"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 3

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Liguei para Nico na frente de Helena.

Ele não atendeu. Tentei de novo. Na terceira chamada, ouvi sua voz, cansada e impaciente.

"Estou saindo de uma reunião, Matteo."

"Helena Duarte está comigo."

O silêncio foi tão completo que olhei para a tela, verificando se a ligação continuava ativa.

"Onde você está?", ele perguntou.

"Não é isso que você precisa responder. Por que mandou uma mulher grávida embora do meu escritório?"

Helena se sentou. Os dedos apertaram o celular antigo sobre o colo.

"Nós precisamos conversar pessoalmente."

"Você teve quase sete anos para conversar."

Do outro lado, ouvi um motor.

"Eu não posso explicar agora. Há coisas sobre ela que você não sabe."

Olhei para a mulher na minha frente. Ela mantinha o queixo erguido, mas a mão tremia.

"Então venha explicar para nós dois."

Nico desligou.

Eu continuava olhando para a tela quando Sofia apareceu com uma folha de papel. Havia desenhado três pessoas diante de uma casa. Uma estava riscada.

"Era a tia Bete, mas agora ela mora longe", explicou. "Posso desenhar você no lugar?"

Guardei o telefone antes que minha raiva alcançasse minha voz.

"Pode. Mas talvez eu precise de ajuda com a roupa."

"Você está de preto. É fácil."

Ela se acomodou no chão. Helena acompanhou a cena, depois me olhou de novo.

"Não quero que ela escute uma briga."

"Eu também não."

Mandei uma mensagem para Salvador e saí até o corredor. Pedi que Marcos verificasse os registros antigos de acesso ao meu telefone, as visitas de Helena e os arquivos que Nico administrava. Nada de levar documentos embora sem registrar a origem. Eu precisava saber o que acontecera, não receber uma interpretação conveniente.

Ao voltar, encontrei Helena tentando abrir um pote de achocolatado. Estendi a mão por reflexo.

"Eu consigo."

Soltei o pote. Ela tentou outra vez, suspirou e o entregou para mim.

"A tampa está grudada. Não transforme isso em metáfora."

Foi a primeira vez que quase sorri naquela casa.

Preparei o leite seguindo as instruções de Sofia. Esquentei demais. Helena corrigiu a temperatura, acrescentou um pouco de leite frio e empurrou a caneca para a filha.

"Você tem casa?", Sofia me perguntou.

"Tenho."

"É dentro daquele prédio?"

"Às vezes eu durmo lá."

Ela pensou por um momento.

"Mas lá não tem cozinha."

"Tem uma pequena, no andar de cima."

"E você come sozinho?"

Helena pegou um pano para secar a mesa, embora ela estivesse seca.

"Na maioria dos dias", respondi.

Sofia olhou para a própria caneca.

"Eu não gosto. A mamãe conversa comigo."

Era uma informação simples. Eu não soube o que fazer com ela.

Salvador chegou pouco depois, trazendo uma pasta e uma sacola de mercado. Pediu licença antes de entrar. Helena aceitou os alimentos depois que ele explicou que comprara ingredientes para fazer o jantar ali, para todos.

"Você cozinha?", Sofia perguntou.

"Melhor que o seu pai, ao que parece."

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Meu peito se contraiu ao ouvir aquelas duas palavras na voz de outra pessoa.

A menina me olhou, avaliando a afirmação.

"Ainda não sei se ele pode ser meu pai direito."

"Como funciona essa avaliação?", perguntei.

"Tem que voltar. E não pode fazer a mamãe chorar."

Helena parou junto à pia.

"Sofia, adultos às vezes choram por coisas que as crianças não precisam resolver."

A menina enrolou uma ponta do guardanapo.

"Eu sei. Mas eu escuto."

Sentei perto dela. Não tentei prometer o que não poderia controlar.

"Você não precisa cuidar de nós dois. Hoje eu posso ajudar com o jantar."

"E no meu aniversário?"

"Se você quiser que eu vá, eu vou."

Ela ergueu os olhos.

"Eu quero. Você perdeu seis."

"Eu sei."

Só não sabia como continuar respirando enquanto ela me oferecia, sem compreender, uma coisa que ninguém poderia comprar.

Mais tarde, Salvador entreteve Sofia na cozinha. Helena abriu a pasta comigo na mesa. Eu não pretendia investigar a vida dela pelas costas. Disse isso antes de tocar nos documentos.

"Marcos procurou o que Nico tinha guardado sobre as visitas. Encontrou uma cópia da sua ficha na portaria e uma anotação para não encaminhar as chamadas."

Helena leu a instrução. Reconheci a rubrica do meu primo.

"Então você não sabia mesmo."

Aquela frase tinha pouco volume. Ainda assim, precisei apoiar a mão na mesa.

"Não sabia. E acredito que você tentou. Não precisa me convencer de novo."

Ela fechou os olhos. Uma lágrima caiu antes que conseguisse impedi-la.

Não a abracei. Eu queria, mas conhecia o modo como ela se afastara de mim no portão. Ofereci um lenço. Helena o aceitou e demorou alguns segundos para continuar.

"Eu fiquei com raiva de mim por sentir sua falta. Achava que era uma idiota."

"Você não era."

"Não diga isso como se apagasse tudo."

"Eu sei que não apaga."

Ela respirou fundo e puxou a página seguinte.

O timbre era antigo. Arquivo reservado da família Caruso. Na capa havia o nome do meu pai e uma data de trinta anos antes.

Helena Duarte.

Eu virei a folha. A mãe dela aparecia numa ficha de funcionária: Clara Duarte, arquivo executivo, admitida dois anos antes do nascimento da filha.

"Minha mãe dizia que trabalhava numa seguradora", Helena murmurou.

Havia uma fotografia de Clara, muito jovem, ao lado de meu tio Gabriel. Reconheci o sorriso dele antes do rosto. Ele morrera quando eu tinha dez anos, e meu pai guardara poucas imagens.

Helena tocou o canto da fotografia.

"Ela nunca me mostrou isso."

Sob a imagem havia uma anotação de reconhecimento familiar. Abri o documento. O nome de Gabriel aparecia no campo reservado ao pai da criança.

Li uma vez. Depois procurei a data, o cabeçalho, qualquer indicação de que entendia errado.

Helena acompanhou meu dedo até a linha seguinte.

"Gabriel era irmão do seu pai?"

Eu não consegui responder de imediato.

Ela puxou a folha para mais perto. O ar saiu de sua boca num som pequeno. Nós dois olhamos para a cozinha, de onde Sofia explicava a Salvador que cenoura muito grossa não cozinhava direito.

Se aquele documento dissesse a verdade, a mãe da minha filha era minha prima.

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