"“Você É Meu Pai.” A Menina Que Mudou a Vida do Bilionário" Capítulo 1

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A MENINA NO SAGUÃO

"Você é meu pai. E deixou a minha mãe passar fome."

A menina disse aquilo no meio do saguão da minha empresa, diante dos elevadores, enquanto um segurança tentava convencê-la a voltar para a recepção.

Eu parei com a mão no botão do paletó. Ao meu lado, Salvador interrompeu uma frase sobre a reunião das onze. A recepcionista levantou da cadeira.

A criança devia ter seis anos. Usava um casaco grande demais, tênis molhados e segurava um urso de pelúcia pelo pescoço. Uma das orelhas estava presa com linha vermelha.

"Senhor Caruso, peço desculpas", começou o segurança. "Ela entrou atrás de uma visitante e disse que precisava..."

"Eu preciso falar com ele", a menina insistiu.

O funcionário tentou tocá-la no ombro. Ela recuou, e o urso escorregou debaixo do braço.

"Não encoste nela."

Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia. A criança também se assustou. Abaixou depressa para pegar o brinquedo e me olhou por trás de uma mecha de cabelo castanho.

Foi então que vi seus olhos.

Cinzentos. Iguais aos meus, embora os meus nunca tivessem me olhado com aquela mistura de acusação e medo.

Eu me agachei. O mármore estava gelado sob um joelho.

"Qual é o seu nome?"

"Sofia Duarte."

O sobrenome tirou o ar dos meus pulmões.

"Quem é a sua mãe?"

Ela abriu o bolso do casaco, tirou um papel dobrado e tentou alisá-lo sobre a própria coxa. Havia um nome escrito em letra infantil e, embaixo, um telefone.

Helena Duarte.

Por quase sete anos, eu conseguira atravessar os dias sem pronunciar aquele nome. Bastava vê-lo escrito para me lembrar da mão dela no meu rosto, do cheiro de café na cozinha e de uma manhã que eu passara tempo demais tentando esquecer.

"Sua mãe sabe que você está aqui?"

Sofia apertou o urso contra a barriga.

"Ela ia dizer que não podia."

"Então não sabe."

A menina balançou a cabeça. A coragem parecia estar acabando agora que eu falava diretamente com ela.

Olhei para Salvador.

"Avise à recepção que vamos ficar na sala de visitantes. Descubra de onde ela veio e se alguém está procurando por ela. Sem assustá-la."

"Eu não estou perdida", Sofia disse.

"Sua mãe pode estar achando que está."

Ela baixou os olhos para o telefone no papel.

"Você pode ligar. Mas primeiro precisa ouvir."

Eu conhecia adultos que não conseguiam sustentar minha atenção por trinta segundos. Aquela criança me fez guardar o celular.

"Estou ouvindo."

"A mamãe falou que já tinha almoçado ontem. Só que a panela tinha comida só para mim. Eu vi."

Uma das mulheres na recepção levou a mão à boca. Fiquei de pé e me afastei o suficiente para interromper a plateia.

"Venha comigo, Sofia. Vamos sentar enquanto eu telefono."

Ela não pegou a mão que estendi. Caminhou ao meu lado, mantendo uma distância pequena e cuidadosamente calculada.

Na sala, escolheu a cadeira mais próxima da porta. Salvador pediu uma toalha, água e alguma coisa para comer. Eu afrouxei a gravata porque, de repente, parecia impossível respirar dentro daquela camisa.

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"Quantos anos você tem?"

"Seis. Vou fazer sete em novembro."

A conta não exigia esforço. A lembrança da última vez em que Helena dormira na minha casa, sim.

"E como você sabe quem eu sou?"

Sofia me examinou como se eu tivesse feito uma pergunta boba.

"Tem uma foto sua com a mamãe. Ela guarda numa caixa de sapato. Eu perguntei, e ela falou que você era meu pai."

"Quando ela falou isso?"

"Faz tempo. Mas ela não gosta de conversar sobre você."

A menina puxou um cartão do bolso. Meu nome estava impresso em preto, acima do endereço da Torre Caruso.

"Eu achei onde você trabalhava."

Não perguntei mais nada naquele momento. Meu rosto naquela fotografia não provava paternidade, tampouco a cor dos olhos dela. Ainda assim, alguma coisa já havia mudado de lugar dentro de mim.

Uma assistente trouxe um sanduíche de queijo, banana e leite. Sofia olhou para a bandeja e depois para mim.

"É para mim?"

"Sim. Você pode comer."

Ela pegou o sanduíche, deu uma mordida e começou a embrulhar a outra metade no guardanapo.

"Não gostou?"

"Vou levar para a mamãe."

Pedi outra embalagem à assistente antes que a menina pudesse perceber o que aquela resposta tinha feito comigo.

"Vamos levar um inteiro para ela. Esse é seu."

Sofia esperou que a mulher saísse para voltar a comer. Seus pés não alcançavam o chão. A sola de um tênis se abria quando ela mexia os dedos.

Salvador deixou uma toalha perto dela e falou comigo em voz baixa.

"A escola é a duas quadras. A mãe já ligou para lá e está procurando na rua. A menina saiu pelo portão no horário da saída. Houve uma confusão sobre quem viria buscá-la. A coordenação está tentando falar com a mãe outra vez."

"Quero saber exatamente como aconteceu. Depois."

Ele assentiu. Eu nunca o vira olhar para mim daquele jeito.

Sentei na cadeira diante de Sofia e disquei o número escrito no papel.

Durante a chamada, a menina parou de mastigar.

Eu me lembrava do telefone antigo de Helena. Não daquele. Em outro tempo, soubera de cor o horário em que ela saía para trabalhar, o açúcar que colocava no café e o jeito de prendê-lo entre os lábios quando procurava uma chave na bolsa.

Não sabia mais sequer onde ela morava.

A ligação caiu. Tentei novamente.

"Ela atende número estranho?", perguntei.

Sofia assentiu.

"Pode ser aluno novo. Ela dá aula de piano."

Helena ainda tocava. Por algum motivo, foi isso que quase me desarmou de vez.

A segunda chamada foi atendida no terceiro toque.

"Alô?"

A voz vinha curta, ofegante. Eu a reconheceria em qualquer lugar.

"Helena."

Houve um silêncio. Ao fundo, ouvi uma buzina.

"Quem está falando?"

"Sou eu. Matteo."

A mão de Sofia apertou o guardanapo. Eu precisava ter começado pela única coisa que importava.

"Sua filha está segura. Está comigo."

Não houve resposta. Eu ouvi a respiração dela falhar, depois um ruído, como se tivesse esbarrado em alguma coisa.

"Helena, ela está bem. Entrou na torre e..."

"Por favor, não machuque a minha filha."

As palavras vieram quase num sussurro.

Olhei para a criança sentada diante de mim, para o leite no canto da boca e o urso apoiado na cadeira.

Eu tinha passado a vida fazendo as pessoas medirem o que diziam na minha presença. Naquele instante, teria dado qualquer coisa para que uma mulher não tivesse medo de mim.

"Eu nunca faria isso", respondi. "Diga onde você está. Vamos levar a Sofia até você."

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