"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 2
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O TELEFONE ANTIGO
"Quero falar com ela."
Passei o celular imediatamente. Sofia o segurou com as duas mãos.
"Oi, mamãe. Eu estou bem."
Consegui ouvir o choro do outro lado mesmo sem o aparelho no ouvido. A menina encolheu os ombros, perdeu de vez a expressão desafiadora e olhou para os próprios sapatos.
"Eu sei. Desculpa. Não, ninguém me pegou. Eu vim andando."
Salvador desviou o rosto. Eu me levantei para dar alguma privacidade àquela conversa, embora não conseguisse me afastar muito.
"A moça da banca me ajudou a atravessar. A que vende figurinha. Eu mostrei o cartão."
Quando Sofia devolveu o telefone, os olhos estavam cheios d'água.
Helena me deu o endereço e exigiu que eu permanecesse na linha até ela chegar em casa. Obedeci. Enquanto Salvador buscava o carro, esperei perto da menina e ouvi o som da cidade pela ligação.
"Como ela passou pela segurança?", Helena perguntou.
"Entrou no saguão. Não chegou aos elevadores. Eu estava descendo."
"Eu estava a cinco minutos da escola. A vizinha ia pegar a Sofia, mas se atrasou. Eu avisei que..."
Sua voz se perdeu.
"A gente esclarece isso com a escola. Agora ela está aqui."
"Não fale comigo como se estivesse resolvendo uma entrega atrasada, Matteo."
Fechei os olhos.
"Você tem razão. Eu estou tentando dizer que não vou deixá-la sair da minha vista."
No carro, Sofia ficou quieta, presa à cadeirinha que Salvador conseguira com um motorista da empresa. Não perguntei se podia tocá-la. Apenas coloquei a sacola de comida ao alcance dela.
O prédio de Helena ficava numa rua estreita, acima de uma lavanderia. Ela esperava no portão. Reconheci o cabelo preso às pressas antes de reconhecer o resto.
Estava mais magra. Havia olheiras sob seus olhos e um remendo discreto no punho do casaco. Ainda assim, quando se abaixou para receber Sofia, era a mesma mulher que um dia entrara na minha cozinha descalça e me roubara uma xícara de café.
"Nunca mais faça isso", ela disse, apertando a filha com tanta força que o urso ficou preso entre as duas. "Você podia ter se machucado. Eu não sabia onde procurar."
Sofia começou a chorar.
Fiquei a alguns passos, com a sacola na mão, sem ter direito de entrar naquele abraço.
Helena levantou o rosto. Seus olhos encontraram os meus. Eu havia ensaiado tantas vezes o que diria se voltasse a vê-la. Nenhuma daquelas frases sobreviveria à presença de uma criança entre nós.
"Podemos subir?", perguntei.
Ela olhou para Salvador e depois para a sacola.
"Ele fica no carro. Você pode entrar por alguns minutos."
O apartamento tinha um sofá gasto, uma mesa pequena e um piano antigo junto à janela. Uma tira de fita prendia uma parte solta do acabamento lateral. Em cima dele havia partituras cheias de anotações.
Sofia foi lavar as mãos. Helena permaneceu entre mim e o corredor.
"A sua filha disse que você não estava comendo."
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O rosto dela endureceu.
"Eu tive um mês ruim. Perdi as aulas de uma escola que fechou, dois alunos cancelaram e a renda não entrou. Isso não dá a você o direito de aparecer aqui para me examinar."
Coloquei a sacola na mesa.
"Não vim para examinar você."
"Então por que veio?"
Eu olhei para a porta do banheiro.
"Porque há uma menina de seis anos que sabe o meu nome, e eu não sei nem a data do aniversário dela."
Helena desviou os olhos. Uma veia pulsava junto à sua têmpora.
"Dezenove de novembro."
Anotei mentalmente. Não confiava em mim para responder.
Sofia voltou e abriu a sacola. Ao encontrar o sanduíche inteiro, empurrou-o para a mãe.
"Esse é seu. Ele falou."
Helena olhou a embalagem por um instante. Depois sentou com a filha. Eu permaneci em pé, ouvindo as duas discutirem baixinho sobre a banana que Sofia já comera.
A normalidade daquela conversa era quase insuportável. Existiam milhares de refeições, tardes e manhãs das quais eu não sabia nada.
Quando Sofia foi buscar um desenho no quarto, falei:
"Por que você não me procurou?"
Helena ficou imóvel.
O modo como ela pousou o sanduíche me disse, antes da resposta, que eu tinha feito a pergunta errada.
"Eu procurei."
"Eu não recebi nada."
"Pois eu liguei. Mandei mensagem. Fui até o seu escritório."
Ela se levantou, puxou uma caixa de dentro de um armário e tirou um celular antigo, com a tela rachada. Ligou o carregador e esperou, com os braços cruzados.
"Guardei porque havia fotos da gravidez. Depois parei de abrir."
Quando o aparelho acendeu, ela procurou uma conversa. O nome que tinha dado ao contato ainda era o mesmo: Matteo, acompanhado de uma nota musical.
Eu me lembrava de tê-la chamado de exagerada por causa daquela nota.
Abaixo do meu número antigo, havia dezenas de tentativas de ligação. Mensagens sobre um atraso, depois um exame, depois pedidos cada vez mais curtos para que eu atendesse.
Uma delas dizia: Preciso que você saiba por mim.
Peguei o telefone apenas quando ela o ofereceu.
A resposta enviada do meu número era breve e cruel. Dizia que eu conhecera outra pessoa, que nosso relacionamento fora um erro e que ela não voltasse a procurar.
"Não fui eu quem escreveu isso."
Helena me observou sem piscar.
"Eu sabia que você ia dizer isso."
Passei para a imagem seguinte. Uma mulher loira estava abraçada a mim na entrada de um hotel. Lembrei da noite, de uma recepção beneficente, do fotógrafo pedindo que eu me virasse. A mulher estivera ao meu lado para uma foto de grupo. Aquela imagem cortada e alterada contava uma história diferente.
"Eu posso mostrar a foto original. Havia outras pessoas. Eu nunca tive nada com ela."
"E o telefone?"
"Naquela semana, eu estava fora. O aparelho ficou no escritório depois de apresentar um problema. Recebi outro chip."
Era uma explicação banal para uma perda monstruosa.
Helena levou a mão ao encosto da cadeira.
"Eu fui lá. Estava grávida. Esperei duas horas."
Devolvi o celular devagar.
"Com quem você falou?"
Ela olhou na direção do quarto, de onde vinha o ruído de uma gaveta aberta.
"Com o seu primo. Ele disse que você não queria me ver e que eu estava me humilhando."
Não precisei perguntar qual deles.
Nico cuidava da minha agenda naquela época. Fora ele quem me dissera que Helena recusava minhas ligações e não queria mais nada comigo.
A mulher diante de mim havia esperado por uma resposta durante meses.
E eu passara todos aqueles anos confiando no homem que a mandara embora.
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