"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 9
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DESSA VEZ, SEM ESCONDER
Às dez da manhã, Sérgio já tinha atendido três ligações dos proprietários e uma da Vitalis. Renata pediu que ele deixasse de atravessar a loja com o telefone no ouvido, porque os clientes estavam ficando mais nervosos.
Dona Marlene chegou perto do meio-dia.
Eu abri um sorriso automático e soube, pela expressão dela, que não era hora.
"É verdade que tinha dinheiro guardado esse tempo todo?"
Olhei para Renata. Ela estava orientando outro cliente. Não havia ninguém para responder por mim.
"O projeto tinha recursos, sim. O atendimento ficou muito limitado. Estamos mudando isso."
Marlene apertou a alça da bolsa.
"A minha irmã deixou de arrumar o telhado."
"Eu sei."
"Você sabe agora."
Fiquei calado. Ela tinha razão.
"Disseram na notícia que vocês ajudaram sete pessoas. Eu achei que era porque não dava."
Expliquei que eu também só descobrira recentemente como funcionava. Ouvi minha própria defesa e parei antes de dizer mais.
"A senhora quer conversar com a Joana? Posso chamar. E a associação precisa explicar isso direito para todo mundo."
Marlene me olhou por um momento.
"Eu quero que parem de fazer a gente parecer ingrata quando pergunta."
"A senhora pode perguntar."
"Então pergunte lá por mim por que ninguém achou importante avisar."
Ela saiu sem comprar o sabonete.
Passei o resto do turno com vontade de ir atrás dela, como se eu pudesse consertar a conversa acertando uma frase que não havia encontrado a tempo.
Beatriz nos reuniu naquela tarde. Explicou que a reportagem tinha usado informações de um relatório público da associação e procurado antigos solicitantes. Havia perguntas legítimas e algumas conclusões imprecisas. Não adiantava responder a tudo com uma foto bonita do teste recente.
Helena queria convocar uma apresentação rápida à imprensa. Valter sugeriu uma nota técnica. Sérgio perguntou se seria melhor esperar a situação acalmar.
Eu contei o que Marlene dissera.
Ninguém falou durante alguns segundos.
Joana puxou uma folha e começou a listar perguntas com a linguagem que ouvia no telefone. Onde pedir. Quem podia receber. Por que tinham recusado. Se o dinheiro seria entregue à rede. Se os clientes teriam de aparecer em fotos.
Essa última me fez olhar para Helena. Ela assentiu, sem tentar dizer que era diferente.
Marcamos um encontro na associação e divulgamos um resumo acessível antes. Beatriz conferiu os dados, Valter preparou os números e Joana organizou os canais de atendimento. As pessoas poderiam pedir esclarecimentos sem expor a própria história diante dos vizinhos.
Sérgio falou com os proprietários e foi autorizado a participar pela farmácia. Também explicou à equipe o que sabia e o que continuava pendente. Célia ainda estava furiosa. Pelo menos, agora, fazia perguntas a alguém que ficava para ouvir a resposta.
Na noite do encontro, minha mãe sentou na segunda fileira. Eu não tinha pedido que fosse. Quando a vi, senti o peito afrouxar.
Marlene estava perto da janela.
Helena começou sem contar como meu pai pagara uma compra para ela.
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"Eu ajudei a criar este projeto e, ao longo dos anos, deixei de acompanhar de perto o que acontecia com quem pedia ajuda. Recebia relatórios e aceitava explicações que deveria ter questionado. Isso é parte da minha responsabilidade."
Valter explicou os recursos, as despesas e os atendimentos. Alguém perguntou por que havia dinheiro aplicado se as pessoas precisavam de medicamento. Ele descreveu o objetivo da reserva, mas reconheceu que as regras tinham passado a impedir o próprio atendimento.
"O que garante que não vai acontecer de novo?", uma mulher perguntou.
Beatriz mostrou o calendário de divulgação dos resultados, a composição da equipe de revisão e os caminhos para contestar uma resposta. Não prometeu que toda solicitação seria aprovada. Explicou como saber quem decidira e por quê.
Quando chegou a vez de Sérgio, ele ficou de pé sem usar o papel que havia preparado.
"Eu orientava meus funcionários a não prometer nada sobre um projeto que eu mesmo não procurava conhecer. Isso fez com que clientes recebessem informação insuficiente aqui na farmácia. Nós vamos corrigir essa orientação."
Um homem perguntou se era por causa da venda. Sérgio respirou fundo.
"A venda apressou essa conversa. Não justifica o atraso."
Olhei para ele e lembrei do homem que proibira minha nota de vinte no balcão. Eu continuava zangado com partes dele. Também via o esforço que custava ficar ali.
Eu não estava na lista de falas. Mesmo assim, Marlene levantou a mão e apontou para mim.
"O Lucas vai continuar atendendo?"
O coração disparou. Olhei para Sérgio, mas ele não tinha uma resposta nova.
"Ainda não sei", falei. "Estou trabalhando normalmente enquanto discutem a mudança."
"Então resolvam isso também. Ele escutou quando eu precisei voltar."
Baixei os olhos. Não esperava aquela defesa depois da conversa no balcão.
O encontro não terminou com aplausos. Algumas pessoas foram embora contrariadas. Outras fizeram perguntas na saída. Minha mãe esperou que eu ajudasse a guardar as cadeiras e depois me deu um abraço curto, apertado o bastante para eu sentir seu rosto no meu ombro.
"Você comeu?", perguntou.
Quase ri de alívio.
As conversas com a Vitalis continuaram por mais duas semanas. Eu participei de uma delas e li os resumos das outras. Beatriz discutiu os termos, a associação decidiu sobre a parceria e os proprietários negociaram a venda. Eu precisava me lembrar disso sempre que imaginava que uma palavra minha faria tudo desabar.
A proposta final não era perfeita. A rede aceitou manter os postos da equipe atual durante dezoito meses, com condições de transição e capacitação previstas para depois. A associação conservaria as decisões sobre o auxílio, receberia uma contribuição anual definida e poderia rever a parceria se os compromissos não fossem cumpridos.
Os números foram avaliados por quem entendia deles. Joana conferiu se sustentavam o atendimento planejado. Só então o grupo aprovou a continuidade.
No dia em que Sérgio comunicou o acordo aos funcionários, Célia perguntou onde estavam as condições por escrito. Ele entregou as cópias antes de terminar o café.
Ela leu, tirou os óculos e olhou para mim.
"Dezoito meses dá para respirar."
Eu estava respirando como não fazia havia semanas.
A venda foi concluída. A fachada mudaria aos poucos; os atendimentos continuariam. No fim daquele turno, passei na associação para buscar o envelope que Beatriz separara.
Meu nome estava na frente, escrito pela mão do meu pai.
Dessa vez ninguém esperava que eu abrisse ali.
Levei para casa.
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