia.
"Era amigo dela. Gostava dela de um jeito que não sei se algum dia foi correspondido. Sabia que Vittorio podia usar uma criança minha para me manter calado. Fez parecer que o bebê era dele, dentro da família, e disse ao irmão que Clara estava sob sua proteção."
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O plano era imperfeito. Gabriel não tinha o poder do irmão, mas tinha o suficiente para que ninguém quisesse uma briga aberta com ele. Clara saíra da empresa. Os documentos verdadeiros haviam ficado guardados.
"Você sabia que a filha podia ser sua?", Helena perguntou.
Júlio esfregou as mãos.
"No começo, eu quis acreditar que não. Era mais fácil pensar que ela tinha encontrado outra pessoa. Depois Gabriel me contou. Nós nos acertamos. Íamos exigir juntos que Vittorio corrigisse o que tinha feito."
Meu tio morrera antes do encontro.
Júlio descreveu chuva, uma estrada e um caminhão que perdera o controle. Não apareceu um assassino na história. Eu sabia do acidente; lembrava do meu pai recebendo a notícia e quebrando um copo na parede da cozinha.
O que não sabia era o nome do homem que Gabriel pretendia encontrar naquela noite.
"Vittorio me culpou", Júlio continuou. "Eu o culpei também. Clara viu todos nós brigando em cima de uma morte e foi embora."
Helena ficou muito quieta.
"Você tinha dinheiro, contatos, o nome dela. Por que não nos encontrou?"
Ele tirou um envelope da pasta.
"Primeiro acreditei quando seu avô disse que Clara não queria me ver. Depois recebi uma mensagem dizendo que vocês estavam bem e que minha presença faria mal. Procurei por algum tempo, descobri uma cidade, hesitei. Anos depois, parar de procurar tinha virado um hábito que eu não queria encarar."
Helena levantou o rosto.
"Não era meu avô. Era o pai do Matteo."
Júlio fechou os olhos por um instante.
"Você tem razão. Desculpe."
Ela não aceitou nem recusou o pedido. Pegou o envelope e conferiu a letra da mãe.
A carta reconhecia a paternidade, a mentira combinada com Gabriel e o pedido feito a Vittorio para manter Júlio distante. Clara escrevera que pretendia contar tudo quando Helena fosse mais velha. A intenção ficara presa num envelope que ninguém entregara.
"Ela queria que eu soubesse", Júlio disse.
Helena dobrou a folha com cuidado.
"Queria contar um dia. Isso é diferente."
Ele assentiu. Uma lágrima caiu sobre seu polegar. Não a enxugou imediatamente.
Nesse momento, Sofia apareceu no corredor abraçada ao urso. Tinha ouvido vozes e procurava a mãe.
"Ainda tem visita?"
Helena levantou, foi até ela e a pegou no colo. A menina estava pesada para seus braços cansados. Dei um passo, mas ela já se acomodava no sofá.
Júlio olhou para a criança como quem reconhecia um rosto numa fotografia perdida. Sofia percebeu e se escondeu um pouco no pescoço da mãe.
Ele desviou os olhos imediatamente.
"Eu posso ir embora e voltar outra hora."
"Pode terminar", Helena respondeu. "Ela vai dormir de novo."
Sentei na ponta do sofá, afastado o suficiente para Sofia não precisar decidir se me queria perto. Ela estendeu o urso.
"A fita soltou."
Tentei amarrá-la. Meus dedos eram grandes demais. A menina me corrigiu duas vezes, e ouvi Helena soltar o ar devagar.
Ao devolver o brinquedo, encontrei seus olhos. Eu não sabia o que faria com a saudade que sentia de alguém sentado a menos de um metro.
Júlio guardou as mãos entre os joelhos.
"Nicolas me procurou porque achou as cartas verdadeiras durante a preparação da casa antiga para venda. Disse que precisava corrigir uma coisa que tinha feito com vocês."
"Quando encontrou?", perguntei.
"Há duas semanas. Mandou minha carta depois disso."
Naquele instante, meu telefone vibrou. Marcos enviara uma fotografia do carro de Nico diante da antiga propriedade da família.
Mostrei a tela a Helena. Ela beijou o cabelo de Sofia e esperou a menina fechar os olhos antes de responder.
"Eu vou com você. Ele vai ter que olhar para mim quando explicar."
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