"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 8
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QUERIAM O MEU SOBRENOME
A mulher da Vitalis se apresentou como Marina e pediu autorização para mostrar uma ideia de campanha. Estávamos na sala da associação: ela, um diretor chamado Eduardo, Beatriz, Helena, Sérgio e eu.
No computador, havia uma fotografia antiga da Santa Clara. Era a mesma em que meu pai segurava a caixa no quadril.
Endireitei o corpo.
"De onde veio essa imagem?"
Marina olhou para Helena.
"Recebi no material histórico. É uma proposta interna, Lucas. Nada foi publicado."
Helena juntou as mãos sobre a mesa.
"Eu mandei. Achei que ajudaria a explicar o projeto."
Pedi que continuassem. Queria ouvir antes de me zangar.
Marina mostrou uma frase sobre gerações cuidando do bairro. Abaixo da fotografia, meu nome aparecia como exemplo de continuidade. Havia a sugestão de uma entrevista curta comigo, gravada na farmácia.
"Não autorizei uma entrevista."
"Por isso estamos conversando", ela respondeu. "Você pode ajustar a abordagem."
"E a contribuição para o atendimento pode ser ajustada também?"
Eduardo encostou na cadeira.
"São discussões diferentes. A parceria tem valor para os dois lados, mas precisamos de um modelo que caiba na operação."
Beatriz abriu a proposta de novo. Perguntou sobre o prazo de apoio e o compromisso com a equipe. Ele falou de integração, avaliação de desempenho e mudanças ainda em estudo.
Eu sabia pouco daquele vocabulário, mas reconhecia uma resposta que não respondia.
"A Célia perguntou se vai ficar empregada. Já faz mais de uma semana."
Sérgio olhou para mim, depois para Eduardo.
"Eu também preciso dessa definição para falar com a equipe."
Era a primeira vez que ele dizia aquilo sem baixar a voz.
Eduardo afirmou que não poderia garantir todos os postos de forma permanente. Beatriz explicou que não estávamos pedindo uma promessa sem prazo, e sim uma transição concreta, com condições por escrito.
A conversa se alongou. Em algum momento, percebi que meu nome ainda aparecia no computador, sorridente por baixo de uma foto em que eu nem estava.
"Podem tirar aquela página?"
Marina fechou a apresentação.
"Sem problema."
Helena me acompanhou até o corredor durante a pausa. Falou baixo, segurando o braço da cadeira vazia ao lado da parede.
"Eu devia ter perguntado antes de mandar a fotografia."
"Devia."
"É possível que essa divulgação ajude a conseguir apoio."
Olhei para ela.
"A senhora quer que eu sorria para explicar o projeto enquanto eles diminuem o que põem nele?"
"Quero que a gente não perca uma oportunidade por se fechar cedo demais."
Senti o calor subir pelo pescoço.
"Então discute a proposta comigo. Não coloca meu nome numa campanha para depois perguntar se eu gostei."
Ela recuou um passo. Eu tinha falado mais alto do que pretendia. Na sala, alguém parou de mexer nas xícaras.
Helena olhou para a porta e voltou para mim.
"Você tem razão. Mas estou com medo de que, se eles forem embora, o projeto volte a ficar parado."
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A confissão esfriou minha raiva um pouco.
"Eu também tenho medo. Posso ficar sem emprego. Isso não faz a proposta ser boa."
Ela demorou a assentir.
Voltamos para a sala. Beatriz havia preparado uma lista curta: apoio compatível com o funcionamento combinado, independência nas decisões da associação, comunicação clara aos clientes e condições de transição para os funcionários.
A campanha ficaria fora até que essas questões fossem resolvidas. Meu nome e a história de meu pai só poderiam ser usados com autorização específica.
Marina anotou sem discutir. Eduardo disse que precisaria levar o conjunto para nova avaliação.
"O cronograma da aquisição pode atrasar", avisou.
Sérgio não olhou para mim como se a culpa fosse minha. Fechou a própria pasta.
"Vou informar os proprietários de que precisamos dessa conversa antes de concluir a integração da loja."
Não ganhamos nada naquela tarde. Saímos com outra reunião, um atraso e mais incerteza. No ônibus, refiz as contas do mês e pensei se teria sido mais fácil aceitar a entrevista, continuar no caixa e deixar os adultos acertarem o restante.
Naquela noite, minha mãe me ouviu até eu terminar.
"Você está achando que precisa decidir o futuro da farmácia?"
"Às vezes parece."
"Então estão deixando peso demais em cima de você."
Ela puxou a lista de vagas que eu tinha anotado e me ajudou a escolher duas para enviar currículo. Depois fizemos um lanche com o pão que sobrara do café.
Foi um alívio fazer algo em que a decisão cabia inteira nas minhas mãos.
No dia seguinte, enviei os currículos antes de sair de casa. Ninguém respondeu naquela manhã. Mesmo assim, quando cheguei à farmácia, já não senti que precisava aceitar qualquer coisa para merecer ficar. Célia me pediu que encaminhasse um dos anúncios, e ficamos alguns minutos conferindo juntos as exigências da vaga, até ela apontar para mim e corrigir minha leitura apressada. Guardei o telefone com uma vontade inesperada de que nós dois tivéssemos escolhas.
Dois dias depois, recebi mensagem de Helena perguntando se podia me ligar. Disse que sim.
"Falei com a Marina", começou. "Retirei a autorização para usar o material histórico em publicidade. A associação pode apresentar o próprio trabalho sem oferecer sua família junto."
Apoiei o celular melhor no ouvido.
"Obrigado."
"Também entreguei a Beatriz a correspondência que ainda estava comigo. E a segunda carta do seu pai. Ela vai deixar disponível para você, como deveria ter feito desde o começo."
Lembrei do outro envelope sobre a mesa naquela primeira noite. Tanta coisa passara por nós que eu mal tivera coragem de perguntar por ele.
"Vou buscar."
"Não precisa ler comigo."
Fiquei um instante em silêncio.
"Eu sei."
Ela riu baixinho.
"Estou aprendendo. Devagar, mas estou."
Na manhã seguinte, antes que eu conseguisse ir à associação, Célia me mostrou uma notícia no celular. A foto era da fachada da Santa Clara, tirada da calçada.
O texto dizia que um projeto de auxílio ligado à farmácia mantinha recursos acumulados enquanto atendia poucas pessoas. Citava a venda e perguntava o que aconteceria com o dinheiro.
A primeira mensagem de uma cliente apareceu no telefone da loja antes de eu terminar a leitura.
Ela queria saber por que nunca tinham contado sobre a ajuda.
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