"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 4
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A OUTRA VERSÃO
"Espere. Tem outra folha presa aqui."
Helena segurou meu pulso antes que eu fechasse a pasta. Um clipe enferrujado prendia um envelope à contracapa. Havia uma digitalização da carta original, escrita pelo meu pai anos depois daquele registro.
Li a primeira linha em voz alta.
"Gabriel sabia que Helena não era sua filha biológica. O registro interno foi uma forma de proteção e nunca deve ser usado como prova de parentesco."
O rosto de Helena mudou. Arranquei o clipe com tanta pressa que rasguei a margem da cópia.
Continuei lendo. Meu pai nomeava o homem com quem Clara tivera um relacionamento e afirmava, sem deixar espaço para dúvida, que Gabriel não era o pai.
Apoiei a carta na mesa. Helena cobriu a boca com as mãos. Durante alguns segundos, escutei apenas a respiração dela, rápida e irregular.
"Nós não somos parentes", falei.
Ela assentiu, mas demorou para conseguir baixar as mãos.
"Eu pensei na Sofia."
"Eu também."
Não tentei amenizar aquele susto com uma explicação. Peguei água, coloquei o copo diante dela e esperei. Eu mesmo precisava de tempo para parar de enxergar o rosto da minha filha sobre aquela linha do documento.
Helena bebeu um gole. Ao pousar o copo, derramou um pouco na mesa.
"Por que alguém guardaria uma informação falsa junto das verdadeiras?"
"Porque meu pai tinha o hábito de arquivar o que as pessoas precisavam acreditar. Nem sempre era o que tinha acontecido."
Eu conhecia aquele hábito. Em reuniões, ele separava uma pasta para os sócios e outra para si. Quando criança, eu pensara que era uma forma de organização.
Liguei para Marcos e coloquei no viva-voz, depois de verificar que Salvador fechara a porta da cozinha.
"Preciso da origem de cada documento dessa pasta."
"A primeira parte veio de uma seção antiga administrada pelo Nicolas", ele respondeu. "A carta foi registrada no cofre hoje de manhã. Ele deixou instruções para juntá-la ao dossiê se o senhor solicitasse os arquivos de Clara Duarte."
"Você está com o original?"
"Sim. A assinatura corresponde a outros documentos do senhor Vittorio. Posso levar tudo até aí."
"Traga. E não interprete o arquivo antigo como prova de paternidade."
Marcos pareceu compreender, pela minha voz, a gravidade do que acabara de acontecer.
"Vou levar também o inventário de onde cada item saiu."
Desliguei. Helena mantinha os olhos na carta.
"Ele devolveu isso hoje? O Nico?"
"Parece que sim."
"Então sabia que a primeira página ia nos assustar."
Eu não tinha uma resposta que pudesse tornar meu primo menos cruel. Mesmo uma tentativa tardia de reparar o passado vinha acompanhada do impulso de controlar como descobriríamos a verdade.
Helena tocou na assinatura de meu pai.
"Ele morreu antes de a gente se conhecer."
"Onze anos atrás. Essa carta é anterior."
"Então não foi ele quem mandou seu primo me expulsar."
"Não. Nico vai ter que responder por isso sozinho."
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Na cozinha, alguma coisa caiu. Sofia deu uma risada curta, e Salvador anunciou solenemente que o chão também precisava de cenoura. Helena enxugou o rosto antes de a filha espiar pela porta.
"Vocês estão brigando?"
"Não, meu amor", ela respondeu. "Estamos lendo umas coisas antigas."
"A vovó também guarda papel velho. Ela fala que vai arrumar, mas não arruma."
Helena estendeu o braço. Sofia veio até ela e se apoiou em seu ombro. Eu quis fazer perguntas sobre Clara, mas a menina bocejou tão largamente que precisei me conter.
"Você ficou cansada", observei.
"Andei muito."
"E assustou a sua mãe."
Sofia esfregou um olho com o punho.
"Eu já pedi desculpa."
"Eu sei. Amanhã nós vamos conversar com a escola para isso não acontecer outra vez."
Ela me examinou.
"Você vai também?"
Olhei para Helena antes de responder. Ela assentiu devagar.
"Vou."
Sofia aceitou aquilo com um movimento de cabeça e perguntou se havia tempo de jantar antes de dormir. Salvador garantiu que sim.
Durante a refeição, ela falou de uma colega que levava um estojo com senha e não lembrava mais a combinação. Helena riu. Um riso pequeno, cansado, que parou quando nossos olhos se encontraram.
Eu lembrava daquele som num quarto escuro, de madrugada. Agora o ouvia numa mesa com quatro pratos diferentes e uma menina pedindo que eu retirasse as ervilhas do arroz.
Depois do jantar, Helena levou a filha para o banho. Fiquei lavando louça porque não suportava continuar sentado olhando os papéis.
"Você está encharcando a manga", Salvador avisou.
Dobrei o punho da camisa.
"Não começa."
Ele entregou um pano e não disse mais nada. Era a maior gentileza que poderia me fazer.
Marcos chegou quando Sofia já estava de pijama. Conferimos a carta original longe dela. Não havia indicação de sangue Caruso em Helena; havia uma proteção assumida por Gabriel e formalizada apenas dentro da família. O homem que figurava no relato de meu pai era um nome que eu conhecia desde pequeno.
Júlio Moretti.
Meu padrinho.
Eu não o via havia quase dez anos. Nosso último encontro terminara quando ele dissera que eu estava aprendendo depressa demais a parecer com Vittorio. Eu o mandara embora antes de perguntar o que aquilo significava.
Helena me observou.
"Você gosta dele?"
A pergunta me atingiu de um jeito inesperado.
"Gostava. Ele me levava para pescar quando eu era menino. Depois brigou com meu pai, se afastou e... eu fiquei do lado errado sem saber o motivo."
"Você sabe onde encontrá-lo?"
Marcos pigarreou.
"Ele entrou em contato com o escritório hoje à tarde. Disse que estava vindo a São Paulo e precisava falar com o senhor sobre Clara. Eu consegui falar com ele agora há pouco. Está num hotel próximo. Não dei este endereço."
Helena leu o nome outra vez. Seu dedo deslizou pela margem da carta.
"Minha mãe me disse que meu pai tinha ido embora antes de eu nascer."
"Se você quiser, eu peço que ele venha. Se não quiser, a gente espera."
Ela olhou para o corredor onde a filha dormia.
"Eu quero ouvir o que ele tem para dizer. Mas você fica aqui."
Peguei o telefone.
"Eu fico."
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